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21/10/2018

“Tudo começa pelo respeito”, e termina virando amor – a Rede Globo e o futuro


[Artigo para o público em geral]

O Nanini diz que se alguém casa com uma pessoa do mesmo sexo, então ele respeita. Ele respeita, insiste, do mesmo modo que respeita o casamento de um homem com uma mulher. Ele próprio é casado faz tempo com o Latorraca. Taís Araújo pede respeito ao cabelo do outro. Ela própria é negra, com o cabelo encaracolado atingido por xingamentos na WEB. Há muito mais gente por aí pedindo respeito.

Respeito é uma palavra que vem do latim respectus, e que tem a ver originalmente com o olhar pela segunda vez, um “olhar de novo”. Em nossos discursos o “respeito”, não raro, beira a palavra “tolerância” e, de modo mais intenso, “consideração”. Quando quer dizer consideração, pode não dizer os motivos – que não necessariamente são nobres. Quando quer dizer tolerância, pode realmente significar “fique na sua que eu fico na minha”. O respeito não implica em diálogo horizontal, conversação igualitária, amizade e muito menos amor. Mas pode implicar, no andar da carruagem.

A sociedade de mercado se expandiu na forma de sociedade capitalista. Hoje ela é a sociedade de consumo. Mas o consumo não está mais na sua forma classista (consumo para que o outro o trate de modo distinto – como Veblen analisou), mas na sua forma de individualismo extremado que evoca o culto do próprio corpo ou de sentimentos tidos como solitários e íntimos. Amplia-se o reino do leve e do sutil. Ganha-se em delicadeza e paz. Essa sociedade não colocou na jogada o amor, embora anos de cristianismo a ensinaram o que era, sim, agape e não só eros. Colocou na jogada a tolerância, do liberalismo de Locke. Por isso mesmo Marx usava a expressão Le Doux Commerce (de Montesquieu), ainda que o fizesse ironicamente. Ele sabia muito bem que o mercado traz suavização de relações. O capitalismo é a base para o “politicamente correto”, e nosso gosto hegemônico pela democracia, como se dá hoje, se fez pelo dinheiro que conseguiu superar o que não era doce. Aliás, se lembrarmos a tese de Sombart, de quanto o gosto da mulher pelo açúcar, no Renascimento, ajudou a ampliar todo capitalismo em suas empresas de busca de especiarias, aí sim entenderemos a amplitude material e espiritual de “Le Doux Commerce”. O capitalismo ensina o respeito. O respeito é uma vertente da doçura nas relações humanas.

A TV de Nanini e de Taís Araújo é isso: o arauto da busca por respeito, o trabalho na consolidação das forças benéficas da superestrutura capitalista. Trata-se da busca pela disseminação da sociedade da tolerância que o comércio mundial, agora realmente globalizado a ponto de casar-se com o chamado mundo virtual que tudo alcança, colocou em marcha. Mas aqui, é preciso, ao menos ao nível dos estudos comunicacionais, ter claro o que se passa no olhar de Nanini e no olhar de Taís Araújo na TV, quando eles falam em respeito. É necessário ler os gestos. Não é possível deixar de lado a encenação do dedo que mostra um “R” na camiseta, o “R” de respeito.

De onde vem a camiseta e o “R”? Não é algo pequeno. Nem é algo que veio de fora para o interior do âmbito comunicacional. A campanha é da própria Rede Globo, de iniciativa dela em parceria com UNESCO, UNICEF, UNAIDS e ONU MULHERES. É preciso aqui ter em mente o ambiente linguístico da campanha, de como ela se associa claramente à semântica dos movimentos de minorias, e de como se trata de um esforço maior, no qual os atores e todo um setor da Globo planeja novelas, filmes engajados nessa ideia da tolerância. O lançamento da campanha se deu no Programa da Fátima Bernardes, que a própria Globo transformou em um lugar da política soft de reivindicações civilizatórias. Além disso, a Globo está assim agindo em ponte direta com entidades como Anistia Internacional, Centro de Articulação para Populações Marginalizadas (CEAP), Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), Central Única das Favelas (CUFA), Grupo Dignidade, Instituto Velho Amigo, MetaSocial, Movimento Down, Instituto Sou da Paz e Viva Rio. Já faz algum tempo que a Globo se deixou permear por movimentos sociais que a viam como inimiga.

Isso tudo mostra uma Globo “mais à esquerda” do que a sua imagem, ao menos aquela imagem que grupos populistas sempre gostaram de manter viva. Sempre interessou ao populismo falar da “Globo manipuladora”. Antes era a esquerda que assim fazia, agora é a direita. Mas a Globo não está envolvida em tudo isso por política partidária. Ela está envolvida em tudo isso por conta de seu internacionalismo, de sua percepção dos caminhos da globalização e, enfim, pelo seu engajamento intelectual nessa força cósmica que ela própria talvez não perceba, que é a continuidade da sociedade de mercado em forma de sociedade de consumo. O consumo se casou de tal modo com a vida moderna que já não sabemos o que é viver senão na sociedade de consumo. A “mão invisível” de Adam Smith, ou a força do bem por detrás da bagunça, como na teoria de Mendeville, pode ser invocada aqui sob outro refrão. De fato, vivemos a fusão da nossa noção de vida com a noção de consumo. E o consumo, nos níveis em que é exercido, ou seja, como abocanhando todas as nossas atividades, se tornou o coração vivo do mundo. Ou ele permanece e cresce ou não teremos mais a própria vida.

Essa mão invisível atrela todas as ideologias que contribuíram e contribuem para a manutenção da vida enquanto vida de consumo. Sentimos sua presença no “R” da campanha do “Tudo começa por respeito”. O R é um laço, é uma borboleta e é um peixe. O laço indica amizade, a borboleta a liberdade e, enfim, o peixe evoca os antigos cristãos – o consumo dos cristãos. Não importa que o desenhista que fez o símbolo não tenha pensado nisso. O que importa é que o sentimento cósmico posto pelo mercado, de agregação das ideologias que sustentam o mercado, se expressaram por meio dele. O desenhista na fez senão ser um arauto do Espírito. Ou quase isso, pois a ideologia do respeito não é hegeliana, ela é kantiana, ela é ainda formal. Ela ultrapassará essa formalidade quando o mundo da mercadoria provocar o amor, não só a tolerância. E tudo indica que a força do consumo irá atingir o coração dos homens. Amaremos como consumimos. E será amor verdadeiro.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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9 Responses ““Tudo começa pelo respeito”, e termina virando amor – a Rede Globo e o futuro”

  1. Hilda Maria
    20/10/2018 at 22:16

    Parabéns pelo seu comentário.
    A minha preocupação é a trilogia igreja-televisão- partido político, cujo chefe escreve um livro com o título: Plano de Poder. Quem ler Tentáculos de Um Polvo Monstruoso Para a Tomada do Poder, lançado em Portugal no final de 1999 por dois jornalistas que trabalharam nas emissoras de Edir Macedo, deve ficar de cabelo em pé. Esse mesmo “bispo” (entre aspas porque seus diplomas são falsos, segundo a denúncia do jornalista Fábio Pannúzio) pratica uma nova venda de indulgências dos tempos medievais, a famigerada Teologia da Prosperidade (sem falar nos dízimos, ofertas, campanhas, mais o que chama de “propósito com Deus” e “sacrificar no altar” e Fogueira Santa) e sem cerimônia usa esse dinheiro para comprar espaço na sua emissora. E fica por isso mesmo enquanto seus crimes prescrevem. Ninguém levanta o dedo, ninguém fala nada. Ninguém denuncia seus abusos quando seus obreiros, são os verdadeiros responsáveis pelas despesas da igreja, enquanto o dinheiro recebido dos fiéis NÃO SÃO USADOS como manda a lei que a isenta de pagar impostos, obreiros pobres que muitas vezes mal tem para si, e aos jovens que são pressionados a abandonar os estudos para se dedicarem à igreja. E o seu “exército” Gladiadores do Altar que já está em vários países: Chile, Argentina, Colômbia. Num vídeo retirado da internet, mostra o pedido de fidelidade à igreja e a total entrega desses jovens que ouvem do pastor que devem ser “servo do Senhor” e sem questionamentos! Parece que não se engana à todos o tempo todo: denúncias de ex-obreiros, ex-pastores-ex-fiéis rolam na internet. Enquanto isso a IURD já está com mais de 100 prefeituras, deputados e senadores. Assustador. Até quando?

    • 21/10/2018 at 08:50

      Os Estados Unidos tiveram tipos assim. Diminuíram o poder deles por meio do fisco.

  2. wNDYR sACHISIDA
    12/08/2018 at 16:22

    Ghilerme Hajduk, pr acaso você é sérvio?

  3. wndyr sachisida
    11/08/2018 at 18:19

    pfrossor, em se trantando de respeito, Paulo Henrique, agora, petista e lulista desde criancinha, em seu conversa (a)fiada, não respeita a inteligência alheia, com suas tresloucadas diatribes contra a rede globo, sabendo, todos nôs, que ele “mamou” à farta nas tetas da emissora e, agora, se transforma em um verdadeiro torquemada moral da empresa que um dia o sustentou gernorsamente. e, além do mais, hoje, é um leg´timo “rottweiller” de lula e do pt!

  4. LMC
    16/07/2018 at 11:51

    Felizmente,no RS,a RBS TV,que é
    a Globo de lá,não transmite a
    Santa Missa daquele padreco carola.
    Isso também é respeito.

  5. Guilherme Hajduk
    15/07/2018 at 15:59

    Haja saco pra aturar esses grupinhos sociais que temem, mas fingem que não, tudo o que é grande, poderoso, influente, etc. Como se não houvesse méritos em ser grande, poderoso e influente! Exemplos: “ah, a Globo manipula!” (como você bem colocou no texto); “ah, porque a Coca-Cola é do mal, é do Diabo!”; “os EUA mandam e desmandam no resto do mundo, querem dominar o mundo com seu imperialismo e eles não se importam com ‘nós’!”; “os judeus são os grandes donos do capitalismo, eles controlam todos os setores de todas as economias!”. Isso tudo quando não criticam o próprio capitalismo… Tudo papinho de gente tonta que sabe que é inferior e daí fica falando essas merdas.

    • 15/07/2018 at 16:08

      Isso está acabando. É uma velha esquerda que agora percebe que também a direita faz isso. Falta a tais grupos uma sociologia melhor, mais atualizada, mais ampla, menos ideológica. É a burrice do estilo Pondé-Olavo

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