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22/07/2017

Reeducação do nosso comportamento ativista


O filósofo Peter Sloterdijk tem um modo de ver o mundo que nos autoriza a dizer que certos ativismos são uma forma de dar peso gravitacional para quem vive num mundo leve demais. Creio que há muita verdade nisso, e em nada uma tal coisa desmerece os ativismos. Que mais e mais gente cuide de cachorros ou seja vegano ou faça protesto em favor de amamentar criança em shoppings (me incluo nos três casos) etc., mas não atue, por exemplo, em favor dos pobres, não tira o mérito das causas, uma vez que o problema real que levantam é bem objetivo. O mesmo vale para movimentos de minorias. O brilho de uma estrela não apaga o brilho de outra. Mas, uma coisa é a objetividade do problema e a meta que se quer atingir, outra coisa é o movimento como movimento, que valores e práticas ele desenvolve no seu decorrer. Não penso que deveríamos esquecer a velha frase McLuhan “o meio é a mensagem”, que Lauro de Oliveira Lima soube parafrasear no “o meio é a massagem”.

A questão de todos os movimentos pode ser resumida por uma observação, colocada por uma leitora: “não consigo entender que pessoas boas, que eu conheço, possam continuar comendo carne – será que não conseguem ver que isso é compactuar com a matança?”

Podemos pensar isso de todas as causas boas que defendemos. Por que os outros não tão bons quanto nós?

Particularmente, é difícil para mim – talvez impossível – conviver com uma pessoa que é capaz de abandonar um cachorro na rua. Talvez seja mais fácil, para mim, entender uma mãe humana se desfazer de um recém nascido! Há coisas que embrulham o estômago, outras que viram de uma vez o estômago. No entanto, o primeiro dever inteligente do ativista, é tentar compreender a perspectiva do outro. O ativista é fundamentalmente um historicista crítico. Ou é isso, ou vai gerar complicações desnecessárias.

O que é um historicista crítico? É aquele que leva em consideração as razões históricas pelas quais alguém age de um modo que não aprovamos, que realmente muitos não aprovam, que vai contra os preceitos morais universais anti-crueldade. Mas é também alguém – e daí seu criticismo – que não faz das razões históricas meros atenuantes a respeito de comportamentos maldosos. Talvez seja fácil entender o que digo se no atemos aos nossos parentes. Imagine que você é um ativista não fanático do combate ao racismo e você tem um avô que fala frases racistas (quem não tem um parente assim?), e o avise que isso é crime, que “o mundo está mudando” etc., Ele leva a sua fala em consideração, mas, pela força do hábito, solta uma frase infeliz no meio de negros e, enfim, cria um quiproquó danado. Vem então a polícia, e quer levar o seu avô em cana. Você sai em sua defesa e tenta dizer para os ofendidos coisas como “ele não falou por mal”, “ele está acostumado com frases do passado”, etc. Você sabe que seu avô não é racista no sentido de expulsar negros de casa. Talvez seja um pessoa, este seu avô, que até tenha negros na família e goste muito deles, mas a frase malévola saiu realmente porque ela é um jargão que está “no ar”, às vezes no campo de resto de humor de época. Todavia, os ofendidos resolvem não amolecer, e querem a prisão do velhinho. Nessa hora, você se coloca na pele do ofendido e pode ver que ele tem razão, mas você fica triste ao notar que o ofendido não se coloca na pele do seu avô, de não levar em consideração a idade do avô etc. Seu ativismo anti-racista teve a oportunidade de se tornar crítico!

O que quero dizer com isso tudo é que pessoas que defendem causas devem ser capazes de pensar nos meios pelo quais atuam, de modo que, ao final, não esteja criando mais um hábito de violência do que um elemento realmente coibidor de violência. É aquele velho drama da revolução usando métodos de violência. Nunca se sabe se a violência gerada no processo revolucionário não passou da conta, fomentando no novo regime uma cultura de violência sempre pior que a que existia antes. Os grandes líderes são os que sabem, num processo assim, não gerar uma situação que comprometa o futuro. Mas isso é impossível de garantir num processo revolucionário. No contexto do ativismo por boas causas, que são reformas culturais a médio prazo, é bem possível tomar conta para que a feminista não vire a feminazi etc.

Em todo tipo de ativismo é necessário ter uma antena para a sensibilidade. É necessário analisar em que momento uma tese é quase hegemônica, e quando ela é realmente uma especulação, uma balão de ensaio. A hora de inovar, mesmo, é alguma coisa que poucos acertam. Depende de mudanças que, no processo de se tornarem hegemônicas, não atropelem o passado que teima em permanecer, de modo a gerar efeitos colaterais piores do que o mal existente. Na colocação das leis é assim. Na colocação de certas exigências

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 31/01/2017

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6 Responses “Reeducação do nosso comportamento ativista”

  1. Mauro Luís Matzembacher
    01/02/2017 at 11:11

    Ótimo texto. Contudo, se faz necessário ressaltar que, especificamente no caso do consumo de animais e derivados, a vítima não pode esperar o despertar lento e gradual dos consumidores do seu sofrimento e morte, urge uma ação mais inteligente e inspiradora nesse contexto. Afinal são mais de 70 bilhões de animais mortos (sem contar os aquáticos) anualmente pela ignorância humana. Porém, é obvio, que é preciso construir uma ponte para uma consciência coletiva evolutiva, de forma atrativa, sem destruir os laços em comum. Um ativismo pela educação, informações de alternativas mais saudáveis, ecológicas e éticas… precisaríamos um fórum nacional para elaborar diretrizes e campanhas agregadoras.

    • 01/02/2017 at 11:44

      Mauro, todos nós que temos uma causa achamos que ela é a coisa mais urgente do mundo. E nisso, nos fodemos.

  2. Hilquias Honório
    31/01/2017 at 22:12

    Eu acho que o problema, como está no início do texto, é que a militância vira um valor em si. A pessoa acaba ficando obcecada com os dogmas estabelecidos para a causa. Isso parece que também coloca pra fora os sentimentos mais irracionais, como o ódio a personagens e fatos da adolescência. Mas também é fato, que mesmo pessoas razoáveis passam do ponto, em um momento mais extremo, se não forem atentos.

  3. Diego Rodrigo da Silva
    31/01/2017 at 17:30

    Parabéns pelo Texto,veio no momento em que precisava.

    Abraços Paulo!

  4. Paulo
    31/01/2017 at 17:26

    Paulo, tem como calibrar essa força (extremismo) ? me parece sempre que ela será polarizada.

    • 31/01/2017 at 19:40

      Gorgal, o problema não é extremismo. Longe de mim denunciar extremismo. Sou um radical para muita coisa. O problema é falta de inteligência, sensibilidade e “timing”.

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