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17/08/2018

A”sociedade dos indivíduos”: autocurtição, emponderamento e outras caricaturas da época do selfie


[Artigo para o público em geral]

OS INTELECTUAIS que estão de fato tentando compreender a vida atual deveriam notar que a inveja acabou, que o olhar classista, que busca o outro para se medir, perdeu tônus e sangue. “O inferno são os outros” não tem mais espaço em uma sociedade onde o Outro desapareceu.

Estamos na sociedade de consumo, sim, mas não aquela em que podíamos estudar Veblen para entender o cotidiano. Aquela do consumo específico, de acordo com o lugar social, e que visava distinções de grupo, terminou. Estamos na sociedade do consumo de si mesmo. É uma sociedade onde não se consome produtos, mas antes de tudo marcas, que nos dão o prazer de avalizar produtos que criam um “suplemento de alma”, nos dizendo como é bom estar sozinhos, como é bom curtir nosso corpo para nós mesmos. O simbólico das marcas todas, atuais, dão esse padrão. Mesmo quando são marcas que incorporaram causas sociais (ecologia, direitos humanos, diversidade etc.), elas representam para nós a chance de criarmos identidades cujo objetivo é mostrar para nós mesmos quem somos à medida que gostamos de ficar conosco.

É impressionante o quanto cresceu na Internet o número de fotos e filmes de animais se olhando no espelho. Os humanos redescobriram o espelho como um lugar que causa sensação, e não como um lugar em que nos preparamos para ver se estamos bem para sair e encontrar outros.

Se repararmos bem nas propagandas de hoje, veremos que os homens do marketing já perceberam isso. Do carro ao creme de pele, do amor solitário ao vestido, tudo é do âmbito do “curtir” – mas antes de tudo o curtir a si, o prazer de usufruir de si. O carro é para andar sozinho por uma estrada. O creme é para algo para se passar à noite, sem parceiros. O vestido antes de tudo para “se sentir bem”. O espelho e o Facebook são para nós, para cada um de nós. Ninguém está mandando mensagens por meio do Facebook que, afinal, é o espelho. No máximo, se são ainda mensagens, são para si mesmo. Até o sexo (o amor) é só entre espelhos: ou o sexo masturbatório, virtual, ou o sexo com o mesmo sexo – a bissexualidade que povoa o mundo atual nada é senão a busca de espelhos, é antes algo meio narcísico que realmente amor a dois. Os livros de Lipovetsky mostram isso. Os livros de Sloterdijk coroam isso. Os livros de Agamben e de Byung Chul Han não negam tal situação. São perspectivas diferentes, de cada um, mas elas não discordam tanto quanto a essa questão.

Nunca o nosso mundo, povoado de imagens, foi tão incisivo quanto ao reconhecimento do advento da “sociedade do indivíduo” em seu mais culminante desejo: o de se achar capaz de dar a si sua própria regra. Kant disse isso:  a autonomia significa que o homem dá a si, pela sua razão, a sua própria regra – e isso é a liberdade. Mas em Kant, era a razão que tinha que por essa regra. E a razão prática dizia, segundo Kant: faz da sua máxima moral que pode ser universalizada como lei da natureza o seu imperativo categórico. Mentir, mesmo que para o bem de muitos, não podia ser um ato moral – isso por conta de que a mentira não pode ser universalizável. Se todos mentirem, a comunicação e a vida se tornam inviáveis. Assim, a regra moral é uma regra racional. A vontade individual de obedecê-la faz o ser moral se manter moral por conta da lógica, e sentir uma felicidade interior exatamente por não ferir a lógica. A razão quando não fere a lógica de satisfaz.

Guardamos disso a ideia de autonomia, mas de um maneira bem menos rigorosa. O rigor kantiano é cansativo. Exige sacrifícios. É mais fácil ficar com imperativos que não sejam racionais, e que não exijam uma consciência tão firme. Nessa hora, para continuarmos a agir como indivíduos, o melhor seria tentar alguma flexibilização nas regras. Dar um drible na razão e apelar para a natureza. Trazer Rousseau para voltar um passo e não ir com Kant até o fim. Ceder aos desejos da natureza dentro de nós. Isso traz uma sensação de autonomia, mas não é a autonomia de Kant, da vontade racional, e sim dos desejos naturais. Mas os desejos naturais sempre trazem problemas, pois conflitam com o Outro. O mais interessante então é seguir os consultores que nos ensinam a ser sujeitos. Eles dizem: sejam indivíduos mesmos, indivíduos tão individuados que a única coisa que devem fazer é entender que o proto-indivíduo nasceu nas celas da vida monástica. Ali não há o Outro. Pois só há o Outro como Deus onde Deus não está morto. Na nossa sociedade, voltar para a célula monacal, ou seja, para o quarto ou apartamento single, é realmente ficar quase sozinho. A alma clama, então, pela velha companhia da voz da mãe, intra-uterina, e eis que a marca dos grandes monopólios aparece com um produto que leva à curtição de si. Dá-se o “complemento da alma” pelo consumo. Mas um consumo que sustenta essa nova individualidade. O máximo dessa imagem que explicita o contemporâneo são as levas de jovens com fones de ouvido. Ninguém existe, só o som. E quando adentram o quarto ou apartamento, continuam com o fone no ouvido. Estão na cela monacal dentro da célula monacal. Trata-se de um mistura de narcisismo com autismo.

O pensamento do individualismo americano criou o “Do it  yourself” (DIY). Caso isso surgisse hoje, não traduziríamos para “Faça você mesmo”, como traduzimos. A América se criou como o lugar do DIY porque ela própria optou pela bastardia. Negou a mãe, a potência imperialista chamada Inglaterra. Então da noite para o dia, aqueles que já haviam sido escorraçados da Europa, se viram novamente sozinhos, e tiveram de criar um mundo sem modelos prévios. O DIY se tornou regra geral e isso se aplicou também ao homem, daí o mito do Self Made Man. Aliás, não é à toa que cada americano ao se despedir diga ao outro: Take care yourself. Cuide-se. Ou melhor: vire-se com o seu eu! A sociedade de consumo nos moldes atuais resolve esse problema de modo a democratizar essa possibilidade. Você sempre pode ter algo realizado por você para você e sobre você. Há marcas especializadas em lhe dar identidade e depois oferecer os produtos que você precisa para manter essa identidade, santuário da sua individualidade. O capitalismo deu passos e conseguiu suprir a incapacidade de cada um de ser indivíduo a partir de Kant que, enfim, não era mesmo uma coisa fácil.

Todavia, talvez aqui estejamos dando a Kant uma continuidade com a sociedade de consumo que, nos moldes que ela se realizou, possa ter muito mais a ver com uma corrente de pensamento concorrente: a corrente romântica. Aludi a Rousseau, mas creio que os livros de Charles Taylor (leitor de I. Berlin) no fazem notar Herder e a “teoria expressivista”.

Contra o a visão objetivante do homem, a antropologia expressivista de Herder e da geração do Sturm and Drung, viu no homem o self autorrealizador. Nesse caso, a regra racional não tinha que ser a sua medida, e sim a vida como se mostrando e se fazendo pela expressão. A linguagem foi tomada pelos Iluministas como uma forma de representar o mundo, mas Herder a tomou como a expressão do homem e, nessa expressão, a própria constituição do homem. O pensamento vem junto com os sentimentos, e a vida humana se expressa e no momento que se expressa, como uma obra de arte, também se faz. O eu é essa obra de arte que não está aí para representar o mundo, mas se põe como autoconfeccionada na medida em que se expressa. O eu é uma obra de arte que se olha. A galeria é o apê single, a telinha do celular, o espelho. Ou então um falso outro: o bajulador.

Podemos pensar no capitalismo que nos trouxe à sociedade de consumo nos moldes da autocurtição, então, não como uma maneira mais fácil de criar uma caricatura da vida moral kantiana, mas uma caricatura de vida moral expressivista. Assim, seríamos herdeiros ruins de Rousseau e Herder, não de Kant, ou não só de Kant. Seríamos a junção da sociedade do espetáculo e da sociedade do consumo de si num palco em que o diretor mostra uma peça de Herder, mas sem nunca ter lido Herder, ou seja, apenas ouvindo falar aqui e ali. Uma peça pastiche, para o próprio diretor. Sim, a peça que mostra as inúmeras propagandas sobre emponderamento feminino, algo que Herder poderia reconhecer como um resto de seu vômito.

Se pensarmos no quanto o individualismo americano tem, se ele fosse algo teórico, de francês e alemão, e de fases do romantismo, podemos entender muito bem essa faceta pronta para o pastiche que é o self made man na base do DIY. Isso atinge hoje o mundo ocidental todo, e vai engolir o mundo oriental mesmo que os chineses queiram resistir. Os russos tentaram e viraram piada. O Japão resistiu e um dia caiu fácil. O Irã e o mundo Islâmico pensa em resistir e acordarão com o DIY na garganta. Aliás, se pensarmos no ato terrorista de auto-explosão, logo notaremos o quanto o islamismo terrorista se prepara para a caricatura do expressivismo, e o quanto poderá surgir daí uma esdrúxula teoria de produtos de consumo para o terrorismo individual, para que o terrorista possa se sentir bem consigo mesmo. Isso terá bem mais valor, para ele, que as cem virgens.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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7 Responses “A”sociedade dos indivíduos”: autocurtição, emponderamento e outras caricaturas da época do selfie”

  1. LMC
    24/07/2018 at 13:20

    O Facebook virou Fakebook,mesmo.
    O Facebook não retira textos que
    neguem o Holocausto.Pode isso,Arnaldo???

  2. Bruno
    23/07/2018 at 16:36

    Terceira pergunta: as pessoas podem se mostrar para elas mesmas ou para outras no sentido de um auto-engano. Assim, Facebook ou Fakebook?

    • 23/07/2018 at 19:33

      Não há preocupação nenhuma como o outro. A inveja acabou.

  3. Bruno
    23/07/2018 at 16:34

    Outra pergunta: pensar a diferença como diferença, e não negatividade, com Deleuze, para o tempo contemporâneo, é um bom caminho para esse contemporâneo?

    • 23/07/2018 at 19:32

      Uma singularidade, um atopos, como já escrevi a respeito de Sócrates, na linha do Byung Chul Han?

  4. Bruno
    23/07/2018 at 16:31

    Esse texto é um quase-clássico. Pergunta: há sentido em ser intempestivo hoje, algo como o Homem do Subsolo de Dostoievski, alguém que não é um algo, que não possui identidade fixa?

    • 23/07/2018 at 19:31

      Mas quem tem identidade hoje? As identidades estão completamente se tentando fixar, daí essa busca que se faz, entre outras coisas, pelo consumo de marcas

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