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18/11/2017

Rodrigo Hilbert é o símbolo da confusão mental de uma geração


“Que homão da porra!” é a frase que vem junto com a foto de Rodrigo Hilbert nas chamadas Redes Sociais da Internet. Eu não engulo Hilbert por conta de que ele mata animais. Mas não é disso que quero falar. Quero falar de seus pretensos dotes positivos, o de Marido-Lindo-Multiuso-de-Mulher-Bonita. Acho que a filosofia como crítica cultural tem de meter a colher nisso, e entender de onde vem essa estranha positividade.

Ele faz casinha de árvore para os filhos e, dizem, chega a ficar sem fazer sexo com a Fernanda enquanto não fabrica com suas próprias mãos a camisinha. Faz almoço, janta, mas só cuida da casa após tê-la construído. É um tipo de  Magaiver  (MacGyver) doméstico do século XXI. Não sou de estranhar isso. Meu pai fez casa na árvore para mim, fez revólver de madeira, carrinho de madeira para eu guiar e quando resolveu produzir paçoca para o consumo familiar, primeiro arrancou um enorme galho de árvore para fazer o pilão. E garanto: meu pai era mais bonito que o Hilbert. Jamais matou um animal. Meu pai era um italiano comum. Hilbert é, agora, um super herói. Qual a razão?

Voltemos no tempo. Em tom de crítica pedagógica e social, e não como prescrição real a ser levada a sério, Rousseau disse que o seu Emílio só investigaria coisas com o microscópio ou telescópio após tê-los inventado. Rousseau jamais quis que surgissem imitações do homem do Renascimento, capazes de inventar tudo aquilo que um dia viriam a usar. Hilbert é essa caricatura do homem do Renascimento? Talvez ele apenas seja a caricatura do homem comum que alguns jovens não conheceram, o imigrante italiano ou coisa parecida, que trouxe para o Brasil um saber diferente daquele do português colonizador, a ideia de que é necessário antes o know how que o knowledge. Hilbert é a caricatura de uma nostalgia do que não foi vivido. Mulheres que invejam Fernanda Lima por conta do marido poderiam ser vistas como representantes de uma geração com saudades de uma  cidade em que nunca estiveram. Mas não é bem isso, ou só isso. O problema que virou batata quente nas mãos de Hilbert é outro, ou quase outro.

O que Hilbert acaba representando é aquilo que Sloterdijk detectou na seleção alemã de futebol e na maior parte dos jogadores de futebol europeus. Eles são hermafroditas. São figuras que, no passado, chamaríamos de andrógenos. E isso em um sentido muito mais amplo que o sexual. Trata-se de elementos que não têm mais nenhuma característica que antes atribuíamos, talvez mais idealisticamente que real, ao chamado “homem”. Homem era um animal com feições de “homem da casa”. Eram versões corretas do Pato Donald, o americano apto ao lema da América: “faça você mesmo”. Nunca os brasileiros tiveram garagens com peças de todo tipo, verdadeiras oficinas, como os americanos. Mas num país vindo da tradição de farmers, um celeiro-oficina sempre foi necessário em casa. Meu pai era professor, não mecânico ou arquiteto, mas tinha essa garagem. Trocar uma lâmpada é difícil para um homem de hoje é em geral barrigudo ou, então, hermafrodita, como o jogador de futebol europeu. Num prazo de trinta anos, ficamos sem referência do que é um homem em casa. Do mesmo modo que o feminismo também deslocou as possibilidades das mulheres. É aí que a figura de Hilbert aparece: é a tentativa de quem não viu nada do que poderia ser um homem, mas teve de oitiva alguma informação, de recriar um sonho para ver se alguma coisa pode funcionar no lar moderno, totalmente desajustado pela vida contemporânea. O lar moderno é um lar de tipo single, e se uma família se introduz ali, tudo quebra, tudo é preciso de reparo. Cadê o Homem? Ora, ele não existe.

Hilbert é apenas boi de piranha de sonhos passageiros de uma geração de homens e mulheres que estão embasbacados com os 17 anos do século XXI.

Paulo Ghiraldelli, 60. São Paulo, 29/07/2017

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18 Responses “Rodrigo Hilbert é o símbolo da confusão mental de uma geração”

  1. LMC
    31/07/2017 at 10:44

    E a mulher do Hilbert faz um programa
    chamado Amor e Sexo na mesma TV
    do padre Marcelo!Esse Brasil é bem
    louco,mesmo!

    • 31/07/2017 at 11:51

      Ué, não pode? Isso é sanidade, não loucura! A não ser a Loucura de Erasmo.

  2. Matheus
    30/07/2017 at 14:52

    A minha “crítica” ao “fenômeno Rodrigo Hilbert” é dupla. Por um lado dizem que os programas de culinária deles são “sujos”, além disso ele é um ator e modelo que há tempos não vejo trabalhar em nada (além desse programa de culinária tido como sujo – mas eu msm nunca assisti então não afirmo convictamente) de modo que nada mais justo que ele tomar partido dos afazeres do lar. Na própria foto em que ele diz construir a casa ele diz que teve ajuda dos meninos e dos funcionários da fazenda (quem me garante que os funcionários fizeram tudo enquanto ele só supervisionava?) Bom até agora podem achar q eu ainda sou mais um dos mimimis? Bom aos mimizentos eu só diria que vale muito mais lavar uma louça do que ficar horas escrevendo textao entitulado “carta aberta a Rodrigo Hilbert” nas redes sociais… É fácil dizer que ele é lindo branco rico loiro de olho azul, mas aí uma responsabilidade é da natureza. “Os relés mortais” não escolheram nascer numa família ou com uma genética diferente da dele, mas em todo o resto há espaço pq segundo Aristóteles está no mundo da possibilidade. Todo mundo pode fazer uma casa na árvore prós filhos, talvez não uma tão luxuosa quanto a dele certo? Mas ainda assim isso não impede. Não gosto desses discursos “impeditivos” a lá “nunca serei um Rodrigo Hilbert” tudo bem não ser loiro lindo de olho azul, tudo bem não ter herança e nem talentos artísticos natos, mas o resto dá pra fazer sim, ora essa!

    • 30/07/2017 at 15:13

      Bem Matheus, meu texto não era propriamente sobre Rodrigo. Poderia escolher outro.

  3. Débora
    30/07/2017 at 12:09

    Acho que ele é um ótimo “problema” que se funcionar como inspiração, tá valendo muito! Porque textos de como ser “homão da porra” até agora não funcionam, porém atitudes podem ser bastantes inspiradoras qdo arrancam suspiros das mulheres. Pra mim o único problema aí nessa história é que tá caminhando para o inatingível e aí os homens voltam a suas zonas de conforto, considerando o Hilbert só um produto criado pela mídia.

  4. Daniela Conceição Barbosa
    30/07/2017 at 11:29

    Só uma pergunta o senhor é vegano? Pq se não for quero que me explique como acha que a carne que milhares de pessoas neste mundo comem aparece no açougue.

    • 30/07/2017 at 12:47

      Daniela eu não como a carne que aparece no açougue, nenhuma delas, e não maltrato animais. Isso é um problema meu.

    • 30/07/2017 at 12:49

      Isso é um problema meu, de não maltratar animais ou ser assassino deles. Minha militância nisso compreende muito bem que posso conquistar outros para essa causa se souber lembrar que no meu passado matávamos os bichos em casa, como se ele fossem um nada.

  5. Elaine Albuquerque
    30/07/2017 at 10:48

    E que nasçam e renasçam mais homens como Hilbert!! Realmente estão tornando-se raras as espécies do macho homem que na sociedade contemporânea sabem agir verdadeiramente como tal em seu lar, para si e sua família e ddntro da própria sociedade como um todo!! Na Alemanha, França e Reino Unido, por exemplo, aonde estão os homens para defdnderem as mulheres dos malditos violentos refugiados mulçumanos?

    • 30/07/2017 at 11:09

      Elaine, menos! Pense melhor! Principalmente sobre a ideologizada frase sobre refugiados.

    • Elaine Albuquerque
      30/07/2017 at 17:07

      Desculpe;me. Ando muito revoltada com o que estâ ocorrendo no Reino Unido, França e Alemanha! Muita arrogância e violência dos mulçumanos! Assédios, estupros, agressões às mulheres! E a resposta a esta situação? Uma vergonha!

    • 30/07/2017 at 21:50

      Elaine você está só falando de preconceitos seus. Tem um bocado de empregada doméstica aqui sendo estuprada por “cristãos”.

  6. 29/07/2017 at 23:06

    Não tem nada melhor para escrever.

    • 30/07/2017 at 07:05

      Roberto, meu texto é para inteligentes.

    • LMC
      31/07/2017 at 14:37

      Melhor ver o programa do
      Hilbert do que aquela conversa
      de desligar a TV e ler um livro
      daqueles de autoajuda.

  7. André Sarani
    29/07/2017 at 20:27

    Muito bom. Só faltou um pouco de paralelos com a virilidade advinda da guerra.

    • 29/07/2017 at 20:46

      Sim, se aprofundarmos no Sloterdijk, iria por aí.

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