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14/12/2018

Bonner entre japoneses e brasileiros – a ética do dever e a moral do gosto.


[Artigo para o público em geral]

William Bonner apresentou ontem (19/07/2018) dois fenômenos exemplares, um no Japão e outro no Brasil. Colocou-os no mesmo pacote. Os japoneses não possuem garis, eles mesmo catam a sujeira das ruas. Dizem que é uma contribuição à sociedade. Os brasileiros vão a um hospital para brincarem com crianças doentes, ou dão aulas gratuitas em escolas carentes. Bonner está corretíssimo ao fazer jornalismo edificante. Mas a ideia de que exemplos edificantes possuem a mesma matriz motivacional, que correspondem à mesma ética humana universal, é um erro.

O jornalismo que expõe bons exemplos, que transparece sempre – felizmente – na editoria de Bonner no JN da Globo, é claramente necessário, especialmente em um país como o nosso, em que a esperança é mais que tábua de salvação. Mas entre o jornalismo, que é expositor e motivador, e a filosofia, que é investigativa e crítica, há uma boa diferença. Se igualamos o que os japoneses fazem por conta de uma ética do dever com o que os brasileiros fazem por conta de uma moral sentimental, confundimos tudo e acabamos por minar nosso entendimento sobre em que época vivemos.

A ética do dever dos japoneses e nitidamente não ocidental, não moderna. Ela é comunitária e remonta à honra medieval. Adaptou-se bem ao capitalismo moderno que, por outras vias, cultivou o dever – o dever da autonomia, posto por Kant que, por sua vez, tinha um pé no luteranismo. O ascetismo dessa ética esteve presente no protestantismo, que Weber bem analisou como um incentivo ao movimento industrial moderno e capitalista. Nós, brasileiros pós-modernos o brasileiros e, por isso mesmo, pós-modernos, não temos uma ética propriamente dita, mas uma moral. Estamos imersos no emocionalismo contemporâneo. Não temos deveres, mas sim o sentimento leve de que é “bom fazer o bem”, e melhor ainda se for um bem posto pelo show business – que venha o Criança Esperança! Essa moral emocionalista está ligada ao individualismo contemporâneo, que é diferente do individualismo moderno. Ela é uma moral do capitalismo no qual é vigente a sociedade de consumo pós-Era do Fordismo.

Kant trouxe para a filosofia a noção de um eu prático, que é preenchido pela liberdade da autonomia, ou seja, a capacidade de dar para si mesmo a regra ou lei criada por si mesmo. Kant encontrou o prazer desligado do mundo empírico. O prazer vindo de um cumprimento de uma lei que vem da própria razão finita, a razão humana. Ter a vontade racional obedecida por si mesmo, pela própria vontade, é o ideal da autonomia. O eu se preenche se cumpre sua lógica interna. O imperativo categórico diz que só se deve seguir aquela máxima sua que pode ser posta como lei universal como uma lei natural. Então, obedecer essa lógica é obedecer a si mesmo, ser racional, ser feliz (ou melhor, satisfeito) por poder cumprir sua racionalidade. Eis aí o núcleo do eu, do indivíduo, do sujeito moderno. Um eu assim é um eu cheio. Os japoneses podem não saber nada disso, mas o dever que possuem com a comunidade se parece, nos resultados, com o dever kantiano, nas premissas e motivações.

Esse dever kantiano é mais leve que o dever dos japoneses. É mais leve que o dever religioso ocidental. Mas é mais pesado que o não-dever, ou seja, com o que diz a moral contemporânea. Nesse último caso, desaparece a autonomia racional e entra a individualidade e independência da vida contemporânea. É necessário fazer as coisas por “gosto”. Não se trata de se sentir bem, interiormente, com a racionalidade; mas de se sentir bem, ainda que internamente, mas quase como quem se sente bem por causa de um prazer estético, de quem cultiva um si mesmo que precisa ser preenchido por algo. Um eu sem dever interno revela uma alma vazia. Pede-se então um “complemento de alma”. Boas causas postas socialmente – “fazer o bem como se ensina da TV” – é um bom complemento de alma. Não à toa esse tipo de individualismo se casa com o amor às marcas (I love brand).

Na sociedade atual não cultivamos a compra dos produtos, nem mais consumimos para aparecer, apenas consumimos marcas que, enfim, não são para esnobar, mas para criar identidade pessoal para nós mesmos. A adoção de uma marca comercial que, enfim, patrocina as diversas campanhas de “fazer o bem” (da ecologia passando pelo cuidado dos animais até chegar no combate ao racismo e ao abuso de menores etc.), funciona como um “complemento de alma” (Lipovetsky, A sociedade pós-moralista, p. 185; A cultura mundo, p. 95). A sociedade atual é uma sociedade não mais kantiana, mas também já não se adéqua mais ao “É proibido proibir” dos muros de Paris de Maio de 68. Ela é uma  sociedade em que poderíamos até falar em pequenos deveres, mas nem são deveres, são pequenos gostos que criam algum tipo de responsabilidade mínima, leve, que sustenta fios de uma sociedade que está sob o individualismo extremo, mas que ainda precisa ser, enfim, uma sociedade. É necessário então cuidar de crianças doentes e cuidar de animais como quem satisfaz um gosto, idêntico ao gosto de usar um perfume ou de passar mil cremes na pele em frente ao espelho, na solidão do lar single. Muitas propagandas atualmente cultivam esse tipo de vida single. A Coca Cola não é para ser tomada a dois, mas sozinho, para dar “gás na Copa”. O “creme Nívea para homens” é para ser passado diante do espelho, para se ter uma pele macia para si mesmo. O perfume e a roupa são para serem postos para você mesmo. O amor homossexual – que não raro tem algo de narcísico (olhar para o mesmo  sexo é como se olhar no espelho), que permite a opção de não se ter família, se torna o ideal, e é o escolhido como alvo desse tipo de propaganda. Ser homossexual entra para a moda em uma época como a nossa. O consumo é o consumo de si, do corpo. Nessa onda entra essa moral do gosto pela satisfação emocional. Dizendo mais corretamente: o emocionalismo ganha do emocional.

Penso que isso deixa bem claro que japoneses e  brasileiros, vistos pelo Bonner, não estão fazendo nada igual. São comportamentos diferentes. São o mesmo capitalismo que criam épocas diferentes na mesma época cronológica. Aproximam pessoas, fazem com que se possa colocá-las em espelho no Jornal Nacional. Na superficialidade da TV, serve como incentivo mútuo. Trata-se do bom pragmatismo, que certamente ajuda a fabricar “o Brasil queremos”. Não acho ruim, reitero, que estejamos tentando construir um mundo melhor. Mas não temos que homogeneizar tudo quando se trata de entender o que estamos fazendo e vivendo.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo.

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2 Responses “Bonner entre japoneses e brasileiros – a ética do dever e a moral do gosto.”

  1. Guilherme Picolo
    30/09/2018 at 10:08

    “A sociedade atual é uma sociedade não mais kantiana, mas também já não se adéqua mais ao “É proibido proibir” dos muros de Paris de Maio de 68. Ela é uma sociedade em que poderíamos até falar em pequenos deveres, mas nem são deveres, são pequenos gostos que criam algum tipo de responsabilidade mínima, leve, que sustenta fios de uma sociedade que está sob o individualismo extremo, mas que ainda precisa ser, enfim, uma sociedade. É necessário então cuidar de crianças doentes e cuidar de animais como quem satisfaz um gosto, idêntico ao gosto de usar um perfume ou de passar mil cremes na pele em frente ao espelho, na solidão do lar single. ”

    Essas pequenas responsabilidades, como critério de definição pessoal e identidade, então, seriam forma de a pessoa criar um senso de pertencimento social? Mas isso tudo não é superficial e baseado em conveniências do momento? Se for assim, teríamos apenas um parecer ser e não um ser, um teatro, em que, ao apagar das luzes, nada de estável e sincero remanesce…

    Estava relendo “A Terceira Onda” do Alvin Toffler e acho incrível como uma obra de 1980 pode ser tão reveladora para os dias atuais (ao menos do ponto de vista social)…

    • 30/09/2018 at 11:48

      Quer ver algo interessante sobre o nazismo, pegue o filme Uma história americana.

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