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18/11/2017

A ordem é vaiar com moderação! Tenha dó, né?!


Vamos aos estádios de salto alto e zíper na boca?

Você vai ao teatro e no meio da peça atende o celular. Como não ganhou a tal educação de berço e também não aproveitou a escola, então a atriz interrompe a peça e lhe passa um sabão daqueles. É necessário. Você vai à uma partida de tênis e, ao invés de aplaudir, começa a esgoelar. Alguém deve lhe ensinar a ver o tênis. Você está na prova de hipismo e monótono não poder gritar. Então fica claro: hipismo não é para qualquer um. Até aí, tudo bem. Educação é algo mais que necessário, inclusive e talvez principalmente para ser membro de um público.

Todavia, quando você vai ao estádio, mesmo que seja nas Olimpíadas, a coisa muda. O estádio nosso não é grego, ele não está ligado à religião. O nosso estádio é romano, ele está vinculado ao pastiche, ao sangue e à catarse. Somos latinos herdeiros do Coliseu, e não dos antigos lugares sacros da Grécia Antiga. Mas, ainda assim, não somos bárbaros. Pois se um Bolt nos pede silêncio, ficamos mudos. Todavia, se um francês fresco faz beicinho durante toda a prova, e começa a dar mostras de que está ali enfarado ao ter de disputar com alguém que ele avalia “menor”, então nosso estádio reergue-se como que impulsionado pelos forças fantasmagóricas do velho mundo imperial. Queremos cristãos aos leões, queremos gladiadores sangrando, desejamos algo seja da ordem do “pão e circo”, uma permissão para a catarse, mesmo que fiquemos com esse comportamento ainda bem longe do que ocorre nos estádios do Primeiro Mundo. Não somos capazes de bater os hooligans britânicos.

O problema todo é que o brasileiro tem uma relação difícil com a sua própria imagem. Ele é capaz de perdoar os que tomam seu dinheiro, por meio de  impostos, para despoluir a Lagoa Rodrigo de Freitas, e que de fato nada fazem. Ele é capaz de perdoar a si mesmo por ainda continuar jogando lixo no Tietê. Mas ele adora não perdoar seu vizinho, e até ele mesmo, pelos gritos e vaias no estádio. Não sabe nada do Coliseu. Não sabe nada de si mesmo. Vivemos numa Atenas sem Sócrates, onde o “conhece-te a ti mesmo” não é invocado. Então, vamos dando cabeçadas em nós mesmos, cobrando etiqueta no lugar errado, e deixando de cobrar etiqueta e ética no lugar que deve ser cobrado.

Precisamos urgentemente invocar o “conhece-te a ti mesmo” no exato sentido grego antigo, que não dizia respeito a um conhecimento sobre uma instância subjetiva, mas referia-se à situação objetiva do homem na polis.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 17/08/2016

Foto: Tatyana Kosheleva, jogadora de vôlei da Rússia, faz pose para fotos com torcedores brasileiros.

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21 Responses “A ordem é vaiar com moderação! Tenha dó, né?!”

  1. Rafael Costa
    19/08/2016 at 09:55

    Muito boa a lembrança da partida de tênis, Paulo. Um episódio que me deixou de certa forma triste, foram as vaias exageradas ao tenista argentino Del Potro, só pelo fato dele ser argentino.

    Pra quem gosta de esportes, fica uma chateação pelo público não reconhecer o esforço heroico de Del Potro durante o torneio, ao eliminar dois grandes atletas como Djokovic e Nadal, mesmo o espanhol enfrentando um duro fim de carreira.

    Em várias outras modalidades, não senti um comportamento de agressividade aos atletas rivais, senti mais uma provocação comum de torcedores.

    No jogo de basquete entre Brasil x Espanha, confesso que dei algumas gargalhadas quando o craque espanhol, Pau Gasol, foi para a linha de lance livre ao clássico som de, “Hey, Gasol. Vai tomar no cu”.

    No caso do salto com vara, tenha dó, aquele francês merecia 20 minutos de alambrado em um clássico entre AEA (Time de Araçatuba-SP) e Bandeirante (time de Birigui), pra sentir o que é pressão. Atleta nojento.

    • 19/08/2016 at 10:15

      Rafael, simples né?!

    • LMC
      19/08/2016 at 10:55

      E aquele papinho de que “Marta é melhor
      que Neymar”,Rafael?Quem pode ganhar
      agora,o ouro ou a prata….é só o Neymar!
      Rarará!!!!

      E aqueles nadadores americanos,então,
      bateram o recorde mundial de nojentice
      e escrotice pura…

  2. Maurício Neves
    18/08/2016 at 20:57

    Paulo Ghiraldelli, Excelente artigo! Parecido com os escritos pelos jornalistas de O GLOBO, O ESTADO DE SÃO PAULO, VEJA, e outros jornais muito bons da grande imprensa brasileira.

    • 19/08/2016 at 01:55

      Maurício, sei que quis elogiar, mas vai meu alerta: meus artigos não tem nada a ver com a grande mídia, embora já tenha trabalhado nela, no Estadão e na Folha ao menos. Meus artigos são de um filósofo e de um homem livre.

    • Marcelo de Paiva
      19/08/2016 at 08:54

      Paulo Ghiraldelli, O elogio dele foi mais ou menos assim: ”se toca, que você está muito reacionário, escrevendo como os veículos de comunicação da imprensa burguesa”.

    • 19/08/2016 at 09:14

      Marcelo, se alguém disser que sou reacionário ou de esquerda etc. eu sei que essa pessoa não pode ser meu leitor. Precisa fazer o ENEM, ao menos.

    • Waldir Guimarães
      19/08/2016 at 19:18

      Falando como um filósofo, não entendo porque as pessoas não querem se dar o luxo de apreciar a arte das Olimpíadas. Mais que nacionalidades, ou bairrismos, o que está em jogo nas disputas é a busca de superação (para não dizer transcendência).
      Mas é claro que a cultura mundial sobre o assunto descaracteriza o essencial.

  3. Tony Bocão
    18/08/2016 at 14:42

    Taí uma coisa interessante em se pensar, nossa postura comparada a um romano do coliseu, o que me conecta ao texto anterior sobre o que é lidar com a “pressão do povo romano” entre Globonews e Globo. É fascinante podermos estudar e comparar estes atores com um princípio romano.

  4. LMC
    18/08/2016 at 10:45

    Os hooligans britânicos nem
    existem mais(pois é…)enquanto
    aqui nossa torcida pensa
    que está na frente do Fórum
    gritando contra o casal Nardoni.
    kkkkkk

  5. Matheus Tudor
    18/08/2016 at 08:01

    Pode ser ingenuidade minha, mas me causou certa indignação notar que há pessoas favoráveis as vaias como meio de desconcentrar os adversários. De modo semelhante, na ginástica artística vi gente assistindo-a e desejando que os adversários caíssem(!) para os brasileiros ganharem. Nada em mais desatino com as Olimpíadas, em que a ideia é ver os atletas ganharem pelo primor da técnica, pela sutileza dos movimentos conscientes, pelas habilidades físicas, pelo esforço, etc, tudo o que é fruto de um engajamento individual que só é capaz de gerar grandes atletas de maneira sistemática em uma nação através de uma cultura nobre do esporte, o incentivo dos indivíduos e instituições, de uma política de apoio, do orgulho das pessoas para com a atividade e o engajamento esportivo e suas qualidades. Talvez seja uma visão muito grega, digamos assim. Você poderia esclarecer isso. Em todo caso, sei perfeitamente que seu texto não é exatamente sobre esse ponto, afinal, tudo isso foi encerrado de maneira implícita no primeiro parágrafo, de tal forma que ficou claro ser possível manter um culto desse primor e desejar que vença o melhor dentre os melhores, de preferência da “minha nacionalidade”, e ainda assim operar a catarse, o “sangue no zóio”, as vaias, etc. Mas olhando o cenário, parece uma junção difícil para nós, os desprovidos de um Templo de Delfos.

    • 18/08/2016 at 12:21

      Bem, gregos vão ao lugar dos jogos por religião, romanos para entretenimento e catarse. Somos herdeiros dos últimos, nesse aspecto específico. Essa é a tradição. Claro, computei antes, no primeiro parágrafo, os casos de falta de instrução e educação. Aí é outro problema.

  6. Thiago Leite
    17/08/2016 at 21:43

    Escrever pra esculhambar é melhor nem escrever.

  7. Eduardo
    17/08/2016 at 21:19

    É engraçado e ao mesmo tempo trágico uma pessoa que talvez nunca tenha feito sequer um Enem vir falar para um professor com dezenas de livros publicados, além de outros tantos artigos, referência em todo o país em Filosofia e Filosofia da Educação, com décadas de experiência docente em grandes universidades do país, vir dizer sem mais nem menos que o texto está “mal escrito”. A oportunidade de anonimato na internet faz as pessoas colocarem pra fora a insanidade que têm dentro de si.

    • 17/08/2016 at 22:02

      Eduardo, isso que você viu se chama arrogância do ignorante. Essa expressão é velha, usávamos muito. Hoje em dia há um bocado de gente que nem sabe mais disso. Era algo esporádico, agora é comum.

    • Eduardo
      17/08/2016 at 22:25

      Paulo, o que me deixa atônito é a incapacidade da pessoa de aprender, de refletir o texto, de pensar fora do senso comum. Eu até ia comentar lá no vídeo do Karnal, mas vou falar aqui: sou professor de história, tenho 33 anos e terminei o doutorado (em história) há dois anos. Quando leio seus textos e vejo os vídeos, às vezes fico rindo, como quando você comenta os comentários dos sem-noção, às vezes fico pensativo, mas no caso do Karnal fico com vergonha, não dele, não de você, fico com vergonha de mim mesmo, porque eu me vejo ali e vejo o quanto sou ignorante. Te acompanho porque sempre gostei muito de Filosofia. Uma vez vi você falar em outro vídeo sobre o Karnal que historiador filosofa baixo, eu ri e também me identifiquei naquilo. De fato, somos muito propensos a clichês, lugares-comuns, ao senso comum. Não comento muito aqui, mas aprendo muito, porque aprendo me destruindo (não sei se esse é o termo apropriado), mas seus vídeos e textos vêm como marteladas pra mim, nesse sentido de aprendizado que se faz desfazendo coisas velhas.

    • 18/08/2016 at 12:26

      Eduardo escapar do cliché fácil que o público pede é uma dificuldade. Karnal está tão deslumbrando com ele mesmo que não consegue mais. Nem vai conseguir.

  8. Mariele Fernanda
    17/08/2016 at 17:53

    O texto está mal escrito! Recomendo-lhe fazer aulas de redação.

    • 17/08/2016 at 18:44

      Não, Mariele, não está. É que você não fez o ensino fundamental e, claro, não consegue entender o que lê. Mas pode ler de novo, umas cinco vezes. Vai, comece.

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