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17/08/2018

A estética gay coloniza o mundo feminino (*)


[Artigo para o público em geral]

Existe um “mundo gay” e existe um “mundo feminino”. Eles estão distantes um do outro em termos fundamentais. Mas na sociedade contemporânea o primeiro quer colonizar o segundo. É visível isso.

As mulheres tomam hormônios e ficam com a “voz de traveco” (como elas mesmo dizem, não eu!). Quando percebem que essa hormonização lhes dá mais força, disposição e concentração, aí sim optam pela “masculinização”. Mas essa mudança nem é a principal em termos de “colonização”. É a mudança – ainda que superficial – do gosto por um tipo de corpo masculino que, afinal, mais salta aos olhos. O gosto por homens “bombados”, depilados e com rostinhos de modelos é algo do mundo gay, e a G Magazine estampou isso e desbravou horizontes. Mas esses dias, vendo o novo recorte do Vídeo Show – agora chefiado por garotas da TV e ex-BBBs novinhas -, vi que elas se esforçavam para “sentir calor” e “soltar suspiros” diante de homens com o estilinho Rambo-Gay. Aquele tipo de homem para o qual a mulher precisa dizer (sim, precisa, pois ele próprio não está interessado em mulher): “cala a boca e me beija”. Algumas mulheres jovens até gostam desse tipo de homem, mas o problema é que as da TV precisam fingir que gostam. Está tão na moda e está tão na Globo quanto “Agro”. Há algo mercadológico nisso.

Havia um ditado nos passado que dizia: “eles namoram as loiras, mas se casam com as morenas”. As mulheres de hoje podem dizer que se encantam com o tipo “bofe” ou “boy magia”, mas nenhuma delas pretende casar com rapazes assim. Nenhuma mulher atura um homem que perde tempo se depilando, fica três horas por dia em academias e, ainda por cima, rouba os produtos de beleza dela, cremes para amaciar a pele e coisas do tipo. A última coisa que uma mulher deseja é se casar com um narcizóide. Casamento e vida sexual é para pessoas que podem se dar, não é o caso do “cuidador do corpo” do momento. Ele nunca se dá, nunca se entrega, a vida a dois, autêntica, não é para ele. Muito menos com mulher.

Assim, se o gosto feminino parece mudar, é por conta do colonialismo gay. Mas por que isso? Por conta de uma revolução que começou no Renascimento e que teve em Kant seu primeiro grande expoente: o mundo no qual o homem tomou o lugar de Deus e que depois se abriu para o advento da ideia de autonomia.

Kant foi quem criou, em termos filosóficos, o eu autônomo. O eu moral de Kant é aquele que não segue leis exteriores, mas só pode seguir uma lei que ele próprio forja para si. Não é qualquer lei, é uma lei que nasce da razão, o imperativo categórico, que diz que a máxima que o homem deve seguir é aquela que ele pode universalizar como podemos fazer com uma lei da natureza. Nesse caso, o eu moral obedece a razão, mas é a sua razão. Sua vontade é racional e, ao sentir a força do dever do imperativo categórico, se for um eu moral e autônomo, irá de bom grado para o cumprimento de uma ordem que é interna a tal eu. Poder é querer. E se devo, quero. É feliz um eu que vê a sua vontade (racional) se casar tão bem com o seu dever (também racional). Esse é o sentido de autonomia em Kant. Ele é revolucionário e constituidor da modernidade.

Essa autonomia se transformou. A sociedade de mercado se desenvolveu e se alterou para uma sociedade de consumo. O consumo diversificado da Era do Fordismo mudou tudo. A produção em série gerou a “consumo de massas”. Depois, com as grandes empresas, veio consumo de identidade de gostos individuais, para um mercado ainda maior: amo não o produto, mas a marca, pois esta marca me garante identidade comigo mesmo se eu cedo ao meu gosto individual, o que faz eu me sentir uma pessoa, um indivíduo, um ser autônomo e livre. Estamos então, nessa fazer do consumo individualizado. Há “mercado para tudo”, dizemos. Pois se alguém quer ser comprador de cílios postiços feitos só de pelos de rabo de mamute, pode acreditar que irá encontrar uma loja de coreanos, na 25 de Março em São Paulo, que vende isso – mesmo que não existam mamutes dando sopa por aí.

A ideia de autonomia, diante dessa educação nova que promove a hiperindividualização, se tornou uma ideia de cultivo ao idiossincrático. Mas o idiossincrático é apenas um exagero do que estava na base da ideia de autonomia: ‘o que um homem com agente livre faz, ou pode fazer, de si mesmo’ (1) – eis a regra emergente, que já estava na modernidade. Sartre a trouxe para o século XX e lhe deu uma roupagem ainda ingênua, ainda não capaz de se perceber no contexto da vida econômica. Peter Sloterdijk lembra disso como “ideologia”. Ele escreve: “foi Sartre quem forneceu a ideologia deste fenômeno [o de nos pensar sempre como inacabados] ao dizer que o importante é fazemos alguma coisa com o que fizeram de nós” (2).

Na base da busca por diferenciar-se e ser um designer de si mesmo, de intensificar-se e criar experimentos para si mesmo, está a busca de autonomia kantiana. A moral emocionalista – bem detectada por Lipovetsky (3) – de hoje não é uma pura e simples oposição da moral do dever de Kant, é um produto de desdobramento dialético desta última. Muito do emocionalismo contemporâneo, do hiperindividualismo de nosso tempo forjado pela sociedade de consumo pós-classista, está diretamente ligado ao contexto da aparição do homem kantiano do dever, o homem que deu regra a si mesmo, situação esta só pensável se admitimos que realmente somos livres (4).

Que a liberdade de Kant tenha se transformado na liberdade contemporânea, que parece lhe ser o oposto, é algo não muito difícil de ver se entendemos que se trata, sim, do livre arbítrio. Mas agora, usado em um sentido em que o racional do eu, a vontade racional, cede espaço para uma vontade que é racional se satisfaz a ideia de que ser singular é fazer-se a si mesmo de modo mais imediato. Construir-se era algo do âmbito da formação, da educação, da produção da subjetividade. Agora, a subjetividade é produzida pela prática mais rápida de mostrar um gosto que possa despertar curiosidade, que possa ser expressivo. É nessa hora que a mulher se cansa da prática de ser feminina e deixa o “mundo feminino” de lado, carcomido, ridicularizado pelo femininismo, para absorver os ditames da colonização por outros mundos. O mundo gay está atrás da porta e se oferece para ajudar. Adentra a casa, o quarto, a geladeira, o guarda roupa, os vocabulários – exatamente porque ser gay é sinônimo, em nossa era, de ser agente de produção de si mesmo. O gay e seu bofe precisam de horas diárias para se construírem. A mulher já tinha essa prática. Então, para se sentir livre, novidadeira, construtura de si mesma, capaz de autonomia de nossos tempos, nada melhor que absorver o modelo de conduta do gay e seu bofe. Essa conduta repõe o que a mulher já fazia, mas em termos de ser uma super-heroína: se existissem cabines telefônicas as mulheres fariam essa transformação no interior de tais locais. E sairiam voando dali. E que não menosprezemos, hoje em dia, o revival da Mulher Maravilha.

Não há qualquer sentido pejorativo no que digo. A colonização que descrevo é um fenômeno social como outro qualquer. Não cabe torcer o nariz para ele. Mas a colonização não é, necessariamente, aculturação. O mundo feminino não está cedendo de alma e coração para o mundo gay, está apenas se utilizando dele para cumprir a meta de hiperindividualização que é uma necessidade de nossos tempos.

Quem quiser trabalhar com a mulher, hoje em dia, tanto na educação quanto na política e na comunicação, deverá estar atento para esse movimento de Kant à colonização gay sobre o feminino. É isso que a filosofia pode dizer dessa nossa situação, dessa ideia de que homens com nem sempre possuem apreço por mulheres sejam cobiçados por meninas ex-BBBs ou candidatas a ex-BBBs.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

(*) Este texto nasceu a partir de uma observação da Fran, sobre essa colonização do mundo gay sobre o mundo feminino.

(1) Seigel, J.A idea of the self. Cambridge: Cambridge University Press, 2005, p. 309.

(2) Sloterdijk, P. Ensaio sobre a intoxicação voluntária. Lisboa: Fenda, 1989,  p. 29.

(3) Lipovetksy, G. Metamorfoses da cultura liberal.  Porto Alege: Editora Sulina, 2004.

(4) Walker, R. Kant. São Paulo. Editora da Unesp, 1999.

Foto: Valeska com “boy magia”. Seu trabalho de 2016.

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2 Responses “A estética gay coloniza o mundo feminino (*)”

  1. Bruno Zoca
    17/07/2018 at 09:53

    A mulher inteligente aproveita o momento e consegue ser ainda melhor. A mulher burra apenas torce o nariz para o gay de academia e continua burra e feia.

    • 17/07/2018 at 11:06

      Não sei o quanto a mulher tem capacidade de “aproveitar o momento”. A colonização não é algo do qual se possa tomar distância.

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