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11/12/2018

Parto assistido e morte assistida. Quando começará o sexo assistido?


[Artigo indicado preferencialmente para o público acadêmico]

O pai levou o filho na zona de meretrício. O garoto, completamente inexperiente, entrou no quarto, ficou um pouco e saiu. “Pai, não sei o que fazer lá”. O pai tranquilizou o filho: “Você entra lá, fica pelado e deita em cima da moça, e então vai acompanhando com o quadril os movimentos do som do meu bumbo aqui fora”. O rapazola fez o indicado e assim começou a coisa, de um lado o “bum, bum, bum”, e lá dentro o “nhec nhec” da cama. O pai foi acelerando de um lado, e do outro lado da porta o “nhec nhec” da cama foi ampliando o seu ritmo. Quando o pai já estava num “bum bum bum” frenético, o rapaz lá de dentro gritou: “pai, replica pai, replica!”.

Essa piada infame dos anos setenta descreve o que hoje seria o “sexo assistido”, na linha do “parto assistido” e da “morte assistida”. Todas essas práticas revelam um tipo de personal trainer ou, em termos gerais, um expert, que comanda a atividade de alguém que foi lançado na modernidade com a missão de ser um indivíduo-sujeito, mas que agora, nos tempos contemporâneos, perdeu sua condição de sujeito e mal se sustenta na posição de indivíduo. Ninguém mais consegue alçar-se à condição de sujeito, ou seja, consciente de seus pensamentos, responsável pelos seus atos e autojustificador de suas razões a fim de auto-desinibição. O sujeito e´aquele que passa da teoria à prática por si mesmo, mas, na situação atual, só faz isso de modo capenga, com o expert, ou seja, com alguém ao lado com o bumbo que lhe dá o compasso.

Muitos dizem: ora, o sujeito não se realiza porque nunca existiu, sempre foi um engodo. Outros falam: não é que foi um engodo, é que dentro de certas condições não pode mesmo existir, então funcionou e funciona como ideologia. Outros preferem uma posição menos pessimista e dizem: o sujeito é a condição natural do indivíduo, e se não se realiza, isso depende da história de cada um. A filosofia contemporânea têm dezenas de teorias da subjetividade. Mas, uma coisa é certa, vivemos agora a ideia básica de que, para ser sujeito, temos de arrumar um expert que nos faça parecer sujeitos, tomadores de decisões com capacidade de reflexão e escolha.

Posso morrer em casa, injetando-me algum veneno. Mas não! Preciso viajar quilômetros e dar o meu showzinho à parte antes de morrer, pois não consigo nem mais morrer. Preciso de experts para morrer. A “morte assistida” está na moda. Posso parir no hospital ou em casa, com ajudantes tradicionais. Mas não, para fazer nascer um bebê, agora, tenho de parir em “condições naturais”, e substituir os experts já existentes por uma camarilha de novos experts, que garantam que de fato estou fazendo o parto “assistido”. Em ambos os casos, e tantos outros semelhantes, sou um agente que deixa as condições de indivíduo-sujeito para conseguir tê-las por meio de muletas e, assim fazendo, abro mão da experiência. Ao fim e ao cabo, não vivo, pois deixo de lado as vivências. Uma pesquisa aponta: os que vão a shows e colocam lá o seu celular para gravar o show não veem o show nem ao vivo e nem no celular, não abrem mais o celular para ver aquilo. Perdem a experiência pela qual pagaram para ter. Isso por conta de que transferiram para o expert, o celular, a condição de ter a vivência do show.

Por que, afinal, chegamos a isso? Tocqueville, Lasch e Sloterdijk nos dão dicas.

Toqueville descreveu a América. Ele se impressionou com a igualdade. Cada pessoa se acha capaz de fazer as coisas por si mesmas, ser um indivíduo sujeito, uma vez que ao redor só tem iguais. Se o que está ao lado faz, eu também, que sou igual a ele, posso fazer. Toqueville chegou a dizer algo assim: os americanos não possuem estudos filosóficos, mas não precisam, pois realizam Descartes na prática. Na América a igualdade fornece a condição que os homens precisam para acharem que a razão é mesmo a coisa mais bem distribuída entre os humanos. Cada um pensa com sua razão, se faz uma sujeito, exatamente porque olha para o lado e não vê ninguém autorizado por Deus ou pelo sangue nobre como alguém melhor.

Mas a democracia americana e, com ela, todo o Ocidente que a imita ou tenta imitar, ganhou outra faceta quando Ford resolveu criar a produção em massa para um consumo de massa. O capitalismo mudou de rumo e, com ele, sua prima rebelde, a democracia. As mudanças psico-sociais desse novo momento foram bem percebidas por Christopher Lasch. Ele notou que a sociedade de consumo máximo, que obriga todos a caírem em algum tipo de linha de produção, iguala ainda mais os homens, mas não em direitos e, sim, na situação de expropriação do saber. Nessa hora, a igualdade não funciona como motor para se pensar com a própria razão, mas condição histórica e geográfica para se colocar diante de milhares de mercadorias em relação às quais não sabemos optar. Precisamos, então, para comprar, para viver, para pertence ao mundo onde tudo ser mercadoriza e se mercadoriza ao máximo, de gente que se diz especializada, e que pode nos falar o que pegar e o que fazer no grande Palácio de Cristal. Sai Descartes e entra o Grilo Falante. Sai o filósofo que fez apologia da nossa consciência e entra o bichinho que funciona como nossa consciência.

Quando Disney lembrou de reproduzir Pinóquio, de Collodi, e colocar ali a figura do Grilo Falante com destaque, ele nada fez senão escrever antecipadamente o que depois foi teorizado por Lasch: todos nós temos apenas um “mínimo eu”. O eu mesmo só se põe na hora que o Grilo fala. Sem o Grilo, nosso nariz cresce, nos tornamos falsos. Precisamos ser falsos, ou seja, ter o Grilo falando e não nós mesmos, para sermos autênticos nessa nossa fase contemporânea do capitalismo. Nenhum de nós consegue comprar um eletrodoméstico sem um expert, nem tirar férias ou morrer sem sem um personal trainer. Sem o Grilo, não somos gente! Ou alguém nos assiste ou nada somos. No basquetebol surgiu até mesmo a figura da “assistência”. Quem dá “assistência” é também um jogador a ser notado! Sinal dos tempos. Os governos, então, nem se fale, para cada político há dezenas de pessoas que falam por ele e fazem por ele. Ele próprio é apenas o centro por onde passa o dinheiro e por onde brota a estupidez.

Peter Sloterdijk tem dito que após 68 saiu de cena a assistência dada por filósofos e gurus às populações, e entraram as companhias de prestação de serviço de Assessoria. Todos se dizem assessores. Há a febre do “coaching” nos negócios e a febre da auto-ajuda e dos palestrantes banais, de outro. O coroamento disso é a quantidade de gente ouvindo youtubers analfabetos. Os governos gastam quantias enormes em assessorias. Claro que isso tem a ver com corrupção, mas essa corrupção é apenas subproduto do fato de que, para ser sujeito, precisamos da assistência. Os personagens de TV que fazem programas de auditório funcionam assim, como assistentes de grandes populações. Esses programas de TV, em sua maioria, são programas de auto-ajuda de energúmenos: gente que diz que devemos andar diariamente para ter saúde e que devemos verificar óleo e o pneu antes de viagens de férias. Isso combina com a sociedade leve em que vivemos. Combina com a ideia de busca de desoneração a qualquer preço, que é o que procuramos. Toda assistência visa a desoneração de nossa condição de … ser gente!

Não é à toa que cresce o sexo virtual: dispenso a parceira ou parceiro em função da tela do celular, do mundo virtual, e no máximo me masturbo. É a assistência do prazer, como foram os santos os assistentes do caminho até Deus, contrariando Jesus que disse que só ele era o caminho.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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One Response “Parto assistido e morte assistida. Quando começará o sexo assistido?”

  1. Eduardo Rocha
    22/05/2018 at 14:07

    Esse seu artigo me lembrou um pouco um livro que li recentemente de Agamben chamado Profanações. O filósofo italiano fala que talvez pelo fato da criança ser um ser incompleto é que a literatura para a infância está plena de ajudantes, seres paralelos e aproximativos, pequenos demais ou grandes demais, gnomos, larvas, gigantes, gênios e fadas caprichosas, grilos, ou caracóis falantes, burrinhos que fazem dinheiro e outras pequenas criaturas encantadas que, no momento do perigo, surgem por milagre para libertar do embaraço. (acompanhantes ou ajudantes). São aqueles personagens que o narrador esquece no final da história. Se assemelham a anjos, a mensageiros que desconhecem a mensagem que devem entregar, mas cujo sorriso, cujo olhar, e cujo modo de caminhar “parecem uma mensagem” (creio que o autor esteja se referindo a Jesus). Que de certa forma tem a ver com a “comunidade insuflada” em Sloterdijk. Um ajudante poderia ser Pinóquio um nem morto nem vivo, metade golen e metade robô. Nos romances de Kafka também vemos criaturas que se definem como “ajudantes” que mais atrapalham que ajudam. Ou seja, de certa forma as coisas podem funcionar também como amuletos ou talismã como objetos que ganham vida ou animação. O homem como um tipo de feiticeiro. A mãe e o pai se doaram nessa relação primitiva. Deram mais do que receberam (um tipo de voluntarismo). Somos seres durante boa parte da vida cuidados pelos outros. Professores, pais, amigos, parteiras, enfermeiras, empregadas, médicos, etc. O homem é um ser que amadurece muito tardiamente. Temos nossos acompanhantes simbólicos, físicos, imaginários, sonoros.

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