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21/10/2018

O consumo intimista é a nossa esperança atual


[Artigo para o público em geral]

As pessoas normais gostam de consumir. As pessoas anormais, ou seja, os intelectuais, também gostam (vale lembrar: livraria e cinema são peças do shopping), mas não podem dizer isso, pois pareceriam jogadores de futebol. Há algo de degradante no estilo de vida de jogadores de futebol.

O não entendimento de nossos tempos pelos intelectuais é devido ao fato deles chamarem de “economia” aquilo que deveria ser chamado de “consumo” ou, melhor dizendo, a tara diante do shopping. “Economia” não é termo técnico, é eufemismo.

Não há nenhuma narrativa de esperança no horizonte. Meu amigo Contardo Calligaris, na Folha (14/06/2018) lembra de outro meu amigo, Richard Rorty, para falar que a narrativa da esperança precisa existir, e dizer também que ela está em baixa no Brasil de hoje, devido ao fracasso na economia (e na democracia representativa etc etc.). Isso nos tem feito mais depressivos. Deveria haver, segundo ele, um discurso de esperança a fim de dar sentido à nação. Mas, convenhamos, como o Brasil faria isso sozinho, quando o mundo todo está sob a mesma batuta? As nações podem estar indo bem ou mal, mas que há um sentido fora do consumo é plausível apenas para intelectuais – e talvez só da boca para fora. Nem padres acreditam em outro Deus que não o dinheiro. Nenhum religioso, fora o Papa, realmente acredita que o êxtase diante do milagre possa ser realmente real se o milagre não for a capacidade de trazer coisas efêmeras para dentro de casa, como disse Heine em um poema diante do capitalismo.

Talvez o não entendimento da modernidade como “sociedade de consumo” esteja no fato de que há muito usamos esse termo, e não temos notado que ele não diz algo de estável, mas algo com fases e cenas mutáveis.

Não vivemos uma época de compra de produtos, mas uma época em que a mercadoria já passou do produto para a marca – com a identidade pessoal que esta nos proporciona -, e que o próprio consumo não tem mais a ver com o olhar do outro, mas com a nossa própria curtição solitária. Lipovetsky tem alertado para isso: na análise do consumo sai Max Veblen e entra o espelho e o celular. Sai a ideia de que consumimos para o outro, ou seja, para a produção da inveja classista, e nos dirigimos à ideia de que o bom consumo é o da casa, dos aparatos e aparelhos para o corpo, e que o celular não é para comunicação e sim para seu funcionamento como espelho. O selfie atual não é “para a amiga”, mas exclusivamente um olhar petrificado das poses no espelho, se a amiga vai ver ou não, já não importa mais. Não somos narcisistas, no sentido vulgar que está na moda falar entre colunistas, estamos na fase do consumo em que o horizonte é a realização do narcisismo. Ele não é o fato, mas o ideal. Queremos ver em tudo um espelho nosso, e se não conseguimos isso, então voltarmos para o nosso apartamento single (onde está já uma boa parcela da população mundial) para falar com o espelho, com o nosso cão e com a selfie que pretensamente funcionaria como ato comunicacional. A opção mais racional é o cão.

Reparem: há mais gente curtindo o que ela mesmo coloca no Facebook do que o razoável.

Todos os profissionais do Entretenimento – que são espécies de personal trainers que substituíram os guros pré-68 – encalacrados em TVs ou se acotovelando como Youtubers bestificados já sabem disso (desculpem-me: há Youtuber não bestificado?). Estão desesperados na tarefa de chamar a atenção e, para tal, recorrem ao expediente de vender produtos que são masturbatórios. Só vale fazer aquilo que se faz para si. É o creme para o corpo, é o vestido para se olhar no espelho, é a viagem que se faz sozinho, é a aventura de carro ou moto na estrada solitariamente (no máximo para ser roubado por outro que não é outro, mas um mito – uma sereia!). A ideia básica era “antes só que mal acompanhado”, e mal acompanhado todo mundo está se está acompanhado, mas o que vale agora é antes com você mesmo, intensificado, que mal acompanhado. Tudo se passa segundo aquilo que Sloterdijk chama de “ideologia de Sartre”: fazer algo conosco a partir do que fizeram conosco. Somos inacabados e temos de nos experimentar, nos intensificar, e só assim seremos felizes. A intensificação é uma tarefa de auto-intensificação, uma realização individual, que se vê como solitária e assim se toma como feliz. Não é a academia o modo de fazer exercício atual, isto é, o não-jogo, o não-desporto? A narrativa da esperança é a narrativa do consumo, mas o consumo de agora é o consumo de tudo que possa se parecer com o vibrador masturbatório. O próprio sexo é uma atividade solitária. Milhares de pessoas pagam sites para verem mulheres e homens de masturbando. Se é para ver o outro, que seja pela tela, não real mas virtual, e que seja em posição de cultivo de si mesmo.

Essa faceta do individualismo moderno não deve ser condenada moralmente, como se fôssemos padrecos querendo recuperar o sentido de “comunidade”, ou seja, o ideal de paróquia ou qualquer coisa que lembre o aldeia medieval. Devemos entender isso como uma das vertentes do Iluminismo-Romantismo modernos, que se associou ao capitalismo em uma fase em que buscamos antes na nossa imagem revestida e intensificada a prótese de nós mesmos. Se somos, como Slorterdijk diz, biunidades que procuram se refazer, essa reconstrução pode também ser a reconstrução falseada pelo virtual, pela imagem de nós mesmos ou de outros em condições solitárias. Nunca esteve tão na moda a ideia de narrativas do eu sozinho. Quando um filme apresenta um trabalho coletivo, nos pegamos gostando da película porque o trabalho só foi coletivo por conta da idiossincrasia de cada personagem, pois o que conta mesmo é a ação performativa individual na desconsideração para com o outro. A série La Casa de Papel da Netflilx é bem isso.

Qualquer governo ou candidato que oferecer a todos a possibilidade de viver nesse reino do consumo intimista, e for levado a sério nessa promessa, é imbatível em eleições, sendo ou não corrupto, sendo ou não um FDP. E isso em qualquer lugar do Planeta. Putin têm êxito eleitoral porque tem devolvido o intimismo aos russos, inclusive nas versões mais perversas – como deixar que mulheres só reclamem de apanhar dos maridos se for pela segunda vez, e se existirem hematomas visíveis e consideráveis. O consumo de vodka é diferente do de cerveja, ele é solitário. Ninguém conversa com garrafa de cerveja, mas com a de vodka, sim.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60

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5 Responses “O consumo intimista é a nossa esperança atual”

  1. Francisco
    14/06/2018 at 16:39

    A minha graduação em direito é um exercício intelectual sem jogo. Não exatamente, pois paciência também é um jogo. Eu tento entregar o espelho do professor e enquanto isso tento me auto-intensificar com leituras relacionadas aos problemas que identifico na doutrina (dos quais eu jamais poderia dissertar em provas, pois seria uma afronta ao desejo de auto-intensificação do professor).

  2. bony
    14/06/2018 at 13:38

    Se consumimos marcas, me parece que existe uma tendencia semelhante no mundo das universidades internacionais que, submetidas a ranking, sao transformadas em brands. No Brasil pode ser que isto nao esteja acontencendo de maneira forte ainda, mas talvez seja esse o modelo americano. Todo mundo que quer estudar alguma coisa parece querer entrar numa universidade Ivy League. Mesmo que a universidade da esquina tenha professores formados numa universidade Ivy League, a universidade da esquina nao conta como objeto de consumo pois parece nao ser marca alguma. Me parece que o capitalismo americano nesse sentido esta transformando inclusive o mundo universitario na direcao do consumo intimista. O criterio pra escolher ou desejar consumir uma universidade me parece estar mudando em direcao em consumir uma marca, ao inves de ser uma questao puramente de prestigio intelectual. Nao estou tentando lamentar a situacao, apenas entender.

    • 14/06/2018 at 14:20

      O fenômeno do consumo define o novo individualismo, o indivíduo contemporâneo, e portanto o consumo intimista, que se associa ao consumo da marca, serve para universidades, amores e tudo o mais que parece fugir da esfera da mercadorizaçao, mas que não foge.

  3. Matheus
    14/06/2018 at 13:00

    Sobre a academia, parece q eu acabei de sair de uma sessão de psicanálise! Hehehe nunca gostei de exercício em academia, justamente por ser monótono, repetitivo e sem o Outro (enquanto outro)… Msm vendo os resultados no meu corpo, sempre abandonei… Às vezes me sinto um dinossauro hehe. Um dinossauro que escreve isso de seu celular, porém

    • 14/06/2018 at 13:34

      Todo dinossauro tem o direito atual de ter celular

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