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25/09/2018

Até Deus perdeu a capacidade de rir


Começo citando Kundera. Peço que leiam com atenção:

“Não se pode portanto julgar o espírito de um século exclusivamente segundo suas idéias, seus conceitos teóricos, sem levar em consideração a arte e especialmente o romance. O século XIX inventou a locomotiva, e Hegel estava certo de ter apreendido o próprio espírito da História universal. Flaubert descobriu a tolice. Ouso dizer que esta foi a maior descoberta de um século tão orgulhoso de sua razão científica. É claro, mesmo antes de Flaubert não se duvidava da existência da tolice, mas ela era compreendida de modo um pouco diferente: ela era considerada como uma simples ausência de conhecimentos, um defeito corrigível pela instrução. Ora, nos romances de Flaubert, a tolice é uma dimensão inseparável da existência humana. (…) Mas o mais chocante, o mais escandaloso na visão flaubertiana da tolice é isto: a tolice não se apaga diante da ciência, da técnica, do progresso, da modernidade, ao contrário, com o progresso, ela também progride! Com uma maldosa paixão, Flaubert colecionava as fórmulas estereotipadas que as pessoas em volta dele pronunciavam para parecer inteligentes e atualizadas. Ele com isto compôs um célebre Dictionnaire des idées reçues. Vamos nos servir deste título para dizer: a tolice moderna significa não a ignorância mas o não pensamento das idéias recebidas. A descoberta flaubertiana é mais importante para o futuro do mundo que as idéias mais perturbadoras de Marx ou de Freud. Pois podemos imaginar o futuro do mundo sem a luta de classes ou sem a psicanálise, mas não sem a invasão irresistível das idéias recebidas que, inscritas nos computadores, propagadas pela mídia, ameaçam tornar-se em breve uma força que esmagará todo pensamento original e individual e sufocará assim a própria essência da cultura européia dos Tempos Modernos.” (A Arte do Romance)

Kundera diz isso no seu célebre “Discurso de Jerusalém: O romance e a Europa”.  É o texto em que ele dispõe sobre a distinção entre a filosofia e o romance. Ele diz que “a sabedoria do romance é diferente daquela da filosofia. O romance nasceu não do espírito teórico mas do espírito do humor”. Ele insiste em afirmar que a Europa jamais entendeu isso, o quanto o romance desfazia à noite o que a filosofia e a ciência quer construir durante o dia. Fala de como o romance tem a ver com o provérbio judaico “O homem pensa, Deus ri”. O riso de Deus é algo incompreensível para um continente tão sério como a Europa, tão voltado a entender racionalismos, empirismos e outras coisas sobre a verdade.

Quem me chamou a atenção para este texto de Kundera foi meu amigo já falecido, o filósofo americano Richard Rorty. O texto veio a calhar. Fiz da filosofia o meu romance. Li poucos romances mesmo, uma vez que conheço os autores sempre pelos seus contos. Talvez eu seja daqueles que gosta de rir e de pensar, mas que nunca tenha pensado, por conta de uma formação antes europeia que americana, que Deus ri, e ri quando pensamos. Deus ri do fato de nos ter criado como pensantes?

Arte de pensar – filosofia! A citação inicial diz respeito, ainda, à filosofia. Kundera está falando de como o pensamento moderno e seu laço com a ignorância pode nos dominar a todos. Diz o quanto o mundo seria imaginável sem Freud ou Marx, mas não sem alguém, como Flaubert, que desenhou a tolice. Pois é a tolice que abocanha o futuro. Kundera escreveu isso quanto não tínhamos Internet! O fenômeno de palestrantes da direita blasé vendendo pessimismo ou palestrantes pseudo-social democratas vendendo otimismo ainda era algo não tão massificado como agora. As pessoas da universidade não olhavam para gente assim. Hoje, a tolice denunciado por Flaubert adentrou a própria universidade e tais palestrantes – o supra sumo dos arautos do kitsch – chegam mesmo a ostentar o título de professor. “O kitsch é a tradução da tolice das idéias recebidas na linguagem da beleza e da emoção”. Fabricantes disso ocupam cátedras, embora apareçam pouco para realmente dar aulas. Sorte do alunos!

Mas o mais interessante disso é que a própria luta de classes e a psicanálise se tornaram, nas mãos dessa gente, uma tolice. Nada há de mais tolo no início do século XXI que a continuação do desdém (ou os amores) desses formadores de legiões de autodidatas por Marx e Freud. Eles se dedicam, diariamente, a falar de dois gigantes que jamais leram e estudaram com afinco. Saltaram da ignorância para a ignorância.

O mundo de hoje é um mundo em que rir da luta de classes e rir da psicanálise é rir atrasado, ou seja, é não ter visto Monty Python e não perceber que, hoje, não há mais graça naquilo. Ver humor nos comportamentos estalinistas do terapeuta e ver a falta de sexo na vida de Stalin não faz ninguém mais rir. Os cultos não podem rir disso. Não há mais divãs e não há mais a URSS para rir. Muito menos para chorar! Nesse sentido, o contraponto também se torno inócuo. Quem pode rir de Trump, se ele já é um pastiche de Bush que, por sua vez, foi o pastiche do senador que originou o macartismo?

Não temos mais do que rir. Kundera denunciou nossa falta de riso quando ainda ríamos. Nós, filósofos, ainda ríamos quando ele disse que não sabíamos rir, que nos faltava o romance. Se vamos rir, hoje, só resta rir de nós mesmos, os que ainda gostam de livros e não da ideologização da idiotice. Isso porque vivemos uma época em que não faz sentido criticar a cultura de massa. Não faz sentido criticar Anitta num mundo onde há uma juventude consumindo palestras de “casas do saber”. O nome “casa do saber” é ridículo. Só há algo mais ridículo que isso: os subtítulos que colunistas de jornal colocam abaixo de seus nomes, ao final dos artigos: “escritor, ensaísta, crítico, etc.” É necessário anunciar o que se é, porque o próprio texto, ou a palestra, por ela mesma, não distingue as pessoas. Ninguém é capaz de dizer do que foi falado nessas palestras dessa gente que não diz nada com nada após falar mais de duas horas! Não contente, esse povo ainda faz vídeo! Pode-se estar diante de alguém da prática do stand up. Há muitos jovens que colocam no mesmo plano bibliográfico o autor do stand up e o filósofo que ele acha que é filósofo. As coisas se tornaram de tal modo embrulhadas no pacote da tolice que o inverso também é verdadeiro: não conseguindo mais serem engraçados, os comediantes posam de intelectuais, dizem fazer “humor inteligente”. Alguns, inclusive, optaram por se dizerem de direita e de esquerda, e também dão palestras. Até os profissionais do riso não fazem rir.

Claro que posso rir do Lula preso, do Bolsonaro querendo discursar, do Trump tentando ter cabelo, do Putin hipnotizando animais (e o povo russo), do presidente que esfrega as mãos no estilo do magnata dos Simpsons. Posso? Para falar a verdade, não. Somos capazes de dizer: “nossa, como isso é engraçado, mas não somos capazes de rir”. Ríamos de Ronald de Golias. Ríamos da tolice. Não podemos rir da tolice quando ela é o imperativo dos sérios e dos palhaços.

Diferentemente do tempo da fala de Kundera em Jerusalém, não paramos de rir por conta de pegarmos o bonde da filosofia e não do romance, mas paramos de rir porque a sabedoria do romance, que disse que a tolice iria fazer de nós seres do não-pensamento, mostrou ser um diagnóstico certeiro. Ela disse, e aconteceu. Duvido que Deus esteja rindo. Deus ri quando o homem pensa.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Foto: Milan Kundera na multidão.

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7 Responses “Até Deus perdeu a capacidade de rir”

  1. Thiago Leite Ribeiro
    17/05/2018 at 16:11

    A filosofia de Marx sobreviveu ao capitalismo? A filosofia de Hegel, kant, voltaire, locke entre outros é sobrevivente ou é vencedora? Acho que se vc associar sobrevivência a filosofia a investigação vai longe.

  2. Thiago Leite Ribeiro
    17/05/2018 at 16:01

    O que a filosofia diz sobre a sobrevivência? Vi vários arkhés no teu livro(“História da filosofia”), mas não vi nenhum dos filósofos gregos falar de sobrevivência como um princípio filosófico ou algo parecido.

  3. Thiago Leite Ribeiro
    17/05/2018 at 15:58

    Essa geração conseguiria sobreviver à guerra fria? Ela me parece frágil demais.

  4. Henrique
    15/05/2018 at 14:21

    Lendo seu texto, recordei-me do romance ”O Analista de Bagé”, do L. F. Verissimo. Talvez, na época em que o romance foi redigido, ainda fosse possível rir de tais ”divãs”.

  5. Hugo
    15/05/2018 at 13:07

    Paulo, estive pensando algo assim dias após ler Era do Vazio, entao cheguei que os humoristas de hoje são como palestrantes motivacionais, pois o humor de hoje funciona como anestesia para quem vive em bolhas, e não como subversão e uma outra perspectiva, porém cômica, para a realidade. Não sei se estou na pegada certa quando penso que quem tem cool tem medo, quero escrever sobre, mas a cada dia vejo que desconheço muito o assunto.

    • 15/05/2018 at 13:08

      Escreva! Escreva ideias curtas. Depois, com conhecimento e experiência de vida, amplie.

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