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29/03/2020

OS SETE ELEMENTOS DA CONTEMPORANEIDADE


Dinheiro, democracia representativa, paz, segurança, mídia, tecnologia e narcisismo são os sete elementos que chamam a atenção na nossa situação contemporânea. Descrevendo-os como eles se apresentam, podemos formar um quadro da modernidade, em particular como ela nos integra num projeto que já nem é mais ocidental somente, mas do mundo todo. Esse projeto realiza o mundo contemporâneo.

O dinheiro é o dinheiro capitalista. Ele liberta. Dá a chance de homens e mulheres transitarem por espaços que antes estariam restritos por cercas franqueadas somente a dinastias e grupos formados por laços de sangue. Os proprietários reinaram enquanto o dinheiro não reinou. A violência institucional se manteve como lei enquanto o dinheiro não se fez a principal arma da Terra. Mas, com o dinheiro capitalista, o homem passa a se mimado. Pagar e ser pago faz todas as barreiras do proprietário eterno cair por terra. Faz os exércitos deixar de serem milícias familiares para se tornarem mercenários ou profissionais.

O dinheiro capitalista ganhou sua universalidade, indo do mercado das coisas para o mercado de si mesmo, ou seja, para o capital portador de juros. Um banco recebe um ativo e pode transformá-lo em dois. Recebe o depósito e empresta mais que foi depositado. O capitalismo financeiro faz uma mágica maior que aquela do capitalismo industrial. O mercado que transformou a fábrica em lugar que os operários fazem, pelas máquinas, muito mais do que são pagos, tornou-se pouco mágico perto da autêntica mágica, a do mercado do dinheiro. No capitalismo financeiro o dinheiro se faz mais-dinheiro sem apelo qualquer mercadoria. Ele coloca no horizonte do homem a ideia da vida sem trabalho e da benção do ganho fácil.

Todavia, ao mesmo tempo, o dinheiro capitalista gerou a vida endividada. Milhares de pessoas, hoje no mundo, não conhecem outra disciplina senão aquela imposta pelos seus credores. Nações inteiras tem seus gostos orientados segundo os seus credores. Todo o amor é amor por conta de estratégias que os credores autorizam aos endividados. Credores comandam e, no entanto, também são comandados.

O dinheiro capitalista ainda traz um outro componente interessante: como equivalente universal que se estabelece entre os homens e entre homens e coisas, ele institucionaliza uma abstração real. O reino do formal e do abstrato se faz sentir em todas as dimensões da vida. Não é o homem que pensa abstrato. Mas é a abstração do equivalente universal, que põe o mundo sob a batuta da tautologia e sob o comando de equações, que torna o pensamento abstrato quase que sinônimo do único pensamento digno possível. Não raro, então, podemos amar a humanidade sem dar atenção ao mendigo da esquina.

Junto do dinheiro capitalista veio a democracia representativa. Os homens do dinheiro fizeram os homens dos laços de sangue se absterem de ditar leis. As leis, na modernidade, emanam das cidades, postas sob o comando das necessidades do dinheiro e não quaisquer outras. As pessoas na cidade têm de administrá-la e, então, criam conselhos, assembleias, partidos e aparatos governamentais postos em funcionamento pelo princípio de eleições de representantes. Uma classe de políticos profissionais surge para se agrupar a uma classe de burocratas e liberar todas as outras pessoas do encargo – que é sempre um tédio – de cuidar da coisa pública e de cuidar das demandas da população das cidades.

Ao mesmo tempo, a democracia representativa distanciou o cidadão de seus próprios interesses. Fez com que ele não soubesse direito se o seu representante não estava, de fato, representando muito mais a si mesmo do que seus eleitores. Se a democracia se corrompe, o que não é difícil ocorrer, ela passa a ser um fator importante de despolitização. Ninguém mais apela para projetos políticos. Todos ficam refém da ideia de que votar bem é votar no que não rouba, e não no que tem um projeto para a cidade.

Nesse caso, os conflitos sociais da cidade, certamente dividida em classes, perdem sua importância ou são ideologicamente abafados em função da mentalidade de que, em política, o que se faz é votar naquele que não é ladrão. As classes e a luta de classes são mascaradas pelo rouba e não-rouba.

Dinheiro capitalista e democracia representativa implicam, ao menos em princípio, em fim da lógica da guerra. De fato, os príncipes cessaram suas disputas e querelas. As nações, que substituíram os feudos, tenderam também a cessar suas beligerâncias. Para que o dinheiro capitalista viva em seu habitat, o mercado, é necessário paz. O mercado exige a paz.

A expansão de mercados trouxe, em um primeiro momento, novo tipo de violência. Mas ela tendeu a cessar, ou ficar esporádica. A vida desarmada se sobrepôs à vida armada. Desenvolveu-se então uma cultura que abomina a virilidade. O masculinismo e tudo que a ele é ligado cai por terra: a voracidade, a rapina, o rapto, o cultivo do “valentão”. Vemos hoje um espraiamento de um tipo humano que é o homem doce, afável, não bélico. O homem feminino impera sobre o homem masculino. O ataque ao “machismo” cresce de modo correto mas, também, com inadequações variadas. A violência se faz esporte e este, num segundo passo, vira entretenimento. O homem que ainda aspira a alguma virilidade deve ir para os exércitos que sobram como polícia do mundo (como o exército americano).

Fenômenos como a denúncia do bullying, a crença e a descrença no “politicamente correto”, a exigência crescente de respeito às minorias e coisas do tipo são, todos, frutos de uma época de paz, de fim da sociedade exacerbadamente viril, de deterioração da necessidade de força física. Há uma desoneração geral no Primeiro Mundo.

Ao mesmo tempo, o cavalheirismo – que era o contraponto ao masculinismo rude, impondo o masculinismo solícito – é destronado e, em seguida, esquecido. O cultivo do homem masculino que, ele próprio, cede aos encantos da mulher feminina, adocicando o mundo rude em determinados momentos, perde seu sentido. Todos os homens são doces e, então, se tornam também anódinos. O amor cavalheiro e o amor romântico se tornam um despropósito e, não raro, vistos como folclore. “É brega ser romântico” – dizem jovens. Poucos conseguem reviver o cavalheirismo em um novo patamar.

A ideia de paz se associou, é claro, à tentativa de consegui-la e mantê-la. Nesse caso, a vida futura é o que se faz necessário ser controlado. Todos os esforços são os de abolir o contingente, o esporádico. Nada por ser “um raio em céu azul”. Por um lado, o Estado de Bem Estar social, mesmo na berlinda por conta do neoliberalismo, aparece no horizonte como algo que não pode ser abandonado. O que se pode fazer se não houver aparato social de apoio para doentes, inválidos e velhos? A disputa pelos impostos, então, se acirra. Deve a seguridade social estar nas mãos do Estado ou nas mãos das companhias privadas?

Se cresce a ideia de segurança e seguros, e se isso é feito em uma época do dinheiro capitalista, eis que surge o melhor dos negócios: seguro para tudo, inclusive seguro para o dinheiro emprestado que pode não ser pago. Todo tipo de negócio se associa a outro negócio, que é o seguro sobre ele próprio. O capitalismo financeiro se amplia assustadoramente nesse sentido. Todos acham que podem até mesmo cobrar indenizações por conta de algum mal que, subjetivamente, lhes foi causado. Se é assim, as próprias companhias, sejam elas quais forem, pagam seguros que deverão estar atentos para as mais esdrúxulas reivindicações.

Todo esse processo de busca de segurança amplia os gastos estatais e privados em saúde e policiamento. A segurança do dia a dia se casa com a segurança diante da necessidade de manutenção da vida saudável. Entra-se por uma época em que todos têm plano de saúde e todos querem contratar equipes de segurança policial. Até os pobres começam a pensar nisso!

A atenção para com a saúde e o policiamento, na época do império do dinheiro capitalista, se associa ao mercado capitalista que cria uma tendência à diminuição das horas de trabalho. Com mais horas livres, a mídia se torna antes de elemento de comunicação, um elemento de entretenimento. O próprio jornalismo se transforma em entretenimento. Programas como o Fantástico, da Rede Globo, surgiram a partir dessa ideia: o próprio “show da vida”, que seria apresentado à parte do entretenimento, seria o entretenimento par excellence.

Essa disseminação da mídia em tempo real coloca outra oportunidade: a criação do consumidor-trabalhador. Aquele que consome o que a Internet disponibiliza é também seu produtor – tudo que faz aperfeiçoa o que a mídia lhe oferece. Se há jogos eletrônicos, quem joga o produz à medida em que o aperfeiçoa para seus idealizadores. Além disso, os próprios jogadores acabam por se tornarem profissionais de produção. Os youtubers que produzem conteúdo para o Youtube são também os que consomem vídeos do Youtube. A espiral aí só tem a crescer.

Surge então uma “sociedade do conhecimento”. Todos se educam mais. Mas também surge aí uma sociedade em que a formação dá espaço para aquele que não é formado, é o usuário. Nele, não ocorre uma absorção de conhecimento, mas uma descarga (download) para a qual ele se dispõe com usuário. A informação tosca a Fake News competem com a informação vinda dos formados academicamente. Surge aí o entrevistador que entrevista a si mesmo a partir do nada que produz, uma vez que sua única produção é ter “seguidores” mais vazios que ele próprio.

Nesse sentido, o neoliberalismo agradece! Ele desonera o trabalhador, tirando-o da fábrica e colocando-o sem direitos na sociedade. Completamente atomizado, o novo trabalhador se vê precarizado. Para sair dessa situação, torna-se consumidor-produtor. O trabalho invade o mundo da vida e do entretenimento, e o entretenimento passa a comandar o trabalho. O próprio entretenimento é trabalho. Os esportes viram jornalismo e este passa a se fazer como esporte. Além disso, toda a sociedade é tomada do ponto de vista lúdico. Fórmulas como o BBB dão o ritmo para a mídia e para a própria política. A ideia de “tirar da casa” alguém indesejável segundo critérios subjetivos “educa” o cidadão da democracia representativa, colaborando para com a despolitização e para o autoritarismo.

O entretenimento enquanto centro da mídia desonera, tira o peso da vida. No entanto, recoloca o peso em outro patamar. Estar em tempo real com o mundo como um todo é algo que cria um curto circuito no pensamento de vários adultos. A doenças psíquicas aumentam e a ansiedade torna-se um elemento do cotidiano. Na época da saúde regrada pelo dinheiro capitalista, também isso se industrializa. A terapia é obrigatória para a classe média enquanto as drogas que cuidam de síndrome do pânico e ansiedade se tornam obrigatórias para todos em todos os dias.

Uma sociedade posta nesses moldes é aquela que faz a tecnologia, nascida da proliferação da indústria no capitalismo inicial, se potencialize e reordene toda a vida. A Internet é fruto do dinheiro capitalista ao mesmo tempo que põe o capitalismo na ordem da financeirização de um modo inusitado. O dinheiro sem lastro torna-se mais possível do que quando foi admitido, por volta de 1970.

O mundo robotizado é, desse modo, não ficção científica, mas realidade do capitalismo que se faz presente de uma maneira fetichizada: não são poucos os que acreditam que há problemas modernos vindos da tecnologia, e que qualquer solução para os problemas da vida atual passa por descobertas tecnológicas. A tecnologia, desse modo, funciona como ideologia: ela não deixa as pessoas perceberem que é o dinheiro capitalista, ou seja, o próprio capitalismo, que gerou a tecnologia e seus problemas.

O cuidado com a ecologia, que é derivado da ideia de controle do planeta, é visto então como o que depende não de revoluções políticas, mas de revoluções tecnológicas desvinculadas da política criadora. Se o dinheiro é fetichizado, também o é a própria tecnologia.

Todos esses elementos se desenvolveram em conjunto, associados sempre ao credo liberal, superestrutura do caminhar do dinheiro capitalista, com o individualismo. O pertencimento a comunidades religiosas ou outras permanece, mas sob a hegemonia da importância do indivíduo, de sua liberdade e soberania. Todos podem ser uniformizados, contanto que cada um acredite que sua peça de uniforme foi feita para ele, exclusivamente. O individualismo se associa, nesse mundo, a um profundo narcisismo.

O dinheiro capitalista gera um mundo tautológico. O narcisismo é tautológico igualmente. Trata-se da ideia de não ver o diferente, de reduzi-lo ao espelho e, portanto, a algo que só pode ser aceito se for uma cópia de nós mesmos. Quando vamos ao banco e pedimos que o caixa nos dê o equivalente a uma nota de cem reais, o banco devolve a mesma nota: cem reais, o credita na sua conta cem reais. Uma autorreferencialidade está em comum acordo com a autorreferencialidade das pessoas nessa sociedade contemporânea. Nesse sentido, o narcisismo é o fio que transpassa todos os outros elementos aqui elencados.

A sociedade contemporânea joga com a disseminação da diversidade. Todavia, esta é enganosa. Ser diferente não é ser único, singular. É a singularidade que desaparece. No máximo, a singularidade é reduzida ao comportamento idiossincrático. Mas o autenticamente singular perde espaço. Ele é o negativo, o que põe a crítica a tudo única e exclusivamente pela sua presença. Como foi Sócrates em Atenas. Ele não foi o diferente, o diverso – ele foi o singular. Ele foi o obstáculo crítico.

Essa perda da singularidade faz do mundo um campo limpo, sem complexidades, com regularidade que permite paz e previsão, seguros e segurança, entretenimento repetitivo, produção enquanto consumo. Não à toa, a estética desse mundo é uma estética do liso. Nada de pedras no caminho. Tudo é fácil. A vida fascista, como dizia Mussolini, é vida pesada – e aspiramos todos a uma vida não fascista, liberal, liberada, desonerada. Assim, os pelos pubianos são rapados em nome da higiene e de uma estética que repete a tautologização do mundo, a autorreferencialidade, o narcisismo. Essa depilação tipicamente carioca ganhou o mundo contemporâneo – não à toa. Nada a louvar aqui!

PAULO GHIRALDELLI, CG, casa da Mariangela, 25/02/2020

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3 Responses “OS SETE ELEMENTOS DA CONTEMPORANEIDADE”

  1. Thiago Carvalho de Souza
    16/03/2020 at 20:55

    Se não fosse a escassez de dinheiro, compraria todos os seus livros.

  2. Bruno Leobleim da Silva
    28/02/2020 at 21:14

    Dariam um ótimo Livro este Elementos Professor!

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