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17/10/2019

Da escola de Suzano à mesquita da Nova Zelândia.


Falar do ataque à escola da cidade de Suzano como se se tratasse de uma ação daquelas do neofascismo tradicional é um equívoco. O ataque de tipo neofascista é o que ocorreu na mesquita de Christchurch.

Na bela Nova Zelândia, havia o texto adrede preparado e a mensagem para o resto do mundo. A ideia básica, lá, foi a de sempre: que os “estranhos” ao mundo da raça pura da Europa se afastem, que não venham estuprar as virgens brancas e roubar os empregos dos trabalhadores simples – como ele próprio, o terrorista.

A ação e o texto se ligam ao que chamamos de terrorismo internacional, inclusive aquele que se faz contra os ditos valores europeus – o terrorismo dos telebans e similares. É algo semelhante ao executado na Noruega, em 2011. Este agora, na Nova Zelândia, se deu exatamente para mostrar que “ninguém está a salvo, mesmo morando num lugar tranquilo”. A Noruega também tinha essa fama. O objetivo é neofascista, claramente posto, com referências bibliográficas e com um texto que qualquer Olavo de Carvalho poderia ter escrito, ou melhor, copiado. Trata-se de um feito para marcar a história da humanidade e, enfim, construir um legado. Tem ares megalomaníacos.

O ataque em Suzano é o realmente novo, pertence ao mundo contemporâneo, sem metanarrativas, sem grandiosidades ideológicas. Nada se quer ali de transcendente. Não há o comunismo das Brigadas Vermelhas. Não há a reinvenção de Hitler. Não há mil virgens esperando no Céu e muito menos o Jesus armado. Deus, então, faz tempo que morreu. Tudo que é grande desapareceu diante do que realmente importa: a comunhão do jovem com a sua arma, sua única amiga, sua companheira que irá lhe dar a supremacia individual por um minuto, contra os que têm “tem tênis bonito”. O neozelandês usa da arma. Os assassinos de Suzano foram usados pela arma. O suicídio cabe, portanto, para estes últimos, pois é assim que eles se mostram como agraciados com a verdadeira amizade que seus colegas de escola jamais vão ter, que é a amizade da arma. Não saíram de casa para serem mortos por outra arma, muito menos fugir. Foram para matar e morrer, mas morrer pela ação da companheira, a arma. Há nisso um cheiro da arma do filme dirigido por Thomas Vinterberg e escrito por Lars von Trier, o Dear Wendy.

Não há glória na ação da Nova Zelândia. A glória é algo do passado, assim pensa o moderno atirador na Mesquita. Existe a glória, ressurgida, nos atiradores de Suzano. Trata-se da glória individual, que se imagina singular, única, curtida pelo momento apoteótico em que jogam as imagens na internet, e recebem então, das comunidades virtuais tipo Chans, a reverência. Naquele momento, eles são de fato os que puderam realizar aquilo que tem de ser realizado. Nenhum recado é deixado ao povo que fica. Não há memória ou futuro ou herança ou ensinamento. Nenhuma luta.

A comunidade virtual Chans pode ter frases misóginas, racistas, homofóbicas e coisas do tipo. Mas ela não é um grupo organizado de terroristas que visam uma ação política. Ela não pertence mais ao mundo moderno, ela é pós-moderna. Ela é um grupo de cultivo da glória e do êxtase individual a partir da benção da arma, do abraço da arma. Querer procurar neofascismo tradicional na comunidade Chans, por conta do linguajar, é não entender nada. É não saber que o individualismo neoliberal a comanda, enquanto que nada liberal comanda o atentado da Mesquita.

O que rege a comunidade de tipo Chans, ao menos na ação de Suzano, é o espírito mostrado no filme The Bling Rings, de Sofia Coppola, que perturbou demais meu amigo Contardo Calligaris. O que está no espírito do ataque da Nova Zelândia pertence a qualquer enlatado estreado pelo canastrão Steven Seagal. Se tudo fosse arte, e não o horror, poderíamos nos vangloriar de sermos brasileiros.

Paulo Ghiraldelli Jr., 62, filósofo. Autor, entre outros, de Dez Lições sobre Sloterdijk (Vozes). Dirige o canal do youtube.com/tvfilosofia

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8 Responses “Da escola de Suzano à mesquita da Nova Zelândia.”

  1. 21/03/2019 at 14:36

    Professor, eu acredito que esse ataque na Nova Zelândia teve pouca midia pra algo tão serio como foi.. Se fosse em continentes como na Europa a midia seria enorme, e nisso conseguimos perceber como a midia que nos manipula na maior parte das vezes.

  2. LMC
    21/03/2019 at 13:48

    Pior foi ouvir no rádio o advogado de defesa
    do menor que foi preso pelo massacre de
    Suzano.Parecia o Gilmar Mendes xingando.Putz!!!

  3. LMC
    20/03/2019 at 11:40

    O ataque da Nova Zelândia tem cara de videogame real.

    • 20/03/2019 at 12:23

      Foi isso que levou Mourão ao erro, e também Ortelado.

  4. Elizeu Santos
    18/03/2019 at 01:51

    Paulo, tudo bom? Peguei dois livros: filosofia política para educadores e história da educação (publicado pela cortez), eu estou gostando bastante dos livros. Que tal fazer vídeos sobre os livros? Será interessante para apresentar aos novos leitores e instrução para os que já estão lendo. Forte abraço!

  5. Mathaus
    17/03/2019 at 20:36

    Não posso acrescentar nada, perfeito.

  6. Max
    16/03/2019 at 18:42

    Professor e filósofo Paulo, como sempre seu texto brilhante. Não teria feito melhor análise. Grato por abrir mentes. Grande abraço.

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