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20/06/2018

Procurando uma comunicação comunicacional


[Texto indicado preferencialmente para o público acadêmico]

Ciro Marcondes Filho diz que informação não é comunicação. Informação tem a ver com transmissão de uma mensagem, comunicação tem a ver com interação múltipla, conversação, e só assim, nesse segundo caso, há a produção do novo, do inusitado.

Ciro diz:

“Numa roda, uma discussão entre pessoas que estão debatendo o mesmo assunto, o movimento dessas falas ou desses mesmos pronunciamentos acabam por produzir uma coisa nova, inesperada, surpreendente, que as pessoas acabam ganhando por isso. A Comunicação é o oposto da informação, ela vem trazer algo inesperado, algo que não estava dentro dos nossos cálculos, ela nos transforma (…)” (1)

A ideia de Ciro é boa, mas insuficiente não só em se tratando de conceituar comunicação, mas de entender a produção do novo e seu vínculo com a comunicação. Isso porque ele liga a conversação, onde ele diz estar centrada a comunicação, ao debate. Ora, se há alguma coisa avessa ao novo, isto é, ao novo que faz valer a pena ser considerado, é o debate.

Sabemos disso desde a antiguidade. Na diferença entre a erística e o elenkhós, entre a atividade dos sofistas e a atividade de Sócrates, é que está a chave do que pode ser considerado o produtor do novo. O debate tem a ver com a erística, a investigação tem a ver com o elenkhós. Só o segundo produz o novo que vale a pena como conhecimento. O primeiro procedimento, em geral, apenas está vinculado ao alinhavar posições de um lado e de outro, de modo que uma possa derrotar a outra. O elenkhós, ao contrário, está ligado à construção da investigação conjunta, e um procedimento filosófico científico de se chegar a um saber que antes não existia.

Na erística pode haver comunicação. Eu ponho A e outro participante põe B, eu ponho C e ele põe D. Assim nós vamos ao debate, damos continuidade a um tipo de conversação que é o debate. É o exercício da retórica, o trabalho de vencer o outro, apresentando um argumento mais forte, mais vistoso. Ora, Sócrates ensinou a fazer diferente, encaminhou um processo comunicacional de outra qualidade. Elenkhós significa “refutação”. Eu ponho R e pergunto a você se você concorda com R, se você sinceramente acredita em R, então pergunto se você pode acreditar também em S. Se você acredita em S, então eu vejo se S e R coadunam. Posso então perguntar a você, valendo a pergunta também para mim: podemos concordar com S e R conjuntamente? Checamos, então,  S e R, perguntando se S e R podem mesmo serem mantidas conjuntamente. Então, se há uma resposta negativa, e originalmente acreditamos em R e S conjuntamente, criamos uma contradição, refutamos a nós mesmos. Fomos pegos pela lógica. Somos refutados e temos de reiniciar o processo. O processo assim pode criar o novo quando R e S nos der chances de, sendo acreditados conjuntamente, nos fornecer sínteses que não explodem por si mesmas. Essas sínteses, se a obtivermos, é o conhecimento novo que vale a pena ser levado em conta.

Esse segundo procedimento tem a ver com investigação, com o que se deveria fazer na Academia. Mas a Academia confundiu isso com o debate e, enfim, adotou o debate como o que deve ser feito. Tomou o procedimento da democracia e não o da ciência como a conversação a ser feita. Portanto, optou pela superficialidade necessário ao jornalismo, como sua forma de conversação. Assim, se produz o novo, o faz por sorte e azar, não por planejamento e procedimento afinado com o objetivo de produção do novo.

Gostaria de ver a Academia fazendo seu processo comunicacional com menos pedido de debate e com mais prática investigativa conjunta. Essa comunicação é a melhor, ao menos para Academia, deixando o debate para as próprias fórmulações políticas.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

1.<https://literatureseweb.wordpress.com/2017/11/20/ciro-marcondes-filho-e-a-centralidade-da-comunicacao-na-sociedade-contemporanea/>

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