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09/12/2019

Hasselman & Dimenstein: a maconheira e o comunista


Como hoje em dia a adolescência está ampliada, posso tranquilamente chamar Joice Hasselman e Gilberto Dimenstein de jovens. E de fato eles são. Aliás, para a minha geração, eles são jovens mesmo, em vários sentidos. Talvez no sentido de yuppies!

Eles estão em briga! Joice chamou Dimenstein de “comunista”, e este retribuiu dizendo que poderia chamá-la, então, de “maconheira”. Sinto um pouco de pena deles, e talvez de toda essa juventude que se preocupa em se relacionar como se fossem não do tempo dos meus pais, mas, talvez, dos meus bisavós. Para a minha geração, ser acusado de consumir qualquer tipo de droga, era motivo de riso. Mais que isso, gargalhadas. E, de certo modo, isso valia para todos, inclusive os de direita – a não ser que fosse gente da TFP, a organização chamada Tradição, Família e Propriedade, uma entidade de extrema direita, do tipão que hoje está encarnado num restolho chamado Olavo de Carvalho. Para a minha geração, ser acusado de ser comunista, nem era acusação. Afinal, quem não era comunista? Os que não eram, na verdade, eram vistos por todos como apenas “não intelectuais”, gente incapaz de consumir um livro, alguém incapaz de ser “uma pessoa de letras”. As melhores pessoas, inclusive as mais libertárias, eram comunistas. Ninguém defendia a ditadura existente na URSS. Defendíamos a URSS como um lugar onde teria havido alguma experiência de socialização dos meios de produção – mais uma questão de brio moral, para alguns, ou uma forma de lembrar que o macartismo era algo horrível. Mas, todos nós sabíamos bem dos “processos de Moscou” e dos episódios marcantes da invasão da Hungria e da Primavera de Praga. Líamos Hobsbawm sabendo que ele era um historiador marxista e comunista, mas que já há muito não se filiava a Moscou. E assim fazíamos com a maioria dos intelectuais que apreciávamos. Não agíamos assim com Sartre?

É interessante lembrar que o mundo de Joice Hasselman não sabe nada disso. É curioso que o mundo de Gilberto Dimenstein, que tem referências nisso por dever de ofício (ou deveria ter!), não lhe informe que o modo como ele tenta escapar de ser identificado como comunista é pior do que o modo como ele tenta acusar Hasselman de maconheira. Qual o problema de fumar maconha? Joice já deve ter posto muita coisa pior que maconha na boca, com ou sem prazer! Agora, eis o pior: que história é essa de um jornalista querer se livrar da designação de “comunista”? Olha só o modo canhestro com que ele faz isso: “odeio qualquer tipo de ditadura”. Nossa, que coisa tosca! Quem é que disse que hoje ser comunista é gostar de ditadura? “Ditadura do proletariado”? Quá quá quá! Será que o moço fantasiado de Lênin, o Safatle, é defensor de “ditadura do proletariado”? Bem, se é, isso é devido à incultura, é um caso particular.

Vamos ser sinceros. Qualquer pessoa hoje, no âmbito do marxismo, nada tem a ver com ditadura. E se há comunistas e eles assim se formam por serem marxistas, só os muito burros acreditam que em Marx há algo como um mandamento para se fazer uma ditadura. A minha geração sabia perfeitamente – ao menos os que estudavam, e não os imbecis – que Marx havia usado o termo “ditadura do proletariado” no contraponto à “ditadura da burguesia”, que era como ele via o estado burguês de sua época. Hoje em dia, se falamos em “liberdade individual” (burguesa) para um comunista, dificilmente ele vai retrucar: não há que se idolatrar a liberdade individual porque ela, de fato, não existe, dado que o capital domina e blá, blá, blá. O mais certo e mais provável é o comunista retrucar dizendo: há liberdade individual verdadeira se pudermos realmente ser livres do poder dos ricos, inclusive do estado, que é comandado pelos ricos. Ou, uma resposta melhor, na linha de Anselm Jappe: há liberdade se pudermos escapar da ditadura da “forma valor” que funciona, nas palavras de Marx, como “sujeito automático”. Queremos ser sujeitos, não queremos que a forma valor, ou o capital, funcionem como sujeitos. Em outras palavras: é pecado querer viver em uma situação que possamos comandar o criamos, ao invés de sermos comandados por nossas criaturas?

Sejamos inteligentes e recordemos a lição: já em Marx, mesmo diante do estado burguês pouco democrático de sua época, o que ele cobrava do liberalismo não era o seu simples engodo, mas seu engodo por não se realizar.

Sendo assim, se Gilberto Dimenstein não fosse o jovem de hoje, que é na verdade sempre um velho – talvez um yuppie que apoia o neoliberalismo (ele apoia a Reforma da Previdência!) – nós pudéssemos ouvir dele uma resposta assim, altiva, e não uma resposta de rato de porão de navio: “não sou comunista! não sou comunista!” É preciso gritar tanto, para poder receber medalha do Dória e continuar uma vida toda lambendo o partido mais bunda mole da face da Terra, o PSDB?

Toda vez que vejo gente tentando escapar de ser chamado de comunista, eu fico com a impressão de estar diante de um inculto. Especialmente nos nossos dias, quando todo mundo virou comunista na boca dos ressurgidos de 64. Mas isso fica pior quando  a pessoa em questão faz tal esperneação a partir da tentativa de dizer que não apoia a ditadura. Imputar gosto pela ditadura a comunistas é alguma coisa que, mesmo quando é correta, é tosca. E tudo isso fica pior ainda quando se mete maconha no meio, como quem quer encontrar escândalo ao perceber que Pato Donald nunca vestiu calças!

Paulo Ghiraldelli Jr, 62, filósofo. Já viram meu canal no youtube.com/tvfilosofia?

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16 Responses “Hasselman & Dimenstein: a maconheira e o comunista”

  1. andre ribeiro filho
    27/08/2019 at 15:53

    ÔÔÔ Professor…. só a título de curiosidade….. o senhor se lembra do “”” pêdo bó…??????”””””

  2. Rubem Savaget
    26/08/2019 at 23:48

    Professor, pequena digressão e contribuição ao conhecimento.

    Percebi num vídeo que publicou no YouTube que o senhor desconhece quem é o Professor Nildo Ouriques (economista).
    O Nildo Viajou com a Fatorelli para o Equador para realizar a auditoria da dívida.
    Ele é Presidente do Instituto de Estudos Latino-Amereicanos.
    Dê uma olhada nesse depoimento sobre o liberalismo, de esquerda e de direita.
    As Aulas dele são imperdíveis:

    Por que a direita cresceu no Brasil? Nildo Ouriques (Conservadorismo em Foco)

    https://www.youtube.com/watch?v=3qv1xx8gxi8

    • 28/08/2019 at 23:57

      Rubem, agradeço, mas estou com dificuldade de cumprir as demandas! É muita coisa. Se ele faz um bom trabalho, vamos torcer por ele.

  3. LMC
    26/08/2019 at 12:15

    Mas Dimenstein não é um bolsominion,como o
    Pondé e também não é da turma do Lula Livre.

  4. LMC
    24/08/2019 at 10:13

    O PG cismando com o Dimenstein parece o Pondé
    cismando com vegetarianos.kkkkkkkkkk

    • 25/08/2019 at 18:00

      Um dia você fica adulto, cara, aí aprende a ser gente. Por enquanto, o que você fala, não me diz respeito – dificilmente você consegue um artigo meu aqui. Quando terminar o supletivo, acho que poderá começar a ler o Dimenstein. Mas no caso do meu texto, nem pensar, nem com faculdade você chega lá. Sua burrice é genética.

  5. Diego
    20/08/2019 at 00:24

    A última frase do artigo é foi implacável! Prof. a Joice só não é mais insuportável que o metido a besta do Caio Cópula. Excelente artigo prof. Muito obrigado pelo seu trabalho!

  6. 19/08/2019 at 23:29

    Eu nunca vou entender essa besteira sua com o Safatle. Em alguns momentos a fala de vcs dois sao parecidas.

    • 21/08/2019 at 14:32

      É não vai porque não quer estudar. Faço o oposto do Safatle em tudo.

  7. Luís Yabiku
    19/08/2019 at 19:45

    CORAÇÃO NOVO, PROFESSOR!! VAI PRA CIMA !!
    UM ABRAÇO E MUITA SAÚDE!!

  8. Themis Scalco
    19/08/2019 at 17:49

    O Dimenstein tem introjetado a ‘censura’ da direita ao comunismo. Como no exemplo da Laura Carvalho qdo da entrevista com o kfouri.. A censura interna. É possível também que o Dimenstein goste dum baseado rsrsrs acho que foi uma grande infantilidade. Como de resto, tantos agem como crianças..

  9. Jose escanor
    19/08/2019 at 16:02

    Geração bundinha faz cara de raiz mas chora lágrimas de Nutella. Valeu professor.

  10. 19/08/2019 at 12:34

    Quando escolhi o curso de Filo (consegui entrar na FFLCH, 82) não havia mais a matéria nas escolas mas gostava (muito) de ler, por influência da minha professora preferida, Bia Pardi que havia se formado na Filo e, porque poderia sobreviver dando aula (!) de OSPB, aceitei a ideia de ser “gauche” na vida.

    No ano seguinte passei no vestibular para o curso de Artes Plásticas na ECA e, além de continuar dependendo de dar aulas para sobreviver (!), aprendi que o curso vinha com uma série de preconceitos, até de conhecidos de outras áreas da USP, sobre ser um curso para meninas, a ideia de os rapazes serem viados etc. Acabei trabalhando com artes gráficas em publicidade.

    Os dois cursos me deram uma impermeabilidade a este tipo de conversas e mesmo não tendo terminado a Filo eles se complementaram na formação da minha visão sobre A Vida, o Universo e Tudo Mais.

    As gerações mais novas me parecem menos ousadas, se arriscam menos, estão mais preocupadas com profissões que “dão” dinheiro para realizar seus sonhos de consumo e não em seguir seus sonhos profissionais ou de vida. Há alguns anos tive um aluno que queria estudar arquitetura mas teve que seguir a profissão de dentista para trabalhar com o pai. Com certeza está ganhando bem mais mas não sei se é “feliz”.

  11. Nivia Freitas xavier
    19/08/2019 at 04:39

    Estou sempre aprendendo com seus textos e livros. Obrigada por nos dar uma luz nestevtempo de trevas.

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