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21/10/2018

Enfim, tudo chegou ao bico do seio.


[Artigo para o público em geral]

Os decotes femininos continuam na moda, mas agora, a onda mesmo é que os mamilos fiquem em destaque por debaixo da blusa, com ou sem transparência. A ideia da estética sexy, que talvez seja a única estética que tem alguma durabilidade se é o kitsch que impera, está agora seguindo os passos do que Hobsbawm usou acertadamente como título de livro: “A era dos extremos”. Extremos em todos os sentidos, é isso que o século XXI poder herdar do século XX. E como tudo que começa como ideia tende a seguir, na modernidade, para o corpo, então os extremos corporais – no sentido metafórico e literal – tendem a ganhar a cena. Trata-se do gosto pelo que é sensivelmente mais abrupto. É a estética lisa, já observada por Byung-Chul Han em seus estudos sobre nossa sociedade contemporânea.

Nossos extremos são lisos. E o que não é da arte do liso deve de transformar nessa direção, ao menos em uma sociedade como a nossa atual, que procura a leveza (Sloterdijk e Lipovetsky) e a positividade (Byung-Chul Han). Por isso, a “depilação brasileira” está na moda e, enfim, também as cirurgias de estética íntima, que incluem desde o clareamento anal até a eliminação de arestas vaginais. Nada que pareça um fardo, que possa ser um símbolo de oneração, de enlace, de compromisso, de falta de velocidade no deslizar e, enfim, de rugoso, deve sobreviver. Essa é a regra de uma sociedade liberal de flexibilização de leis trabalhistas, de diminuição de encargos, de fim de experiências que requeiram um eu sem assessor ou assistência ou experts – os que tornam a vida leve por roubar a vida de nós. Em uma sociedade assim, tudo que se mostra sem rugas e sem rusgas é posto como pré-sala da felicidade. É a própria felicidade. A juventude não tem rugas. O nazismo não tem rugas, e a marca do rosto limpo, bem barbeado, da pela clara e … limpa!

Essa análise não vai contra as observações de Marx sobre a mercadorização. Esta é, em suma, a entrada de nossas vidas no mundo da abstração. E esta é uma  forma de alisamento, de polimento, de facilitação. Mas é de se notar que agora, nesse nova estética, cada detalhe corporal seja retomado, a cada dia, por tais imperativos. Chegou a vez dos seios. Eles deviam ficar inchados para serem lisos. Eles até tentaram ganhar uma feição dada pela malhação, ainda que não tenham músculos. Mas agora, a questão toda se aperfeiçoa: os mamilos têm de se tornar pontiagudos, lidos, capazes de marcar as blusas e serem apetitosos destaques para os olhos alheios – masculinos e femininos. Há uma pornografização nisso. Mas a abstração é também uma pornografização. É a troca do intricamento erótico pelo alisamento do explícito. Mais pixels? Então, necessariamente, mais cosméticos de alisamento. Caminhos tortuosos são para os do tempo do Roberto Carlos nas “curvas da estrada de Santos”. Na América, lugar do futuro desde há muito, as estradas são longas retas. O asfalto não tem buracos. É tudo como Chico Buarque gosta, mulheres sem orifícios. Os negros só puderam ostentar Black Power depois de décadas de alisamento do cabelo! E agora, vire e mexe, voltaram alisá-los!

As clínicas de cirurgia estética apontam que o ideal são bicos mais avolumados, que possam ferir as blusas. Os seios do momento, que todas as mulheres querem para si, são os que possam fazer o “efeito Kendall Jenner”. Bruna Marquezine está seguindo à risca a moda. A questão não é volume deles, mas o arredondamento que possa colher bicos ousados, extremados. Na “herança da era dos extremos”, que os bicos dos seios acompanhem o Planeta. Todos podem, então, posarem de Rousseau, o inábil que se espantou com o bico de seio murcho da bela jovem prostituta. Seios com bicos murchos é um dos defeitos que já as mulheres do passado, logo na entrada da modernidade, sentiram que era insuportável. Agora, é até pecado. E estou longe de recriminar esses novos tempos, não tenho tal poder crítico.

As clínicas de São Paulo já possuem as famosas injeções rápidas que alisam os bicos e os deixam pontiagudos. Procure a sua e fique na moda!

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Foto: Kendal Jenner, foto disponibilizada em vários sites da Internet

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2 Responses “Enfim, tudo chegou ao bico do seio.”

  1. Matheus
    23/05/2018 at 14:21

    E a moda masculina “lenhador” (que nunca viu lenha):
    Barbona, mas arredondada, sem arestas ou “pelos fora do lugar”, cabeça raspada ou um corte milimétrico, calça jeans sem uma dobra, camiseta dentro da calça lisinha… Gel, cera, loção pra tudo…
    O coreano acertou direitinho na estética lisa e positiva

    • 23/05/2018 at 14:28

      “Loção para tudo” – esse é ponto. É impressionante como vivemos uma tara pelo deslize, pelo skate.

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