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26/09/2018

A sociedade de consumo da mercadoria-pessimismo


[Artigo destinado ao público em geral]

A literatura de auto-ajuda vende o chamado “poder do pensamento positivo” e a dita “força do otimismo”. É um fenômeno típico do século XX, em especial a partir do momento em que a sociedade de mercado adquiriu as características de sociedade de consumo, seja na fase do consumo classista, seja na fase do consumo atual, individualizado. Em uma sociedade desse tipo, tudo é uma questão de “se sair bem”. Tudo é uma questão de satisfazer gostos e não pegar gato por lebre. Tudo é uma questão de “saber negociar”. Uma negociação que passa cada vez mais longe do sindicato e cada vez mais pela imaginação de que cada um é dotado de uma  expertise – adquirida – para vencer na mesa de negociação. Da compra do desodorante ao aumento salarial passando pela escolha do amor e do sexo até chegar na mensalidade escolar, todas as regras caem de quatro diante do consumo, da prática de se saber consumir, de pegar a melhor vantagem.

Não há lugar nesse tipo de mundo para o pensamento negativo, ou seja, o pensamento crítico. Criticar é perder tempo. Criticar é negar o que há. E o melhor é aceitar o que há e contornar as desvantagens. Tudo é um jogo de luta marcial oriental: aproveitar a força do outro e fazê-la reverter ao nosso favor. Nesse sentido, sempre se é possível ser confiante, radiante e otimista.

O otimismo cria então a imagem do ouro de tolo. Mas o engraçado é que o pessimismo também. Ele também funciona assim na sociedade de consumo.

A primeira regra do pseudo-intelectual, num mundo assim, é se opor a ele e ficar ou taciturno ou blasé ou crítico-bicudo. O intelectual para ser intelectual deve ser, então, pessimista – a grande descoberta do primeiro-anista de ciências sociais ou filosofia, agora mais no setor da direita que na esquerda! Deve abraçar Voltaire e lembrar o quanto este, com o Cândido, mostrou a idiotice do otimismo. Mas o mercado e a sociedade de consumo são maiores que Voltaire. Também o pessimismo e o casaco de intelectual caem no mercado. Também o pessimismo se vende. A ideia de que ser crítico da “busca de um mundo melhor” é uma forma de auto-ajuda.

Muitas pessoas se acham ajudadas por terem aprendido a se portarem como intelectuais, ainda que, claro, não sejam intelectuais mesmo que tenham algum diploma. Isto é, não são autênticos. O intelectual conservador, que vende a desgraça do mundo, que fala do destino catastrófico, que ouve os oráculos da maldade e, enfim, da impotência, é também uma peça na sociedade de consumo.  Hoje, talvez mais que qualquer outro. Em certas sociedades leves ele adquire uma função primordial. Ele serve como uma forma de certas pessoas poderem fingir que choram e, então, se olharem no espelho e dizer: “sofro, como sofro!” Vender o vitimismo dos ricos aos ricos, ensinar os ricos e poderosos a se fazerem de vítima é também um mercado. Esse mercado, atualmente, graças à sociedade da abundância, cresce assustadoramente. Em uma sociedade assim há “a pena do Neymar” (sincera!) e a certeza de que o mundo será dominado pela desgraça, ou, para os mais burrinhos, dominado pelo “comunismo” ou algo assim.

O vitimismo dos ricos e poderosos é uma maneira de realismo vendido. Trata-se da recuperação, por vias mercadológicos, de uma literatura que tem o mesmo número de palavras que o vocabulário da auto-ajuda, só que invertido. É feito para um público que quer posar de intelectual em rede social ou que ainda pensa em comer queijo e vinho em casas dos poucos ricos que ainda comem queijo e vinho. A maioria dos ricos, mesmo, na verdade, vê Anita pulando. Já não sabem apreciar um vinho. Pensam que sabem. Do mesmo modo que, consumindo a auto-ajuda pessimista, imaginam que estão pensando, imaginam que são frequentadores de livrarias! Aliás, não raro aparecem em palestras e noites de autógrafos desses seus ídolos do pessimismo do mesmo modo que seus pares, do outro lado, vão nas noites de autógrafos do Padre Fábio de Melo.

O meio editorial e os meios de comunicação já perceberam isso. Antes, fizeram da mercadoria-desgraçada uma boa mercadoria. Mas o consumo do pessimismo vai além. Ele não admite final feliz. Ele não é a pura desgraça. Ele é a pseudo-crítica que vende a ideia de que se é inteligente quando se acha que a bondade acabou. Roger Scruton é, na Europa, o porta voz do lixo desse tipo de literatura. Trata-se de uma imbecilidade tão grande que ele chegou a escrever um livro revelando esse segredo de venda, um livro elogiando o pessimismo. E o fez do modo banal, mas, por isso mesmo, vendável: ele ensina a ser pessimista para que, sendo pessimista, não se caia em ilusões. Ora bolas, há algo mais tolo e banal que isso? Há algo mais tonto que o pensamento de que é bom ficar careca uma vida toda para que não se tenha queda de cabelo visível?

Não! A sociedade de consumo enfrenta dissidentes, sim, mas ela não perdoa seus pseudo-dissidentes. Os homens que dizem que o ‘mundo melhor’ é uma farsa são engolidos pelo mercado. Eles são agentes da nova mercadoria. Mesmo que percebam isso e comecem a ganhar dinheiro nisso, não conseguem de fato se libertar e tentar ganhar menos dinheiro, mas com coisa honesta. Não podem. Então, inventam para si mesmos que são espertos. Não são. São apenas o que Hannah Arendt chamou de os filisteus da cultura. São espertalhões, não espertos.

Essa gente que vende a auto-ajuda pessimista são hoje os maiores poluidores do planeta. Por onde passam deixam um rastro de palestras, vídeos, textos de jornal e entrevistas cujo único odor é o odor do estrume – o de galinha, que é bem horrível.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Figura: ‘Voltaire’ (François-Marie Arouet) (1694–1778), Theodore Gardelle (1722–1761) , British Museum

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2 Responses “A sociedade de consumo da mercadoria-pessimismo”

  1. Felipe
    12/08/2018 at 02:37

    Cairia melhor Roger Scrotão.
    O guru dos semiformados brasileiros defensores da “beleza” na arte.
    Porque você sabe, para eles, Pablo Picasso é abominável…

  2. Guilherme Hajduk
    10/07/2018 at 15:16

    Caramba! Se hoje eu tenho e mantenho o hábito de ler e me interessar por filosofia, foi por ter lido “Cândido”. Voltaire, a partir daí sempre teve um lugar especial na minha mente. E foi bem assim mesmo! Na época eu virei um tremendo pessimista — e isso não me ajudou em nada, o máximo que fez foi ter me aplicado uma injeção de resignação temporária.

    Paulo, me tira, por favor, uma dúvida que eu tenho desde aquela época e que não me sai da cabeça? Eu queria muito saber se no meio acadêmico da filosofia há alguma discussão que relacione o personagem Martinho do livro “Cândido” com o Schopenhauer. Eu tenho a impressão boba que Schopenhauer leu esse livro, olhou para o personagem Martinho e disse “vou ser esse cara!”. Até aquele negócio de dizer que se não estamos sofrendo por participar dos tormentos do mundo, estamos sofrendo por tédio e, portanto, viver é sofrer, já havia sido dito por Voltaire (pela boca do filósofo pessimista Martinho, da história). Te pergunto não porque os dois são pessimistas, mas porque dizerem, grosso modo, a mesma coisa! Agradeço se puder me esclarecer isso, pois é algo que me incomoda desde que li Voltaire e que descobri, depois, um pouco de Schopenhauer.

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