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16/12/2018

O burro quer ser burro, os humanos querem ser felizes


[Artigo para o público em geral]

“X” foi feito para alcançar “X1”, que por sua vez serviu para alcançar X2 e assim por diante. Na sequência de perguntas pelas quais se faz alguma coisa, só chegamos a um termo final quando confessamos que o que se quer alcançar é a felicidade. Só assim se encerra uma sequência de razões. Aristóteles tinha um carinho especial por tal raciocínio.

“Eu não sou feliz”. Aí está uma expressão sujeita à argumentação. “Eu não quero ser feliz”. Uma tal expressão é uma bobagem. Quem diz isso, de que tal coisa é uma bobagem, não sou eu, mas Aristóteles. Santo Agostinho o acompanhou na busca da felicidade como imperativo para nós humanos, ou seja, o estado de eudaimonia.

Eudaimonia: eu = bom; daimonia =’ de daimonion. Bom daimon ou bom gênio. Ser coberto pelo bom gênio, eis a felicidade dos antigos. Com os modernos, “gênio passou a ser uma disposição pessoal, individual, interna, de talento e humor. E a busca da felicidade deixou de lado a relação com a cidade e com os amigos (Aristóteles), ou a relação com Deus (ou falta de carência) (Agostinho), para ser uma disposição da alma em um sentido psicológico, individual e pessoal. Podemos ser felizes sem Deus e com o Estado em deterioração – ao menos acreditamos nisso. Sim! Nós modernos acreditamos nisso. Inventamos a felicidade, disse Nietzsche a respeito dos modernos, em tom de deboche. Sua crítica se dirigiu aos modernos como os inventores dessa nova felicidade, esta que a restringe a estados subjetivos de pequenos prazeres.

Podemos desafiar a felicidade nesse sentido, como conceito moderno, meio que mesquinho e medíocre. Mas, só podemos fazer isso conceitualmente. Em termos sentimentais, do que está em nosso âmago energético, se dizemos que não queremos ser felizes, não estamos pensando de modo muito sofisticado não. Estamos nos tapeando. Quando dizemos que desdenhamos a felicidade, ou que decididamente ela não deve ser buscada ou não existe, então só há três opções para nós. Ou estamos em um estado patológico, ou somos adolescentes que queremos aparecer ou, enfim, somos burros; e esse terceiro estado não exclui os outros dois. Na verdade, em termos de imperativo de vida, fazemos de tudo para chegar o final de semana. Em geral, autores “realistas” em filosofia, que tentam negar isso para se portarem como superiores, tem a predileção pela burrice ou pelo banditismo.

Não depende de nós o desejo de ser feliz. Somos impulsionados por isso por uma disposição cósmica e política, e tanto  faz, nesse caso, estar com Aristóteles, Agostinho ou com os modernos. Há um estado almejado que move até o mais terrível dos depressivos, e este estado é o de busca de prazer. Aliás, é mais fácil hoje em dia a patologia da histeria que a da depressão.

Mas que não se pense que o depressivo não busca prazer. Muitas vezes a depressão é seu objetivo de “estar bem”, ao ter se transformado no que lhe restou como “sentido da vida”. Os mais profundos melancólicos buscaram a felicidade  fora da melancolia, ou então, estranhamente, no objetivo de manter a melancolia. Dar sentido à vida é uma forma de felicidade; ou melhor, o próprio âmago da felicidade. Esse é o segredo que agrega modernos e antigos a respeito do que temos quando temos a felicidade.

Quando o burro diz que não quer ser feliz, e ele não está na adolescência, ele é realmente burro. A própria definição de burro é esta: aquele que empaca, que não vai adiante, que não põe (ou encontra) objetivos para ir adiante, que não visa sair do pior para ir para o melhor. Às vezes ele passa uma vida toda burra por não conseguir se dar conta dessa verdade simples.

A busca do mundo melhor é inerente até a povos que não cultivaram a nossa filosofia da história cristã e moderna (no sentido ocidental), que implica em visão da história como progresso (dialético ou linear, tanto faz). O tempo dos antigos era cíclico, e ainda assim eles olhavam para o Céu para que este lhes mostrasse a harmonia do Todo com a casa de cada um. Oikos: casa, lar, daí “economia”, a ciência de administração do lar. Ser feliz era, para muitos antigos, ter um bom gênio, um bom daimon, aquela entidade espiritual que poderia cuidar da casa, o espírito de um patriarca morto. Para nós, em sentido completamente diferente, é bom que o Estado se saía bem na política econômica, para que nossa casa vá bem e para sermos felizes. O burro quer que a casa dele vá mal ou vá aos trancos e barrancos. E o adolescente é o que diz isso, para tentar se mostrar como “diferentão”.

Crescer, ser adulto, deixar a burrice, não é algo fácil. Muitos dizem que abandonaram o ideal de felicidade porque não cresceram e porque empacaram.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

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5 Responses “O burro quer ser burro, os humanos querem ser felizes”

  1. MARIO MOREIRA
    28/11/2018 at 18:45

    “O BURRO QUER SER BURRO, OS HUMANOS QUEREM SER FELIZES”
    Diz aí grande filósofo, como é que sabe que o burro quer realmente ser um burro? Se a felicidade é um estado de espírito, momentâneo, portanto finito, como pode um ser que se diz filósofo, portanto racional, comparar o fato, de um ANIMAL denominado “burro” com um SENTIMENTO ou estado de espirito denominado “felicidade”? Mas de certa forma, o absurdo dessa comparação, torna-se menos ridícula, se considerarmos que quem faz essa confusão é nada menos que o filósofo brasileiro que criou a filosofia da “desbanalização do banal”. Comparável apenas com a tentativa de ensacar o vento para fins energéticos.

    • 28/11/2018 at 22:58

      Mário, fiquei sabendo que você é burro, humano.

  2. LMC
    26/09/2018 at 11:13

    Tem filósofo que É CONTRA um mundo
    melhor e escreve em jornal e faz comentários
    na TV.É aquele reaça careca e fumante.

  3. zoroastro pereira
    26/09/2018 at 10:47

    mas, o senhor não considera que a nossa própria elicidade depende, também, dos outros, do “outro””? pois, segundo Sartre, “l1infer cest les autres”: “o inferno são os outros.

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