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18/11/2017

Trump, transgêneros e a apologia do “natural”


Donald Trump diz que consultou “especialistas” para tomar a decisão que tomou, de não aceitar transgêneros nas Forças Armadas dos Estados Unidos. Como é de praxe, Trump não pensa no existente. Do mesmo modo que desconsiderou as pessoas beneficiadas pelo Obama Care, agora também desconsiderou que os transgêneros já fazem parte das Forças Armadas americanas. Tudo que ele precisa para fazer o que quer, sem muito refletir, lhe é dado por meio de pareceres aleatórios que ele caça aqui e acolá.

Sobre os transgêneros, após contar que ouviu generais, ele assim escreveu em seu Twitter: “Nossos militares devem se concentrar em vitórias decisivas e extraordinárias, e não podem se preocupar com os tremendos custos médicos e transtornos que seriam causados por transgêneros entre os militares”. Claro que as associações médicas americanas reagiram, falando que uma tal frase é uma grande bobagem, que nada no âmbito da medicina pode ser usado para dizer que transgêneros não cabem no Exército. Mas Trump dá ouvidos só ao que ele quer ouvir. As pessoas conservadoras como ele, não raro fazem a discriminação contra transgêneros na base do que já faziam aos gays e afins, ou seja, invocando a ideia de que há algo qualificado como natural, e que é rompido por membros da comunidade LGBT, e especialmente pelos transgêneros. De fato, em termos mais próprios à observação filosófica, o problema todo está na palavra “natural”.

A palavra “natural” teve seu apogeu, no mundo moderno, no século XVIII. A razão apareceu como o elemento próprio do homem, e ela vinha carregada pela metáfora da “luz natural”. “Natural” passou a ser algo intrinsecamente bom, contra três acepções que se poriam no pólo contrário, a noção de sobrenatural, a noção de histórico e a noção de artificial. O que não é natural é sobrenatural, portanto, algo místico, não racional, irracional e, então, crendice tola. O que não é natural é histórico, portanto, a favor da preservação da tradição e de todas as injustiças asseguradas por ela. O que não é natural é artificial, ou seja, o que é elaborado por artifícios ou como artifício, no sentido de não original, de não reto, de algo enganoso. O “natural” atravessou o chamado Século da Luzes e adentrou no século XIX, onde conquistou o próprio adversário do Iluminismo, o Romantismo. Também este movimento veio a fazer a apologia do “natural”. Herdamos antes do Romantismo que do Iluminismo nossa adesão à boa fama do “natural”.

Nosso vocabulário incorporou o “natural” como algo bom. Tudo que é natural é bom, assim dizemos. Suco tem que ser natural, alimento tem que ser natural, modo de vida tem que ser natural e junto da natureza. O romantismo tardio de Disney consagrou essa fórmula: o mundo animal, por ser natural, guarda toda a bondade e correção que podemos ter. As pessoas se esquecem que velhice, terremoto e câncer são do âmbito do natural. Esquecendo-se disso e endossando o vocabulário herdado do Romantismo, especialmente aquele tardio, as pessoas sempre louvaram Rousseau, na sua apologia da natureza como boa, e desprezaram Sade, que nunca deixou de lembrar o quanto a natureza nos degrada e, portanto, é intrinsecamente má. A visão romântica tardia chegou ao Brasil no momento de fundação de nossas maiores universidades, e vários intelectuais acabaram por decretar que tudo que não nos é mostrado no cotidiano pelo nosso costume não é natural e, então, não merece nossa aprovação. Natural é o conluio entre sexo e gênero, e então artificial é a desconexão desses parâmetros. Alguém não pode ter pênis e querer ser mulher ou se comportar segundo padrões que foram tidos como “naturais” para quem é do time do feminino, o vice versa. Isso é “aberração”, ou seja, algo não natural. Um monstrengo. Frankenstein foi um monstrengo nada natural, e como Mary Shelley fez sucesso com ele, nos anos trinta, quando a eletricidade já havia se mostrado, na Primeira Guerra Mundial, ser antes fator de vida e morte! Nada mais artificial que a eletricidade. Ela poderia criar a vida? Talvez, mas a vida de monstros. A vida artificial.

Quem lida com o que natural, corrigindo desvios que pretendem sair do rumo traçado pela natureza, são os médicos. Por isso, Trump recorreu a eles, ao menos os médicos que os tais generais que ele disse ter consultado lhe apresentaram. “Transgêneros não são naturais” – aposto que foi isso que lhe disseram, para então mostrarem aquilo que ele queria ver, que algo não natural tem “perturbações”, e ninguém em um Exército precisa de problemas, já que o Exército é para fornecer soluções para o país.

O maior erro dos gays foi, nos anos cinquenta e, enfim, até o momento, o de querer também invocar o natural para se justificarem. Vieram com a ideia de que na natureza, ou seja, no mundo animal, a prática sexual não separa rigidamente machos e fêmeas. Às vezes vejo os transgêneros, agora, querendo usar do mesmo tipo de argumentação. Dizem que querem assumir a condição mental de mulher, que lhes é o natural, e para tal precisam fazer o corpo ser de mulher. Buscam uma transformação não para contrariar a natureza, dizem, mas exatamente para lhe ser obediente na sua essência. Fazendo isso, transgêneros argumentam mal, pois dão força para a palavra “natural” no mesmo sentido que seus adversários a utilizam. Os transgêneros precisam sair dessa ideia de recorrer ao “natural”, de modo a também enterrar o “histórico”, o “sobrenatural” e o “artificial”. Devem fazer assim para deixar gente como Trump sem munição vocabular.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 27/07/2017

Foto: Trump em campanha prometeu ajudar a comunidade LGBT na campanha contra discriminação no trabalho, mas seu rosto na foto mostra um candidato constrangido. Membros dessa comunidade que quiseram optar pela direita, deveriam ter visto uma tal coisa.

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20 Responses “Trump, transgêneros e a apologia do “natural””

  1. 22/08/2017 at 09:47

    A seu ver a Teoria Queer de Judith Butler seria a melhor forma de entender o transgênero?

    • 22/08/2017 at 10:37

      Breno, não é necessário tanta teoria para ser boa pessoa e entender “trans”.

    • 05/09/2017 at 08:46

      É que eu me referia ao referencial teórico… Será Butler uma boa narrativa?

    • 05/09/2017 at 09:01

      Breno, não vou pelo feminismo! Acho um tanto pobre essa literatura.

  2. 22/08/2017 at 09:40

    Caro Paulo, uma dúvida: sem dúvida que o “natural” possui raízes iluministas, mas não poderíamos dizer que, antes, possui raízes antigas, haja vista a cosmologia epicuréa e estóica e até cínica? Diógenes, Epicuro e Crisipo já falavam do natural como procursor do Bem e como único alvo legítimo da busca humana.

    • 22/08/2017 at 10:38

      Não existe “natureza” para os antigos, e sim algo que para traduzir por natureza custa muito: physis.

  3. Roberto
    29/07/2017 at 15:30

    “Os transgêneros precisam sair dessa ideia de recorrer ao “natural”, de modo a também enterrar o “histórico”, o “sobrenatural” e o “artificial”. Devem fazer assim para deixar gente como Trump sem munição vocabular.” Eu concordo que esse argumento do natural é vago, independentemente de quem o estiver utilizando. Mas então o que argumentar? Seria algo como: “quero fazer porque é mais conveniente pra mim e pronto, quer cuidar da minha vida, pague minhas contas rs!!”

  4. fe
    28/07/2017 at 22:25

    trump é massa pô.. faz parte da história da filosofia, a escatologia.

    Eu me divirto com ele, gustavo. Vc não?

    • LMC
      29/07/2017 at 11:12

      Se não existisse essa palermice que é
      o colégio eleitoral americano,nem
      Trump nem W.Bush seriam eleitos.
      Imaginem a América e o mundo
      se eles não fossem eleitos assim.

    • 29/07/2017 at 12:05

      LMC você não entende o funcionamento do colégio, não consegue entender a história americana e a razão do colégio.

  5. rafael
    28/07/2017 at 21:25

    Ainda assim poderua ser dito que a transsexualidade seria uma forma da natureza degradar algumas pessoas?

    • 28/07/2017 at 23:47

      Rafael, o que a política pode fazer eu não sei, eu sei que o que a filosofia deve fazer. A filosofia deve fazer é limpar o mais que pode o terreno dos entulhos do preconceito.

  6. Hilquias Honório
    28/07/2017 at 18:15

    Se Bolsonaro virasse presidente, será que ele iria escutar o Olavo de Carvalho? Aliás, Olavo está respondendo as críticas sobre a formação dele. Diz que muitos autodidatas são melhores que professores da USP. Previsível.

    • 28/07/2017 at 21:21

      Ué, ele não disse que a USP não vale nada? Não há nenhum autodidata na USP. Olavo não é autodidata, Olavo é um repetente do terceiro ano primário. É bem diferente de gente com formação em uma coisa que optou depois por outra linha. Olavo não faz ideia do que é saber um assunto academicamente. Ele é infantil. Não passou sequer pelo gináSIO. Não consegue resolver um problema de geometria euclidiana simples.

  7. Augusto P. Bandeira
    28/07/2017 at 10:17

    Bem, não sei se a tecnologia nos meios militares avançará a ponto de equipamentos autônomos e armas remotas substituírem quase que por completo a presença humana nos campos de batalha.

    Confesso, não havia pensado nisso.

    Nesse caso realmente pouco importa quais sejam os operadores dos sistemas; há ainda a guerra cibernética, na qual também é irrelevante quem manipula os algoritmos mais sofisticados.

    São frentes nas quais as pessoas trans podem atuar sem problemas. O problema, a meu juízo, está no critério de seleção para colocar tais e quais pessoas em uma e outra atividade.

    Aí sim seria um baita problema garantir que uma pessoa ingressasse nas forças armadas indiscriminadamente e, já inserida, tivesse de ser realocada aqui ou ali em virtude de tal ou qual característica.

    Além do mais, quando alguém realinha seu corpo à sua real psique, precisa passar por intervenções médicas que, no mais das vezes, demanda supervisão específica. Um corpo novo não só não retira limites inerentes ao gênero antigo como impõe algumas das limitações do novo.

    Conforme disse antes, aquele que submeter a soberania de seu país a agrados de ordem ideológica do momento certamente demonstrará vulnerabilidade ante o inimigo.

    Se Trump não fizer o que tanto lhe dizem, não se preocupe, Justin Trudeau já deu o sinal verde para que o Canadá acolha esse contingente.

    https://www.theguardian.com/world/2017/jul/26/canada-transgender-troops-us-military-tweet

    Não nego aqui a possibilidade de um dia os EUA consentirem com essa medida; só não considero sensato que uma das (senão a) forças armadas mais poderosas do mundo seja um campo de experimentação social sem precedentes.

    Quanto a juízos de ordem estética quanto ao reconhecimento alheio, isso é tão irrelevante quanto suas prescrições médicas direcionadas a mim.

    Abraços e bom fim de semana!

  8. Augusto P. Bandeira
    27/07/2017 at 22:53

    Penso, antes de qualquer discussão vocabular, que Trump foi pragmático.

    Explico: as forças armadas são a esperança de resolução de conflitos que nem a diplomacia pode resolver. Então não pode haver fragilidade entre os combatentes sob risco de implodir sua estratégia e, portanto, possibilidade de vitória.

    Ademais aquele que submeter a soberania de seu país a agrados de ordem ideológica do momento certamente demonstrará vulnerabilidade ante o inimigo.

    Além do mais, essas pessoas demandam sim cuidados médicos especiais, como as dosagens hormonais e exames frequentes para verificar e/ou tratar reações adversas à medicação ministrada.

    Posso imaginar até que essa medida sirva como protetiva à integridade dessas pessoas na medida em lhes assegura a liberdade civil daqueles que não têm a responsabilidade do combate.

    Depois disso ainda me pergunto o quanto isso vem de preocupações legítimas com um grupo minoritário e o quanto vem de birra contra o Trump porque foi ele, e não outro, a adotar tal medida.

    Ainda, será que a China, a Rússia e o Estado Islâmico por exemplo já não teriam adotado esse recurso se isso fosse, como você faz parecer que é, algo bom para guerrear?

    • 28/07/2017 at 08:42

      Augusto não fala do que não sabe. Você jamais reconheceria uma pessoa transgênero, ela nada tem de diferente de qualquer outro humano, e em combate, eu lhe garanto, ela faz mais que você. Ah, e quanto a cuidados médicos, é você que está precisando deles. Procure um psiquiatra urgentemente e, em seguida, um urologista e um proctologista.

    • Matheus
      28/07/2017 at 17:31

      O Paulo tem razão a maior parte de transgêneros não tomam remédio algum, só alguns que “optaram” pela transexualidade – mudar de aparato sexual, é que geralmente combina hormônios etc. Mas e quantos militares não podem ficar inválidos, etc, etc, gasto médico no exército nunca foi lá muito problema… Trump só quer ouvir o que quer ouvir é isso.

  9. Fernando
    27/07/2017 at 22:06

    Simbólico Trump segurar a bandeira de cabeça para baixo.

  10. Gustavo
    27/07/2017 at 17:28

    Caro Paulo, é um serviço de utilidade pública essa perspectiva da escolha semântica das causas que defendemos.
    E eu me pergunto aqui se aquele topete do Trump é sobrenatural, histórico ou artificial (ou os três ao mesmo tempo).

    Inté.

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