Go to ...

on YouTubeRSS Feed

26/05/2018

Pablo Ortellado e o embrulho do pacote na hora da campanha. Comunicação pública e comunicação política hoje.


[Artigo para o público em geral]

Francielle e eu trouxemos para o programa da Flix TV, Hora da Coruja, o jovem professor Pablo Ortellado. Já faz um tempo isso. A ideia do convite foi do meu filho. Ele, Ortellado, veio e expôs sua visão sobre internet e política. Depois, com êxito em redes sociais, Ortellado passou a ter blog na Folha de S. Paulo. Ele vendeu um peixe para o mercado. O jornal viu, achou que valia a pena ter mais aquela mercadoria em suas páginas, e pegou a coisa. Ou seja, Pablo foi catapultado por algo que ele, agora, denuncia como sendo errado.

Agora, ele diz o seguinte:

Um dos grandes problemas das campanhas eleitorais —ou pelo menos das campanhas competitivas— é que elas supõem que é preciso tomar o estado das coisas como um fato consumado e produzir um discurso que agrade uma parcela suficientemente grande do eleitorado, fazendo as concessões devidas para ganhar os votos necessários. Essa estratégia de comunicação não vê a campanha eleitoral como um momento de debate e persuasão, mas a trata como um período no qual se oferta ao mercado eleitoral um produto, seja ele um partido ou um candidato.

Ele condena que as campanhas políticas façam o que ele fez, ou seja, o oferecimento de uma mercadoria que esteja sendo requisitada pelos consumidores. Ora, mas foi exatamente isso que ele executou. Mas ele, provavelmente, acredita que não. Como bom moço de esquerda, ele quer imaginar que está fazendo algo “crítico”, que não é o que o mercado quer. Ele imagina que a Folha de S. Paulo não é uma empresa capitalista que busca servir o mercado, mas sim um jornal de intelectuais revolucionários que estão colocando um conteúdo “acima da média”, para “transformar a sociedade”. Toda hora que somos nós, da esquerda, que estamos vendendo algo, nós fazemos questão de achar que não é bem assim, que no nosso caso “há algo a mais”. Nós, boas belas Alices, deveríamos acordar e sair desse mundo maravilhado. Não há “algo a mais” que seja muito a mais! Um conteúdo pode ser melhor que outro, claro, mas são coisas que, se é para um grande público, existem como mercadoria ou na forma obediente à mercadorização. Fora disso, não existem.

Dito isso, vamos ao caso denunciado pelo Ortellado. Ele crê que a democracia deve funcionar de modo inverso ao que ela funciona. Ao invés dos comunicadores sociais que fazem campanha política perguntarem para os eleitores o que eles querem, devem inventar temas que eles não querem ou não ouviram falar e, então, jogar tais novidades no debate. Devem ampliar o debate, e não reproduzir o que os eleitores já fazem ao pegar só opções do cardápio. Há aí, nessa crença de Ortellado, um idealismo que repete o eterno vício autoritário da esquerda: a imposição dos rumos, a ideia de vanguardismo, a ideia que Cioran denunciou, com sabedoria, que é o nosso pecado moderno: o protagonismo. Disse Cioran, mais ou menos isso: o homem não aguenta não se ver como o centro das causas, e por isso se torna rapidamente o centro do pecado.

Pablo quer que os marqueteiros esqueçam o que a população pede e, para além disso, aperfeiçoem a democracia oferecendo um prato que a população quer, mas não sabe que quer. Sim. Essa é a velha tese da esquerda: há uma “consciência de classe” ou uma “consciência política” que não coincide com nenhuma consciência individual empírica, mas que, ainda assim, deve ser levada em conta. É a primeira e não a segunda que dá as diretrizes da história para o político de vanguarda – assim crê a esquerda eternamente leninista. E assim, o marqueteiro do político de vanguarda deve criar uma agenda nova, uma pauta nova, que desobedeça a lógica da política enquanto presa à lógica do mercado. Deve-se dar algo que não é uma mercadoria. Deve-se dar algo que não é a ditadura do pedido pronto. Deve-se inventar uma nova ditadura: a do pedido que não foi pedido.

Acreditar que o leitor que pede “segurança” quer outra coisa mais importante que “segurança” e, então, forçar uma campanha em outro rumo que aquele que é posto pelas enquetes prévias de opinião, é uma ideia que parece brilhante, mas na verdade ela é estúpida, autoritária, ela tem no seu âmago o seguinte pensamento alimentador: “o eleitor não sabe o que quer”. Todavia, na democracia, só o eleitor sabe o que quer. Quem souber mais, que se cale. A democracia não pode ser tratada como Pablo a pensa. Ele a pensa assim: democracia é ruim porque o vizinho é inculto e vota no candidato que eu não voto. Quando seu candidato ganha, ele diz: “o povo acordou”.

A democracia e o mercado capitalista podem divergir, mas num ponto eles estão de acordo, e nisso até se ajudam: o que quero comprar, como eleitor, eu digo, e aí os marqueteiros é que façam o embrulho, se ficar bonitinho na vitrine então eu vou ver o preço e, talvez, adquira. O Pablo tem blog na Folha por meio desse mecanismo, os candidatos têm participação no mercado eleitoreiro por esse mecanismo. Não há outro se o público é o grande público. Mesmo quando um candidato desobedece tudo, coloca-se como “alternativo”, ele está tentando se acomodar à fatia do mercado dos “alternativos”. Achar que vegano é anti-capitalista é uma verdade até o dia, que está para ocorrer, que ninguém mais mate animal, e que toda a indústria alimentícia capitalista se torne menos cruel – com os animais. Isso é melhora? Claro que é. Mas é uma melhora capitalista e perfeitamente integrada ao mercado. E isso não destoa da democracia. Assim funciona a campanha eleitoral. Umas são melhores que outras, mas elas não podem caminhar fora da lógica da produção de mercadorias. O eleitor que quer “segurança” não vai ouvir debate eleitoral sobre coelhos.

Pensar criativamente fora do mercado é algo que não coaduna com a democracia. Platão não foi democrático. Foi genial, brilhante, criativo, ousado – foi o inventor da filosofia. Mas o fez isso contra o sofismo, ou seja, a educação da elite, e fez isso, também, contra a educação popular, a educação dada pelo canto dos rapsodos. Ou seja, Platão não se dobrou ao senso comum político de Atenas. O serviço intelectual criativo ilimitado, como o de Platão, que inventou um gênero literário, uma forma de pensamento e, junto disso, toda uma nova cultura, não é da ordem da democracia. Por isso mesmo Peter Sloterdijk se aproveitou do termo de Foucault, heterotopia, para dar nome à Academia de Platão. Não estou dizendo que o obra de Platão é da ordem da ditadura ou do totalitarismo. Está longe da minha cabeça endossar a crítica de Popper a Platão, que é, na minha opinião, bem pobre. Mas o que digo é que escrever em um periódico popular, hoje, e vender propostas de candidatos, hoje, na democracia liberal ocidental, é sim a mesma coisa. Dá-se o que o cliente pede ou não se entra no jogo. Há um nível de mediocridade nisso. Não adianta inventar para si mesmo que não há. Pois há!

Democracia, blog em jornal popular e Anita pulando junto com Pablo Vitar têm similaridades. E eu gosto da Anitta – já disse.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Gravura: In this picture taken May 10, 2016, a book seller arranges US presidential candidate Hillary Clinton’s book “Hard Choices” translated to Persian during Tehran’s International Book Fair in Iran. (AP Photo/Vahid Salemi)

Tags: , , , , , , , , ,

2 Responses “Pablo Ortellado e o embrulho do pacote na hora da campanha. Comunicação pública e comunicação política hoje.”

  1. LMC
    17/05/2018 at 15:24

    Pensando bem,com estes
    marxistas que temos aí,
    eu digo:MARX POR MARX,
    SOU MAIS A PATRICIA MARX.
    kkkkkkkkkkkkkk

  2. Hilquias Honório
    16/05/2018 at 14:27

    Eu precisava ler isso! Vinha sempre pensando em como precisamos de um candidato com idéias “novas” que fizesse o público “pensar”, para além das coisas que surgem naturalmente, na cabeça do eleitor, mas essa idéia de vanguarda é mesmo perigosa, guarda essa armadilha do autoritarismo. Além do mais, essas críticas mais inteligentes, como a que vemos aqui no blog, e nos pensamentos de um Marx, por exemplo, são coisas de filósofo. Em política, as coisas andam de outro modo. Não adianta querer forçar!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *