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25/04/2018

“Marginalizado”: um animal parido na comunicação pública


[Texto para o público em geral]

Em uma reunião de grupos de pesquisa coordenados pela professora Heloiza Matos, da ECA-USP, surgiu uma equipe que se autodenominou “Marginalizados”. O título tem a ver, claro, com o objeto das pesquisas. Todos os membros do grupo estudam pessoas ou coletivos marginalizados. Parece simples, mas não é. Pois há uma pergunta, envolta nas malhas sob o título, que é desconcertante. Marginalizados em relação a que? Afinal, ninguém é marginalizado em absoluto, mas somente relativamente. “Margem” é uma palavra que indica necessariamente relatividade.

A resposta mais fácil e, também, a que contém uma armadilha, é a de dizer que marginalizados são os marginalizados em relação a direitos. Todavia, quando olhamos mais de perto, não raro, podemos notar que os tais marginalizados escolhidos (seja lá por quem) assim o foram porque estão marginalizados do mercado, não necessariamente dos direitos. Um grupo de pessoas que consome crack não tem salário, não trabalha e, com isso, aparentemente não faz parte do mercado. Mas faz parte do mercado da droga, que não deixa de pertencer ao mundo mercadológico. E não está de todo afastado de direitos, pois pode sim estar sendo atendido (mal ou bem) pelo serviço público de saúde, e outros serviços, e recebendo algum tratamento no sentido de lhes garantir alguma cidadania.

O pecado das respostas fáceis, neste âmbito, está ligado ao problema da distinção entre o que é estar marginalizado em relação à cidadania e o que é estar marginalizado em relação ao mercado. A confusão se instala nessa práxis porque ela já se instalou socialmente. O PROCOM é um santo órgão, eu creio. Mas ele traz no seu útero a questão da fusão – e confusão – entre o cidadão e o consumidor (o conceito de cidadão-consumidor não resolve!). O cidadão é sujeito de direito, o consumidor é sujeito de relações mercadológicas. Muito da comunicação pública e política navega nessa confusão. O indivíduo pertencente a um grupo social reclama por um direito – esta é a sua mensagem. Mas sua carência é de tal ordem, que ele é visto antes de tudo como um despossuído em absoluto, e eis que a comunicação emitida de volta, pelo governo ou por Ongs ou por pessoas individuais, é se faz em forma de uma mensagem que o trata como um consumidor – um consumidor que não consome e que precisa consumir (“o país precisa de consumidores” – diz a esquerda, mesmo sendo anti-sociedade de mercado!)

Durante todo o governo do PT, antes que o partido surgisse em cena como o arauto da corrupção e do desmando, a discussão crítica em relação à sua atuação foi justamente esta: não estará o PT, na sua comunicação, tratando as pessoas exclusivamente como consumidores, e não como cidadãos? Era uma questão importante. Se Lula não tivesse se mostrado corrupto e o PT não tivesse traído seus eleitores (desde o “mensalão!”), essa discussão teria ido adiante; não ficaria, como todos nós estamos, soterrados pelo ato de sequestro que Lula fez conosco, que nos levou a todos a encerrar discussões e ficarmos na porta da cadeia vendo se alguém entra ou sai (que destino heim?).

Mas, se há espaço ainda para uma tal discussão, mesmo com o país amortecido pela ladroagem, e suas consequências no campo comunicacional, o certo seria prestarmos atenção nessa ideia de que há uma ética envolvida na comunicação dirigida pela questão da cidadania, e há uma outra ética, que é a chamada “ética de negócios”, envolvida na questão do consumo. Essa segunda ética tem, não raro, uma faceta simplória. Ela é a ética do comprador e do vendedor. O vendedor não pode anunciar uma coisa e oferecer outra. Só isso. E eis aí aquilo que é do cuidado do PROCOM. Se de um lado o governo, as ONGs, e, de outro lado, os requisitantes “marginalizados”, adotam a comunicação emergente no âmbito do consumo ou não-consumo, então tudo que podemos fazer é aplicar as regras do PROCOM à vida social. Mas se a questão envolve direitos, aí a ética propriamente dita entra em jogo. E então a política ganha sua conotação mais clássica. Trata-se de discutir questões maiores a respeito do que é conduzir um povo à felicidade.

Tornar a droga legal para que as pessoas possam não cair mais nas mãos do traficante é uma medida econômica. Assim é que o estado a enxerga. A comunicação nesse sentido segue esse rumo: mostra o quanto se pode economizar na chamada “guerra perdida” contra o tráfico. Mas, nesse caso, a questão da cidadania não está posta. Pois, nesse caso, o drogado é visto como consumidor. E o que importa aí é que ele consuma o que quer ou precisa consumir a partir de uma agência estatal ou privada regularizada. Discute-se, então, a via uruguaia da solução do problema, que é unicamente a via posta pelo PROCOM: como oferecer um bom produto, onde o rótulo da embalagem e a propaganda (a comunicação) obedeçam o conteúdo real do pacote, ou seja, a boa droga fornecida. O marginalizado é posto diante da farmácia, sai de um mercado sujo para um mercado limpo. É atendido na sua necessidade de consumo. Mas nada aí da questão da cidadania, da ética, da vida feliz é discutida. Consumir a droga na farmácia vai tornar o marginalizado capaz de ser aceito pela família? Vai ser capaz de trazê-lo para algum trabalho? Vai possibilitá-lo não ser visto como “maconheiro”? No que de fato sua vida vai ser a vida plenamente vivida?

Toda a comunicação do governo, para o drogado que compra a droga legal, na farmácia, por conta de seu cadastro de “dependente”, vai falar dele como cidadão ou já, na medida em que o cadastrou como consumidor, ou seja, “dependente”, vai mantê-lo como de fato ele sempre foi, o consumidor e não o cidadão? Ele vai ser sujeito de direitos? Em que ele vai poder não ser “maconheiro” ao mudar o local de compra da droga? Muito dessa transformação, se é que ela é possível, quanto à vida do indivíduo, é um serviço da mensagem governamental, ou seja, da comunicação pública e política, da ideia de como o governo reage comunicacionalmente quando tem esse assunto para conversar.

Do lado de baixo da Linha do Equador os pecados nem existem, mas os pecadores serão sempre tratados como pecadores, pois o pecador, o “marginalizado”, é produzido nos discursos, na comunicação. E a comunicação às vezes se cristaliza.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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One Response ““Marginalizado”: um animal parido na comunicação pública”

  1. Augusto P. Bandeira
    26/03/2018 at 10:34

    “Mas sua carência é de tal ordem, que ele é visto antes de tudo como um despossuído em absoluto, e eis que a comunicação emitida de volta, pelo governo ou por Ongs ou por pessoas individuais, é se faz em forma de uma mensagem que o trata como um consumidor.”

    O consumo de drogas que faz o indivíduo sair da esfera estatal de cuidados, mas não dos braços do deus-mercado (esse também onipresente) é o exemplo mais evidente da vida que se leva como vida nua?

    E a influência de atores sociais motivados por uma terceira via (religiosa) que dá a esses indivíduos a chance de recuperar um sentido há muito perdido e que, talvez, para o Estado seja inviável e para o Mercado seja irrelevante? Isso faria a vida menos nua (vide o exemplo de Larissa – Grazi Massafera – em “Verdades Secretas”)?

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