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21/10/2018

Nossa imagem moderna e seus animais


[Artigo indicado preferencialmente para o público acadêmico]

Ser moderno é saber que vivemos o tempo do macaco, da toupeira e do cachorro. São os três animais que abrem os tempos modernos, imortalizados pelas falas de seus pais: Darwin, Marx e Freud.

Sabemos que o macaco não é bem o macaco, no caso de Darwin. Ficou-se com a imagem do macaco por conta dele ser nosso primo mais próximo na evolução, e também pelo fato de que nosso ancestral não moderno teria uma aparência mais próxima da do o símio do que semelhante a nós. Mas, o fato é que “o homem vem do macaco”, no sentido correto da  expressão, diz que não temos mais como pensar o homem de modo exclusivamente metafísico. Não há uma consciência humana, de um lado, e a não consciência dos animais, de outro. Não são dois mundos, mas um único mundo sob um fio de desenvolvimento. Os ditos seres brutos e nós são todas criações do mesmo barro e de mesmas costelas.

No caso da toupeira, ela foi a escolhida por Marx para simbolizar o que ele acreditou ter descoberto como a base da história moderna: a revolução. Marx viu a história moderna como um silencioso caminhar do desenvolvimento das forças produtivas que, em determinado momento, entram em contradição com as relações de produção e, então, forçam uma transformação política que realinhe esses dois elementos em jogo. Esse movimento da preparação revolucionária se dá nos subterrâneos, e irrompe à luz do dia sem que possamos estar preparados. É exatamente como faz a toupeira, que cava às cegas e que bota sua cabeça para fora sabe-se lá onde e quando. Desconsiderar a modernidade como alheia ao conceito de revolução é perder pontos no trabalho de compreensão dos nossos tempos e de nós mesmos. A toupeira agiu na Independência dos Estados Unidos, na Revolução Gloriosa da Inglaterra, na Revolução Francesa etc. Não poderíamos falar dela em 1917 e, enfim, em 1989?

O cachorro vem na sequência. Freud olhou para o seu cão e o felicitou por não poder cair sob o “mal estar na civilização”. Ausente do mundo da cultura, ele não possui linguagem e, portanto, não comete atos falhos que podem ser tributados à grande descoberta de Freud (ou sua melhor redescoberta): o inconsciente. Não teriam o inconsciente, pois este é  fruto daquilo pelo qual não passaram, as exigência de sublimações vindas da cultura, que faz as forças se voltarem para o interior e transformarem  em energia não agressiva aquilo que seria, enfim, uma energia caótica e agressiva de simples autoproteção. Os cachorros seriam sempre felizes enquanto que nós, seus donos e, agora, seus pais, não poderíamos mais ser explicados senão com alguma consideração ao complexo de Édipo, o narcisismo e outras coisas – mesmo que seja para negar tudo isso, temos de considerar esses conceitos ou não entendemos a nós mesmos. Sim, eu sei que hoje em dia já vemos cachorros deprimidos e em clínicas, embora ainda não no divã.

Somos parentes dos seres brutos, somos revolucionários querendo ou não e, por fim, não temos todas as decisões que tomamos nas mãos de nosso eu reconhecido por nós. Essa é a imagem que o pensamento moderno tardio fez do homem para ele mesmo. Mesmos as pessoas desescolarizadas ou de baixa escolarização, que imaginam – ou que nós imaginamos – que fazem outra imagem do que somos, já absorveram essa imagem, ainda que de um modo pouco rigoroso. O saber do “macaco”, da “toupeira” e do “cão” está entre nós. Falamos disso. Imaginamos isso sobre nós mesmos. Temos espelhos definidos por Darwin, Marx e Freud como o homem do início da modernidade teve espelhos formados por Agostinho e Descartes. Estes, por sua vez, nos deram o conceito de vontade e elegeram a intenção como elemento chave na explicação de nós mesmos. Isso foi feito contra o esquema antigo (greco-romano) que nos via antes de tudo como seres da práxis, os que jogavam nos “dois tabuleiros”. o da causalidade humana prática e o da causalidade divina, a forma do tragicismo grego. A semântica atual incorporou a vontade e a intenção, inclusive juridicamente, e agora incorpora também o inconsciente, as determinações das convulsões sociais e a evolução.

Qualquer curso de “ciências humanas” tem de se servir desse tripé semântico: Marx com sua toupeira, Freud com seu cão e, enfim, Darwin com seu macaco. Caminhamos hoje, na ciência de ponta e na filosofia, criticando ou reformulando esses três pilares. São os nossos paradigmas. São o vocabulário pelo qual nos entendemos e com o qual temos de trabalhar. Não tê-los na ponta da língua e ser um universitário é ser um analfabeto funcional. É ser tonto autodidata onde todo mundo fez escola.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo.

 

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11 Responses “Nossa imagem moderna e seus animais”

  1. Joao bosco
    30/05/2018 at 01:20

    Perguntei se o fio condutor entre nós e os macacos seria a evolução

    • 30/05/2018 at 10:01

      O nosso elo com o mundo animal, todo ele, é a evolução. Antes de Darwin nós éramos tidos como de um reino misterioso, entre animais e deuses.

  2. Joao bosco
    30/05/2018 at 01:19

    É que eu aprendi com você que cada obra filosofica tem um fio condutor, eu perguntei se o fio condutor dentre nós dois macacos seria a evolução, Todos Os questionamentos que você colocou para mim na resposta fazem sentido sim eu tive aula de teoria da evolução da evolução das espécies no ensino médio entendo perfeitamente que Darwin inaugurou nossa ancestralidade primata que mudou todo paradigma da sociedade no sentido de se tornar mais secular ainda do que já era como observou Bem nietzsche Ficamos um passo largo mais distante da Bíblia mais estante da religião, foi uma auto afirmação da ciência muito grande nesse momento e da filosofia a ciência e filosofia ganharam território ganhando poder mais ainda

  3. Matheus
    29/05/2018 at 12:02

    Resumindo somos todos toupeimacacochorros

    Quais seriam os animais dos gregos? (Os cães de.diogenes? A coruja de Atena?) E romanos, cavalos? os medievais, a falcoaria? Heheh só por curiosidade msm

  4. João Bosco Renna Júnior
    28/05/2018 at 20:21

    Eu li num livro de filosofia eu escutei de uma filósofa que você conhece e o paradigma cientificista século 19 já caducou, porém até hoje não entendi qual é o paradigma que nós vivemos, Afinal ainda vivemos no paradigma no século 19 da forma como era, ou é diferente? Indique um texto seu ou então me dá uma dica

    • 28/05/2018 at 20:33

      João, eu não sei que filósofa falou isso. Poder ser que seja apenas uma frase sem conhecimento de causa. Se a referência é ao positivismo, sim, em parte ele caducou. Nietzsche anunciou sua morte. Nossa vida contemporânea, como eu ponho no meu texto, está na briga com esses paradigmas que coloquei aí, mas não para toda e qualquer ciência, e sim para aquelas que são herdeiras das “ciências do espírito” “ciências humanas”.

  5. João Bosco Renna
    28/05/2018 at 20:16

    Causalidade humana prática e causalidade divina, Em ambo os casos, causalidade significa determinismo?

    • 28/05/2018 at 20:34

      Não. Causalidade é causalidade. Determinação é uma palavra, causa é outra.

  6. João Bosco Renna
    28/05/2018 at 20:15

    Qual é o fio condutor entre os seres brutos e nós a evolução? Me parece que os protestos de 2013 São um bom exemplo da toupeira de Marques O que foi um movimento espontâneo da sociedade que começou com uma Faísca pelos 23 centavos da passagem e se transformou numa rede de cação aleatória cada um pedindo uma coisa diferente sem saber o que queria de verdade sem objetivo sem direção.

    • 28/05/2018 at 20:38

      Claro que a toupeira não se dedica a botar sua cara em bagunça de rua. Ela é mais importante que isso. Ela cavoca para no sentido de fazer as forças produtivas se desenvolverem até entrarem em contradição com as relações de produção. Escrevi isso. Por que não entendeu? É tão claro!
      Agora, sobre a primeira pergunta, realmente não entendi o que não entendeu. Você acha que antes de Darwin, havia continuidade entre seres brutos e nós? Você não sabe que só somos parentes do animais após Darwin? Você sabe o que é a evolução? Aquilo que se ensina em biologia no ensino médio, nos cursinhos, o nosso parentesco com os animais, a nossa filiação horizontal ao macaco etc etc. Nada disse faz sentido para você?

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