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18/11/2017

Todo mundo é obrigado a ter filhos?


80% das críticas ao papa Francisco são coisas de ranhetas reacionários, 19% são de gente com informação torta, 1% são críticas com algum fundamento, mas, assim mesmo, nem sempre corretas.

O papa disse que não deveríamos nos reproduzir como coelhos. Depois disse que as mães estavam evitando ter filhos para ficar com cachorros, pois os primeiros implicam em educação moral. Logo vieram as críticas, achando que um recado entrava em choque com o outro. Obviamente que não!

Coelhos podem ter muitos filhos. Humanos com muitos filhos, ao menos agora, sofrem eles e os filhos. Cachorros são bondosos e, de fato, são mais fáceis de educar que humanos. O recado do papa é claro: devemos pensar em que medida somos capazes de nos educar, nos preparar para sermos mães e pais de humanos. Francisco está dizendo o óbvio, sem com isso ferir qualquer doutrina da Igreja. Ou seja: que tenhamos filhos se somos capazes de tê-los. A Igreja diz outra coisa? Alguém diria algo diferente? Alguém pediria filhos para um casal que não se vê maduro para dedicar-se aos filhos, sabendo que eles demandam não só dinheiro, carinho e tempo, mas fundamentalmente maturidade para poder dizer “tudo vai ficar bem”? Dizer isso sabendo que se está mentindo! É assim ter filhos. Todo mundo tem condições de fazer isso?

Alguns sabichões acham que ter filho é fácil, outros não acham só isso, mas dizem ainda que é necessário. Mas, se fossem seres reflexivos, pensariam nesta obrigação futura: como poderei mentir tão descaradamente, logo com o bebê, quando ele chorar? Sim, mentimos: “tudo vai ficar bem”. Ora bolas, com que autoridade falamos isso? Nenhuma. Não temos essa capacidade de garantir para criancinhas que “tudo vai ficar bem”. Ao mesmo tempo temos de mentir, pois sabemos bem o colapso psicológico que seria educá-las, já no útero, dizendo “não sabemos o que vai ocorrer por aqui, nesse mundo”. Repetir isso depois do nascimento, então, seria maior catástrofe ainda.

Por outro lado, também o bebê mente. Ele nos induz a pensar que será uma grande pessoa, que nos dará amor, mas pode ser que nada disso ocorra. Teremos maturidade para enfrentar o fracasso dos filhos na condição de filhos, de quem esperamos cuidado e amor, como demos? Não podemos cobrar isso? Devemos ser máquinas que não esperam amor dos filhos, pois somos os que dizem “tudo vai ficar bem” para eles, mas não podemos dizer isso para nós mesmos? Ora, que conversa!

Além do mais, sabemos bem dos nossos defeitos de programação. Sabemos quantos remédios tomamos. Será que devemos colocar filhos no mundo mesmo sabendo que eles podem ter todas as doenças que temos, potencializadas? Testar seria bom? Fazer experiências malucas possíveis de serem evitadas é ter algum amor? Não creio.

Ter filhos é uma decisão que não pode vir recheada de “eu quero” sem qualquer adendo forte do tipo “eu posso com tudo isso”.

Sabemos que filhos são feitos quando somos jovens. São feitos no ímpeto. Quando deixamos para ter filhos um pouco mais tarde, criamos juízo e, então, pensamos melhor e resolvemos adotar um filho cachorro, que terá uma poupança menor, que terá mais autonomia, que poderá ser de mais fácil controle e de expectativas que podemos satisfazer. Isso não deve preocupar o papa, claro, pois assim mesmo, diante da decisão de alguns de não ter filhos, muita gente continuará tendo filhos por ímpeto ou coragem na aposta. Mas, ao mesmo tempo, condenar ou ridicularizar quem não tem filhos, deliberadamente, é ser muito tonto. O papa não fez isso. O papa não é tonto. Mas que há tonto, há.

Paulo Ghiraldelli 59, filósofo. São Paulo, 24/12/2016

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One Response “Todo mundo é obrigado a ter filhos?”

  1. Maxwell Silveira
    24/12/2016 at 01:43

    ”Humanos com muitos filhos, ao menos agora, sofrem eles e os filhos. Cachorros são bondosos e, de fato, são mais fáceis de educar que humanos.”

    O povo antigo dizia coisas parecidas

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