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16/11/2018

Por que as mulheres traem? Por que os homens traem?


[Para o público em geral]

Existe no mundo ocidental a ideia de “traição”, em um sentido bem específico. Em termos populares, no Brasil: o famoso corneamento no relacionamento de namoro ou casamento. O que é considerado traição varia. Mas o que tem variação menor são os motivos de homens e mulheres – claramente diferentes. O homem tem motivos, a mulher tem outros motivos.

Não vi ainda pesquisas que desmintam essa informação geral que, enfim, perdura já há algum tempo, ao menos dentro do quadro da modernidade, desde que o “casamento burguês” se transformou em modelo para qualquer casamento. O que sabemos é isso: mulheres traem em busca de atenção, carinho e proteção. O homem pode trair por isso tudo, mas o motivo proeminente é o aspecto visual da nova parceira. Falei em aspecto visual, não necessariamente beleza. Esse motivo, no caso da mulher, está bem no fim da fila, por mais que algumas mulheres na TV  (e apenas na TV) teimem e se portar como gays masculinos, desejando “boy magia” ou “bofe de ouro” e coisas do tipo.

Se saímos da vida moderna, tanto geográfica quanto historicamente, podemos notar que o casamento muda, mas os motivos da traição (onde se pode falar em traição ou coisa parecida) guardam fantásticas similaridades com os motivos que aparecem nas pesquisas universitárias modernas sobre relacionamento. A antropologia dá uma dica sobre como explicar isso.

Nossos ancestrais longínquos, ainda nas cavernas, dividiram bem os serviços: o homem caça e a mulher cuida da prole e de afazeres domésticos. (1) A mulher educa sua visão para o perto, o pequeno, o detalhe, e nutre seu coração para a prioridade da segurança da prole. O homem educa sua visão para o distante, para o horizonte, para a caça maior, para as montanhas e rios, ele deve voltar para a casa com o alimento. Seu coração prioriza o “dever cumprido”. O homem se tornou um admirador de paisagens, a mulher se tornou uma exímia encontradora de objetos. Todos nós que não achamos algo gritamos, quando podemos: “mãenhêêê!”. Ela vem e acha. Se não acha, ela promete “três pulinhos e três gritinhos para São Longuinho”, e logo ela acha. Mulher prega botão. Homem quando prega botão é afeminado. E isso que falo não tem carga preconceituosa nenhuma. O “afeminado” nesse caso é dito no sentido antropológico: trata-se do homem que faz algo que é da ordem do detalhe, do pequeno, ou seja, aquilo que especializou aquele que ficou na caverna, e não o que saiu (aqui, é sempre bom o conceito de antropotécnica, de Sloterdijk).

É notável isso quando olhamos a bolsa de uma mulher. O homem sai sem levar sua casa pendurada no braço. A mulher sai levando sua casa. Dentro da bolsa dela há um lar. E pelo tato ela acha o que quer dentro da bolsa que, pequena ou grande, nunca tem algo menos que mais que uma dezena de objetos. Não é só a visão da mulher que se formou longe do gosto pela paisagem, mas também o tato. Sem dizer o ouvido! E o faro, então?

A questão da traição não é a questão de que o homem é eterno caçador e, portanto, logo parte em busca de nova fêmea, e assim cria a situação de traição. Nada disso. Ele se tornou visual por ser caçador, e sendo visual, ele parece não conseguir não ter interesse senão naquilo que se apresenta segundo certa distância. A sua esposa está sempre perto. A outra, sempre segundo uma distância atrativa, que o fez olhar, inicialmente, para a primeira esposa. Que as mulheres saibam disso: não adianta ficarem bonitas ao gosto do marido, é necessário se deixarem admirar sem o toque, segundo uma distância ideal. Eu já me peguei várias vezes olhando para umas nádegas salientes no supermercado e dizendo para mim mesmo: “Deus existe!”. Ao falar isso, olhei para os lados, para ver se a Fran não estava me pegando no flagra. Mas eis que as nádegas observadas chegam mais perto e minha miopia cai por terra: a admirada como alvo de um pretenso assédio de tarado era a Fran! Que bom casei certo!

A Fran é capaz de admirar homens bonitos? Claro. Mas o faz como mulher: mais pela TV que pela rua. A rua é lugar de andar, trabalhar, olhar vitrine (de perto). A TV coloca os homens na distância própria do lar. Aí a mulher olha. Por isso as mulheres são capazes de se apaixonar por homens bonitos da TV, artistas, enquanto que os homens podem se apaixonar por qualquer feiosa por aí, se ela tiver volumes que estejam postos na distância certa, na média e longa distância. O homem é voyeur. A mulher voyeur é algo mais raro.

Tudo isso fica mais claro e resumido por meio de uma observação simples: o homem nunca pensa em “beleza interior”, só a mulher lança mão disso, dessa metáfora, e a requisita para si, para ser avaliada – mesmo quando está maquiadérrima e “vestida para matar”. Uma maior apreciação da antropologia garante trazer o homem de volta (ou a esposa) bem mais que qualquer “Pai Bento” que joga búzios ou faz “despachos”.

Paulo Ghiraldelli Jr. 60, filósofo.

(1) Uma teoria feminista diria assim: aquele que caça vira “o homem” e aquele que fica na caverna vira “a mulher”. Isso também é correto.

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5 Responses “Por que as mulheres traem? Por que os homens traem?”

  1. Adriano Caliman Ferreira da Silva
    03/11/2018 at 18:59

    Olá Paulo achei muito interessante a visão antropocêntrica oferecida como explicação para o comportamento relacionado a traição de homens e mulheres. Entretanto, como biólogo, eu gostaria de acrescentar algo que talvez fale mais forte na determinação deste padrão, sem desconsiderar a importância do seu ponto de vista obviamente. A espécie humana é originalmente um mamífero poligênico, ou seja, evoluiu tendo como característica o macho copular e reproduzir com várias fêmeas, muitas vezes formando haréns. Se olharmos dentre os mamíferos em geral, veremos este comportamento bastante difundido por exemplo, entre os leões, lobos e principalmente entre os nossos parentes evolutivos mais próximos, os gorilas, chimpanzés, babuínos e orangotangos. Em todas estas espécies, o macho acasala com várias fêmeas. Ok, ok, antes de me chamarem de espertalhão e que estou advogando em prol dos direitos “naturais” dos homens de hoje em dia pularem a cerca, esperem, eu vou explicar melhor. A causa deste fenômeno tem uma explicação clara. Os custos reprodutivos das fêmeas são imensamentes maiores que dos machos. Em geral os óvulos (células sexuais femininas) são muito maiores do que os espermatozóides (células sexuasi femininas), centenas de vezes maior. Isso significa um alto custo para gerar e manter um óvulo. Por isso, as fêmeas nascem com um número finito de óvulos que carregam pra vida toda e no caso da mulher, vai perdendo a cada mês e quando terminam determinam o início da menopausa e fim da atividade reprodutiva. Já o homem produz bilhões de espermatozóides em intervalos de poucos dias, e um homem saudável pode produzí-los desde a puberdade até seus 80 anos. Além disso, a mulher é responsável pelos custos da gestação e originalmente também da amamentação. Digo originalmente pois hoje existem métodos alternativos pra isso. A diferença entre os custos reprodutivos de ambos os sexos tem enorme repercussão no comportamento sexual e reprodutivo de machos e fêmeas.
    Os maiores custos associados a reprodução da mulher fazem com que ela tenha menos tempo para se reproduzir, e com isso seu sucesso reprodutivo, não depende do número de parceiros sexuais ou cópulas ao longo da vida, pois a cada gravides, existe um longo período sem atividade reprodutiva. Logo, o sucesso reprodutivo da fêmea é qualitativo. Se uma fêmea escolhe mal um parceiro para acasalar (ter filhos) terá de esperar um longo tempo para ter uma segunda chance. Ela deve ser então, muito seletiva, e isso implica em menor promiscuidade, ou em outras palavras traição. Por outro lado, o sucesso reprodutivo de um macho (homem) é dependente do número de fêmeas (mulheres) que ele consegue copular, pois ele não tem grandes custos com gestação e produção de espermatozóides. Esta é a razão pela qual os machos de mamíferos poligênicos formam haréns, pois enquanto uma fêmea está grávida e indisponível para a cópula e reprodução, o potencial reprodutivo do macho pode ser expresso copulando com as outras fêmeas. Se olharmos este mecanismo ao pé da letra, veremos que existem razões biológicas e não meramente sociais que tornam o macho mais suceptível ao comportamento promíscuo do que as fêmeas. Eles tem muito menos a perder com uma escolha mal feita e por isso são mais inconsequentes e aventureiros do que as fêmeas, e portanto mais predispostos a traição. Veja como esta explicação complementa o que vc colocou em seu texto de que as mulheres querem mais carinho e atenção numa relação, pois elas buscam companha e apoio para o cuidado com a prole. Por outro lado o homem responde ao instinto de forma quase que imediata, sem pensar no amanhã, pois de fato para ele pouco importa o amanhã. Vocês podem perguntar, mas isso era no tempo das cavernas, hoje não é mais assim, os casais são monogâmicos. De fato, eles o são, mas muito mais por uma necessidade, do que por uma escolha. Isto porque a monogamia vem evoluindo ou se fixando na espécie humana em resposta as crescentes pressões e custos nos cuidados com a prole, de forma que um macho para manter um harém com 20 fêmeas e toda a sua prole, precisa ser um scheik arábe. Não a toa só os sheiks arabes tem haréns. Obviamente existem questões culturais relativas a nossa espécie que acabam por determinar padrões diferentes do restante da natureza, como religião e sexo sem objetivo de reprodução… A influência genética de anos de evolução ainda fala alto na determinação do comportamento sexual de homens e mulheres hoje em dia. ABraço a todos!

  2. Pesips
    01/11/2018 at 08:38

    excelente!!!

  3. Sipa
    01/11/2018 at 08:36

    Tio Paulo, que texto maravilhoso, consigo sentir a congruência das palavras do senhor, e é algo que sempre andei observando mas não tinha as palavras perfeitas para descrever esse fenômeno da traição como o senhor descreveu, excelente texto.

  4. Ana Karolina
    18/08/2018 at 12:21

    Há desvantagens pra eles que só enxergam a casca.

    • 18/08/2018 at 13:46

      Ana, você não entendeu o texto. Seria útil ler outra vez, mas com atenção.

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