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26/05/2018

Casamento entre Pondé e Tiburi explica o mundinho do pequeno escândalo


[Texto para o público em geral (será?)]

Levanto cedo e me chegam dois informes de colegas. Primeiro, uma tuitada do Pondé: “Não haverá mais quaisquer expectativas quanto à masculinidade. O conceito caducará. Restará apenas o estuprador, o frouxinho e o menino bonzinho. O futuro próximo nos legará uma vida pequena, farta de cacarecos e cheia de tédio.” Depois, um vídeo da Tiburi: “Fica todo mundo querendo casar com o Lula, e aí você vai olhar os seus algozes, são uns caras frios, secos, sem tesão, e sem tesão não há solução”. E daí ela tira coisas como “a gente burguesa” não tem a felicidade dos pobres que “vivem uma vida leve” e depois “ganham bolsa família para serem mais felizes ainda”.

Eis o recado: gente burguesa não faz sexo, mas pobre faz e é feliz, diz a moça da esquerda; não acho um homem macho, diz o da direita.

É de se pensar como que Richard Sennett acertou ao escrever o hoje já clássico O declínio do homem público.  Não digo que acertou em tudo, mas eu reformularia a sua tese da seguinte maneira: nossa vida contemporânea, ao menos para alguns intelectuais televisivos, responsáveis por uma popularização de teses pseudo acadêmicas, nada guarda da vida política, tudo se resume a comentar a vida privada e profetizar sobre ela. E aí, pela própria situação midiática em que se encontra esse pessoal, o “ibope” os chama para falar de sexo. Querem falar de destino e política, mas precisam falar de sexo nisso tudo, pois desaprenderam tudo que nossa herança cultural deixou sobre a polis.

Não creio que estejamos vivendo de fato uma situação em que os políticos já não sejam mais políticos, mas apenas marionetes de um palco que exige deles o trabalho cotidiano de cometer escândalos, financeiros ou sexuais (em geral conjugados). Mas uma coisa eu sei: o grupo de midiáticos que vive da propaganda política – e o caso de Pondé e Tiburi é bem exemplar nisso – e que cumpre funções intelectuais em partidos (num sentido amplo), está de fato envolvido na despolitização e despublicanização da política. Eles realmente entraram pelo caminho estreito dos que acreditam que a vida moderna é, exclusivamente, a época em que a  vida privada ganha seu domínio sobre a vida pública. Precisam falar de sexo, do presente e do futuro do sexo, devem tirar a polis da política para colocar no lugar somente as partes pudendas, pois estão envoltos demais na ordem do necessário escândalo, a ordem que faz o público sucumbir ao que seria secreto.

Quase ninguém se escandaliza com sexo. Mas o público que acompanha Tiburi e Pondé, ainda está nessa. Pois é o público que chega tarde. É um público específico que fica “sabendo das coisas” pela mídia – um tipo especial de mídia. E essa é a mídia que chega tarde. Então, os intelectuais desse tipo de platéia, precisam falar de sexo, como doutores, politizando o sexo, culturalizando o sexo, para se acharem falando de algo válido. Lutam desesperadamente por atenção em uma época em que o escândalo é o senhor de todas as coisas. Eis o imperativo que lhes cai como canga no pescoço: ou posam como reveladores de pequenos escândalos diários ou perdem o “ibope”.

Em um livro de Alain Badiou que já critiquei, mas que, reconheço bem, tem seus méritos, há uma observação interessante sobre o escândalo. Ele diz: “(…) a função do escândalo em nosso mundo. O escândalo sempre se apresenta como a revelação de um pedacinho de real”. (Em busca do real perdido. BH, Rio e S. Paulo: Autêntica, 2017, p. 15). E mais adiante, ele explica: “A única função do escândalo reside, assim, na teatralização de um minúsculo fragmento do real enquanto denegação desse mesmo real” (p. 16-8). Mala de dinheiro e sexo são fragmentos do real. Quem tem um público que chega tarde nas coisas, vê revelações sobre o sexo (e malas) como descobertas a respeito do real. Esse público confere autoridade, então, sobre quem fala disso de um modo aparentemente culturalizador, não ginecológico. Esperamos que gente que se coloca à direita ou à esquerda fale de política, de projetos políticos, mas eis que então eles se negam e falam de sexo. Um profetiza (em lamentos) que não haverá mais macho, a outra profetiza (em regozijo) que os pobres sempre serão felizes porque fazem sexo. Mostram que sabem sobre o real, e que deixam que seu público fique sabendo de tudo, pois poderão olhar por uma fresta e, então, ver a realidade que outros escondem.

Quem fica com o pequeno escândalo, que é o segredo contado pelo guru, tem a nítida impressão que está de posse do pedacinho do real, que não está de todo imerso na ignorância ou na ideologia ou na ilusão, e que com isso participa do status de intelectual que os próprios gurus possuem. Trata-se de alguém “não alienado”!

Claro que nem Tiburi ou Pondé possuem consciência clara de que estão nisso, ainda que, em alguns momentos, possam intuir sobre o pastiche que constroem. É que, de fato, em certo sentido estamos todos envoltos no mundo da importância do privado no seu nublamento do público (Sennett) e no mundo de “busca do real perdido” (Badiou). As táticas que descobrimos para falar disso precisam coadunar com o nosso ganha pão, e eis que alguns se arranjam bem juntando essas duas coisas e dizendo por aí: eu sei do que é íntimo, eu sei do que é escândalo, então eu sei do que é o real. Esse é o tipo de canto de sereia que atrai sempre o público que, pelo trabalho ou falta de tempo ou falta de disciplina, fica sabendo das coisas tardiamente, pelos popularizadores midiáticos; e aí fica sabendo do torto pelo mais torto. É gente que, no máximo, lê Bauman (aposto que direita e esquerda desse tipo gosta de Bauman!). É o pessoal que acredita que ganhou ensinamentos, ganhou status de intelectual, por ouvir esses fantásticos segredos revelados por seus gurus partidários.

A internet facilita ainda mais a vida desse tipo de falante, palestrante e arauto de partido. Pois a internet é o mundo da frase curta e do vídeo, e o recado sobre o escândalo deve ser feito de maneira curta. Pois o escândalo não é da ordem da reflexão, é da ordem do impacto, do flash. E esses gurus de partido, na direita e na esquerda, não são intelectuais reflexivos, são intelectuais do impacto, ou seja, do pequeno escândalo que funciona no sentido de provocar um “oh!”. Esse “oh!” que faz com que os que o pronunciam se imaginem no Real.

Talvez estejamos com isso vivendo uma nova era de ideologização. A ideologia dos que fazem a classe média, na direita e na esquerda, se sentir capaz de estar entendendo alguma coisa por conta de ter visto o que ninguém sabe, aquilo que só os seus gurus sabem, pois estes, por magia, estão nas camas de todo mundo, observando tudo, e nos contando tudo. O fim do macho, o começo do tesão pelo operário – “oh!” Esse é o real? Esse é o fragmento do real a que tenho direito! Ah, que bom que meu guru me contou isso. Faço parte, agora, do clube dos intelectuais, “os que sabem das coisas”.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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9 Responses “Casamento entre Pondé e Tiburi explica o mundinho do pequeno escândalo”

  1. Thiago Ricardo
    02/05/2018 at 17:40

    Reparou como tem de “reveladores” banalizando a Alegoria da Caverna?

  2. LMC
    30/04/2018 at 14:37

    Pondé é um comediante mais a
    direita como o Carlos Alberto de
    Nóbrega.Já a Márcia é uma
    comediante mais a esquerda
    como o Zorra,da Globo.Ambos
    sem graça nenhuma.

    • 30/04/2018 at 14:46

      Nóbrega não é de direita. Nem o pai dele. Nóbrega foi um dos primeiros a abrir o programa para o Lula, quando ninguém abria. E votou no Lula no segundo turno, dado que votava no Covas. O filho do Nóbrega foi petista. Comparar o Nóbrega com o Pondé é ofender o humor.

  3. Joao bosco
    29/04/2018 at 20:44

    Eu leio seus textos a 4 anos foi o texto que eu mais de risada me divertir muito valeu meu domingo cara. Deixa eu tentar fazer algumas observações e corrija se eu tiver errado, eu entendi que você quis mostrar que eles tão tentando formar uma pseuda-intelectualidade de um pseudo paradigma ou seja o sexo é um novo paradigma paradigma sexistas que substitui a razão, a última instância para atribuir sentido a realidade é o sexo, se relacionando também o sexo como um valor da pós verdade a pós verdade do novo paradigma sexistas, da mesma forma que na política tudo que não que é oposto a minha fascista a ética no comportamento no âmbito dos valores de quem eu não gosto está limitado ao sexo e o sexo diz a verdade do que está por trás pseudo verdade do que está por trás download Dead Quiz uma nova filosofia mas que na verdade é uma ideologia Por que vem pela frente é o escândalo o aparente o oh, é o pathos que deixou de ser Logos.

    • 29/04/2018 at 22:45

      João, a gente devia chorar né? Mas, como não dá, a gente ri.

  4. Bruno
    29/04/2018 at 20:28

    Se eu conheço os podres dos agentes envolvidos em um acontecimento, então eu sei “A Verdade” a respeito desse acontecimento.

    “Ou posam como reveladores de pequenos escândalos diários ou perdem o “ibope”.”
    Daqui a pouco, Tibúrcio irá escrever o “Guia Politicamente Incorreto do Fascismo”, cheio de “revelações” bombásticas.

    • 29/04/2018 at 22:45

      Bruno, é isso! Tive que ceder um pouco ao Badiou.

  5. Matheus
    29/04/2018 at 19:33

    Nossa já ia mandar o vídeo da fulana… Até a Marilena Chauí defendendo a Dilma passaria de mais sã do que a novinha aí

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