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13/11/2019

Quando os velhos sabem mais?


Há épocas na história da humanidade que as diferenças de idade contam pouco. Todavia, nos tempos atuais, com as mudanças sendo cada vez mais rápidas, os um pouco mais velhos diferem muito dos menos velhos. Além disso, cada geografia tem a sua história e os seu cortes, suas rupturas e fossos. Conforme a situação, um ano equivale há décadas.

Vejo isso em relação ao Brasil atual. Pertenço aos da década de cinquenta, não aos da década de sessenta. Não adianta uma pessoa de 54 anos vir me dizer que ela viu muita coisa e que é igual a mim que eu sei que não é. Tornamo-nos gente quando? Isso é dependente do que os adultos conversam conosco, e se conversam muito, poucos anos de diferença contam demasiado, principalmente se se vive em épocas de rupturas. Eu lembro muito bem o que meu pai e meu avô materno faziam antes de 1964. Lembro bem o que falavam de um Brasil com democracia. Lembro bem de como foi depois de 1964. Quem é um pouco só mais novo que eu e vem me dizer que é igual, mas não viu 1964 e 1968 como eu vi, ou seja, no meio dos adultos, eu peço, não queira falar grosso, não queira dar lições de livros, não me valem. Principalmente se forem livros de gente que também não viveu. Gente que não teve a militância que eu tive, por favor, fale menos, do mesmo modo que eu falo menos diante de gente que é só um pouco mais velha que eu, mas viveu bem o que eu não vivi.

Deveríamos sempre estar atentos a isso nessa nossa vida contemporânea. Meu filho nasceu em 1993. Ele nasceu sem Internet e viu a Internet chegar e caminhou no contexto da sua apropriação, do desenvolvimento dos programas, evolução das máquinas e da velocidade de comunicação. Ele é diferente dos pouca coisa mais jovens que ele? Sim, ele é diferente. Meu filho acompanhou o Mensalão. Quando agora veio o Petrolão, e o pegou adulto, ele teve mais facilidade de absorver a traição do PT do que muita gente mais jovem que ele, que pegou o PT pós-mensalão criando o “novo milagre brasileiro do Lula”, pós 2005.

São poucos os anos de diferença entre pessoas e, no entanto, como o tempo humano não é o tempo abstrato do relógio, é necessário uma certa humildade diante de Cronos. Por isso mesmo, uma pessoa de 58 anos para fazer 59, como eu agora em 2016, não é a mesma coisa que quem vai fazer 55. Há um fosso aí. Cada época da vida é uma época psicológica que pode estar sob um influxo psicopolítico muito curto e significativo. Não se foi adolescente nos anos 60 como se foi adolescente nos anos 70, mas há menos distância nisso do que entre adolescentes brasileiros do anos 80 diante de adolescentes dos anos 90. Isso eu soube muito bem. Mas há quem não consiga entender isso e não toma certos cuidados necessários, e se acha igual aos mais velhos só porque os mais velhos são pouco mais velhos só. Isso é um erro. Um erro crasso. É necessário saber o que foi vivido pelo outro e isso só é possível quando temos a noção de qual experiência o outro pode ter passado, aquela que não pudemos passar e sequer imaginar.

Num país como o nosso, em que as reformas educacionais nunca se realizaram nas datas do Diário Oficial, mais ainda temos de tomar cuidado sobre tais igualações. Muitas pessoas acham que o ensino brasileiro decaiu com o regime militar, mas isso foi verdade não para o regime militar ao todo, mas para o que veio não em seu início, mas ao seu final, e até mesmo depois. As coisas não passam a funcionar nas datas do Diário Oficial. Nem o Golpe de 1964 passou a funcionar em 1964. Entre os anos 1964 e 1968 nossa criatividade e liberdade de criação foi fantástica. Só depois da derrocada total do Maio de 68 é que realmente surgiu estagnação e redirecionamento no mundo todo, tanto no Ocidente quando no Oriente. Os que pensam que são mais velhos que os mais velhos, às vezes não notam que são bem mais novos.

Cada dia que passa os jovens chegam mais jovens em mentalidade para ocupar os lugares dos velhos. Os mais velhos se espantam com esse rejuvenescimento da população comandante, especialmente no Brasil. Esses jovens, que às vezes se pensam mais velhos porque podem falar “já passei dos 50”, não se dão conta de que dependendo do modo que passaram os primeiros dez anos, ainda não passaram dos 50 em hipótese alguma. E se contarmos que o homem só sai da adolescência aos 55, então, mais ainda alguns de nós deveria falar menos do que fala.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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15 Responses “Quando os velhos sabem mais?”

  1. Marisa Neres
    24/07/2016 at 10:14

    Que belo texto, Paulo! Não é à toa que eu gosto tanto de ouvir o que você tem a dizer.

  2. João Batista Vibrio Neto
    10/07/2016 at 09:32

    Ótimo texto, com clareza e como sempre e foste a ponto fulcral, Paulo.
    O comentário que deixo é que nossos ancestrais por milhões de anos tinham alguns conhecimentos em relação aos quais havia pouca diferença entre as gerações e escalões, afinal as experiências se restringiam ao conhecimento do clima, das estações, das técnicas de caça, do fogo, de alguns instrumentos rústico, de como se proteger do frio e progressivamente de técnicas de agricultura e da guerra, numa evolução cronológica que não me deterei.
    Com o inicio das grandes civilizações e com a politica, a filosofia e as técnicas de manufatura, surgiu um fosso entre a experiência pessoal de um jovem e a de um idoso.
    A diferença entre as experiências pessoais acumuladas com o tempo vivido e as especializações foram progressivamente se alargando nos últimos 500 anos, por conta da ciência, da tipografia, do iluminismo, da revolução industrial e não só.
    Essa distancia tornou-se ainda maior e abrupta no último século com o avanço dos meios de comunicação e dos transportes e nas últimas décadas com os computadores e internet.
    Hoje, como disseste, pode haver um abismo entre o que uma pessoa viu e viveu na mesma data ou com a mínima diferença de gerações ou mesmo da geografia.
    De fato, a facilidade e rapidez em difundir e ter acesso à informação engana a muitos, conforme disseste.
    Um tolo e um prepotente não percebe isso, infelizmente a prepotência e a tolice habitam a mesma cabeça.
    Que essa tua inteligência continue abençoada e que a lucidez te acompanhe por muitos anos, Paulo.
    Beba água.
    J

  3. vera bosco
    09/07/2016 at 13:20

    Que Reforma Educacional?Tá falando daquela que põe 50 alunos numa sala para 4 horas diárias de aula se tiver professor para todas as disciplinas?
    Melhor oficializar a aula vaga.

    • 09/07/2016 at 20:24

      Vera não entendi o que quer, eu não especifiquei nenhuma reforma.

  4. 09/07/2016 at 10:02

    Easy Rider, ou como foi traduzido na época, Sem Destino. Só quem assistiu a este filme reconheceria esta foto.
    Claro que assisti. Com Peter Fonda, Jack Nicholson e outros.
    Mais tarde (1979) chegou aos cinemas o filme Síndrome da China, estrelado pela ativista e irmã do Peter, a Jane Fonda. O filme faz severa crítica às usinas nucleares que proliferavam na época nos Estados Unidos.
    Nada como ter nascido na década de 1940 e ter visto e vivido as transformações pelas quais este nosso brasilzão e o mundo passaram de lá pra cá.
    Com isso, tem-se história para contar. Se não tivéssemos, não teríamos vivido e sim apenas existido. Ou como disse Nietzsche, nascidos póstumos.
    Vi os Beatles nascerem e morrerem, enquanto Os Stones ainda reinam até hoje.
    Vi Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagallo. Vi o milésimo gol do Pelé em cima do meu Vasco, em pleno Maracanã (aquele Maracanã e não o de hoje).
    Vi a Rainha Elizabeth lançando a pedra fundamental que deu início a construção da Ponte do Século (a ponte Rio-Niterói, já que liga o Século XX ao Século XXI).
    Vi o Concorde pousar e decolar no Galeão, mas também vi o homem pousar na Lua, ontem o Acelerador de partículas do CERNE entrar em funcionamento e também a queda do muro de Berlim.
    Ah! Estive perto de Yuri Gagarin, quando esteve aqui no Rio de Janeiro (A Terra é azul!).
    Tive um Fusca e um violão, vi a Tropicália invadir o Brasil, vi Vinícius, Toquinho, Nara Leão, Tom Jobim, vi a Bossa Nova nascer, vi pela TV o Brasil ser tri-campeão mundial de futebol (as copas anteriores só pelo rádio).
    Vi a Aliança para o Progresso, assim como o 36º Congresso Eucarístico Internacional em 1955.
    Vi os irmãos Fittipaldi às voltas com o COPERSUCAR-FITTIPALDI
    Vi o telefone a magneto em uso, assim como vi a chegada das centrais eletrônicas e do telefone móvel e a morte das telefonistas.
    Vi a vassoura vencer a espada do Marechal Lott e depois renunciar à Presidência (fi-lo porque qui-lo!).
    Assisti Paulo Autran em Édipo Rei no Teatro João Caetano (década de 1960), assim como assisti A Primeira Noite de um Homem e Matrix.
    Ouvi je t’aime moi non plus, estudei latim e francês no primário, cursado nas décadas de 1950 e 1960.
    Vi Brasília em construção e depois ser inaugurada (os tais cinquenta anos em cinco que fuderam o país…)
    Vi a Rodovia Castelo Branco ser inaugurada e a Usina de Itaipu entrar em funcionamento, assim como a construção da Belém-Brasília (credo!!!!).
    Vi os americanos, digo, os militares derrubarem Jango e se manterem no poder por 21 anos e depois o devolverem a um civil (anistia ampla, geral e irrestrita deu no que estamos vendo hoje…).
    Na verdade algumas dessas coisas eu realmente somente vi, mas de muitas delas eu participei.

    Enfim, posso falar de muitas coisas que os jovens nem sequer imaginam, pois são 67 anos de praia, 67 anos de esquina, 67 anos de botequim, dois casamentos, quatro filhos e cinco netos, um montão de estudos formais e mais um montão de informais, muitas viagens, muitos discos, muitos livros, muitos amores, muito esporte, muito trabalho, muito tudo. Eem síntese, uma vida que está valendo a pena ser vivida, já que é vivida intensamente.
    Mais ou menos como disse Galileu Galilei, tenho uns 15 ou 20 anos de vida… Pela frente, pois os que já se passaram, eu já não os tenho mais. Deles só ficaram as fotos, os vídeos, as lembranças e as muitas realizações concretas.

    Muito bom tomar conhecimento da sua existência recentemente, principalmente em razão da sua forma de enfrentar as adversidades que a vida lhe impõe: de frente, sem rodeios e como ela é.

    Ricardo Rocha Lisbôa

    • 09/07/2016 at 20:27

      Ricardo, é isso, o que eu quis dizer é que uma pessoa às vezes quase da mesma idade que você pode ter pulado algo decisivo que, à primeira vista, não. Na infância e adolescência, um ano conta muito dependendo do que ocorreu.

    • Marisa Neres
      24/07/2016 at 10:13

      Ricardo, gostei muito de ler o seu texto!

  5. João Bosco Renna Júnior
    09/07/2016 at 01:11

    Eu nasci em 1983, entendo que os adolescentes oitentistas, viveram experiências psicopolíticas, culturais, artísticas que eu não vivi, mas também sei que o conteporâneo é elástico, eu comecei a escutar rock em meio a transição entre vinil e cd, porém sei muito bem o que é uma fita cassete, gravada de um vinil, eu escuta fica cassete gravado, quando não tinha dinheiro pra comprar cd, assim como nos anos 80, ou seja, algumas experiências se extendem de uma geração para outra…ao passo que meu filho nunca vai comprar um cd, por que tem youtube, e eu vivo o youtube, nunca mais comprei cd…o que me incomoda na nova geração depois de mim, é que não dão valor aos clássicos, a mesma crítica que vc faz na educação, eu posso fazer também na música, os clássicos do heavy metal são iron maiden, black sabbath, judas priest e metallica…isso foi os anos 80, e esse império durou até meados de 2001, quando o new metal invadiu…porém essas bandas de new metal já sumiram, ninguém mais ouve falar, e da mesma maneira que platão e aristóteles foram lidos por várias gerações, traduzidos, e chegaram até nós, iron maiden, black sabbath, judas priest e metallica dão provas de que resistem ao tempo, sempre terá adeptos, porém em menos quantidade, da mesma forma é na filosofia, que é pra poucos, e na música clássica, que é para uma elite…

    • Sula Miranda
      09/07/2016 at 09:34

      Que porcaria é essa? O João Bosco está confundindo indústria fonográfica e seus brinquedos de emissão do som com narrativas históricas , políticas e poética ?

      Só um idiota mesmo pode achar que Black Sabat , seus miquinhos amestrados e derivados fundavam uma linguagem universal.

      Fundaram sim um monte de adeptos às drogas contra tudo e todos.

      Pura viagem subjetiva de usuários de ácidos que escrevia suas músicas depois de ter um surto pisicotico.

    • 09/07/2016 at 09:36

      Sula, é claro que ele só falou da subjetividade dele mesmo, do que falaria para um texto como o meu?

    • S Miranda
      09/07/2016 at 20:14

      Paulo , sei meus limites. Sou uma pobre estudante.

      Estou tentando refletir sobre a complexidade de seu texto. Mas , uma coisa que posso falar é que você não é um homem do seus tempo no sentido atemporal das reflexos.

    • 09/07/2016 at 20:22

      Não a critiquei, Mirando, pode reler e verá.

    • LMC
      11/07/2016 at 11:48

      Pobre estudante?É pobre estudante
      mesmo,literalmente.

    • GRETCHEN
      09/07/2016 at 11:39

      Ô minha irmã,para de se comportar como
      crítico metido a esquerdete da Folha nos
      anos 80.Você é de alguma igrejinha que
      recupera drogados,é?kkkkkkkkkkkkkk

    • Guilherme Picolo
      09/07/2016 at 20:17

      Quanto preconceito, Sula! Esse lugar-comum de associar um gênero musical com tudo o que há de ruim já está batido… é o mesmo discurso dos detratores do funk, que não o admitem como uma forma de manifestação cultural.

      O grande problema do Black Sabbath é o mesmo de ter gato e cachorro: como os caras já estão perto dos 70 anos, sobram poucos anos pra vê-los por aí tocando em shows…

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