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24/09/2017

Sim, sou um poço de incoerência, caro utopista!


POR QUAL RAZÃO um pobre não pode ser de direita? Por qual razão um homossexual não pode apoiar Bolsonaro? Por qual razão uma pessoa de esquerda não pode usar um sapato chique e caro? Por qual razão quem gosta de cachorro tem de gostar de aranha? Cuidado com seu policiamento … Ele pode pegar você mesmo na cobrança da militância retilínea, “racional”. As pessoas são pessoas, são complexas. Só os utopistas perigosos querem reduzi-las a seres “coerentes”.

Só os Pondés e Karnals da vida exigem do outro a militância retilínea e a coerência do cemitério. São esses tipos que acusam os outros de se indignarem com uma coisa e não se indignarem com outras. Esse tipo de gente tem um problema grave com o chamado mundo real, que tanto dizem conhecer. Atacam utopistas e sonhadores, mas são produtores de sonhos que, na verdade, são pesadelos. São eles próprios utopistas de uma racionalidade que de tão extremada, se torna irracional. Querem um mundo em que alguém se indigne com o que acham que vale a pena, sem apreciarem se a indignação demonstrada já não ajuda. Chamam todos de hipócritas, como se a sociedade pudesse viver sem hipocrisia. São essas pessoas que acusam os defensores de animais por gostarem mais de cachorro que de escorpião e barata, e no fundo, nisso se casam com o modo de agir de seus supostos adversários, os próprios defensores que acusam outros de “especismo”.

Há nesse comportamento de sempre ficar contra o outro por conta do outro não ser “coerente” um racionalismo atroz, não raro lambuzado de um pretenso irracionalismo que diz compreender “a realidade como ela é”. Se acham inteligentes por falarem que não são ingênuos ou utopistas, mas são os piores utopistas, são os que só elegem à categoria de “homem” aquele que pensa alinhado. Alinhado quer dizer, para essa gente: aquele que ao se indignar com a morte da esposa deveria se indignar igual com a morte da sogra, afinal, são “todos seres humanos”. Essa gente, uma vez em cargo de mando, pode criar uma lei fantástica: “ou todos se indignam com tudo, ou serão decretados pecadores eternos”. Aliás, fazem isso em sala de aula e sala de palestra. Educam para a burrice.

O que estou dizendo aqui serve para qualquer militante, para qualquer utopista, inclusive para o utopista conservador. Trata-se de fazer do homem enquanto tipo ideal de Weber não um instrumento metodológico para análise de ações, mas querer que o próprio homem seja, na prática, a fórceps, o ideal de racionalidade robótica que, se existisse, geraria apenas um monte de gente gritando “quatro é bom, dois é ruim”. Palestrantes de auto-ajuda com capa política são como máquinas robóticas de militância paga na Internet. Funcionam na base do “você deveria se indignar com aquilo também, já que se indignou com isso”. Esse mandamento da militância, que alimenta tais palestrantes, é uma forma de não pensar. É um binarismo estúpido. É a ideia totalitária que exige que as pessoas não sejam pessoas, mas que sejam máquinas de sentimentos gerais e universais. Ora, o coração é particular, ele ama seletivamente, só no jogo de prós e contras é que entra o cálculo e o abstrato para ver se vale a pena ampliar ou não a indignação. A indignação com o que não nos indignamos vem de um trabalho prática de ampliar o “ele é um de nós”.

Podemos pensar por conceitos. Devemos assim fazer. Mas não podemos sentir por conceitos. Sentir é algo que fazemos a partir de identificações, e estas, são atos individuais, particulares, talvez singulares. Posso aprender, com meu cérebro, que o estado faz justiça, mas sempre vou ter mais a ver, no coração, talvez, com o pedido de vingança, caso o crime for contra “um dos meus”. Saber entender essa complexidade humana é aquilo que os palestrantes militantes não sabem, não aceitam, pois eles próprios estão presos ao binarismo de uma maneira de pensar que é tacanha, tosca e pobre.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 01/08/2017

 

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9 Responses “Sim, sou um poço de incoerência, caro utopista!”

  1. 03/08/2017 at 02:37

    Quero entrar nesse meio filosófico. Qual leituras o senhor poderia recomendar? As recomendações do Karnal me deixaram confuso.

    • 03/08/2017 at 07:36

      Para não ficar ignorante como o Karnal, faça o curso de filosofia, entre para a confraria. Para ter alguns livros que possam começar a ajudar, consulte a coleção Os pensadores. Mas faça o curso.

    • 06/08/2017 at 03:00

      Obrigado, professor.

  2. Bruno
    01/08/2017 at 19:10

    Paulo, a pergunta não tem nada a ver com esse texto, mas é uma curiosidade:
    nessa sua pesquisa sobre a narrativa crítica da contemporaneidade, você pretende usar algumas ideias de Jean Pierre Vernant?

    • 01/08/2017 at 20:00

      Esse é um daqueles autores que fazem parte da formação básica de um filósofo paulista, a gente nem sabe quando tá usando.

  3. Hilquias Honório
    01/08/2017 at 16:55

    Por isso mesmo que esses perguntam “cadê os paneleiros agora?”. É como naquela charge em que o rinoceronte reproduz o próprio chifre nos quadros que pinta.

    • 01/08/2017 at 17:10

      Sim Honório, sim!

    • LMC
      02/08/2017 at 11:51

      Os paneleiros estão em Miami ou
      em cargos no governo Temer.São
      iguais ao Trump que acha a
      Venezuela uma ditadura,mas
      “amam” a Arábia Saudita.

    • 02/08/2017 at 12:35

      Cuidado! Esse texto talvez valha mais para você do que você imagina.

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