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16/07/2018

Por que vamos para a cama no primeiro encontro?


[Artigo preferencialmente para o público acadêmico]

Não íamos, mas agora vamos. Vamos para a cama no primeiro encontro. Se não no primeiro, então no terceiro. Demorou mais de quarenta anos para que a prática dita ser aquela da geração revolucionária de Maio de 68 se transformasse em prática social de todo mundo. Mas aconteceu. Ou quase isso.

O que se pedia na época, nos Sixties, em termos de comportamento social, nada tinha de libertino, mas sim do que veio a ser chamado depois, nos anos noventa, de cool. Gilles Lipovetsky bem disse: “a leveza libertina recupera papéis de sexo diferentes, a do cool é igualitária. A primeira é uma ‘guerra galante’ que não ultrapassa os limites do círculo restrito da elite social, enquanto a segunda se apresenta ‘descontraída’, não conquistadora, sem limites sociais. O mundo aristocrático gerou a frivolidade libertina. O universo democrático-individualista tardio deu origem à leveza cool .(1) Podemos dizer: nada tinha de leve a leveza libertina. A leveza de hoje, a do que até pouco tempo qualificávamos apenas como modinha cool,  erigiu realmente a leveza como tema e objetivo. Mas estamos com dúvida em que grau de leveza no encontramos. E não sabemos ao certo o quanto encontros amorosos se tornaram leves.

Na verdade, uma boa parte de nós ainda se pergunta se o correto é a cama ou não no primeiro encontro! Claro, as mulheres se perguntam mais. Mas hoje até os homens se perguntam isso.

Por quê? Por vigência de uma pergunta simples, também posta por Lipovetsky: “o cool foi o tom dominante de uma época. Mas será que continua a sê-lo numa época de reflexividade e de competitividade generalizada?”. Podemos emendar essa questão de Lipovetsky com a tese de Byung Chul Han (1), segundo a qual vivemos em um regime em que a exploração parece sair de cena para deixar entrar a auto-exploração. Em um regime de competitividade extrema, mas abarcado pela terceirização e individualismo cultivado como ideal, não é mais a empresa capitalista que nos vampiriza,  mas nós mesmos; agora somos colocados na condição aparentemente leve, ou seja, cool, que nos faz, mesmo numa empresa, nos vermos como se fôssemos um pouco patrões de nós mesmos. Isso não nos faz, de fato, muito leves! Nos exige positividade 24 horas por dia. Somos empurrados para a leveza positiva, mas talvez não para uma leveza propriamente dita?

Não queremos voltar a padrões vitorianos e nem mesmo suportaríamos mais os anos cinquenta do século XX quanto a modelos de vida doméstica, casamentos, encontros amorosos e criação de filhos. Ninguém quer uma “volta”, menos ainda os que cobraram leveza por meio de conquistas não só da ordem “dos pobres” (do ideário social democrata europeu), mas principalmente das “minorias” (do ideário liberal americano). Todavia, se somos mais cools que os que inauguraram o cool, somos também os que precisam de mais terapia e remédios de todo tipo. Não há uma contradição nisso? Ou a leveza é sempre relativa e, quanto mais leve somos, mais precisamos nos preparar para qualquer revés que, enfim, pode ganhar um aspecto nada leve quando atinge pessoas agora leves?  Sabemos bem, e a ajuda de Sloterdijk aqui nos é benéfica, que o frívolo ou que era fútil para gerações anteriores pode ser tornar um novo peso em uma sociedade leve, a ponto de sentirmos a “insustentável leveza do ser”. (3) A regra nossa, atual, pode ser exatamente essa: achamos importante e penoso cuidar, por exemplo, de animais abandonados; achamos importante e penoso cuidar, por exemplo, de nossos corpos em academias e usos de maquiagem etc.

Isso tudo, eu falo, com referência ao nosso pensamento quanto a comportamentos gerais, ou seja, tendências analisadas pela filosofia social. Pois, de fato, quando voltamos para a sociologia que carrega dados empíricos, sabemos que algo de pouco leve ainda regra relações amorosas.  O próprio Lipovetsky analisa os dados franceses recentes: todos os anos, mais de 80.000 mulheres são vítimas de violações ou de tentativas de violação, e em 30% do casos o autor é o cônjuge. (4) Além disso, o “ludismo de eros”, que alguns conservadores proclamam, com nariz torto, como sendo a marca de nossa era, é bem mais pudico do que imaginam. Hoje há menos culpa da mulher que ontem, por troca de parceiros, mas os dados revelam antes quietude que uma “anarquia sexual”. Lipovetsky de novo: entre 45 e 49 anos, as mulheres declaram ter tido em média 2,3 parceiros e os homens 6,9. Além disso, lembra o autor francês, as práticas de troca constantes (ou simultâneas) de parceiros afetam menos de 1% da população. Ele até chega a nos alertar, dizendo que sexualidade independente e hedonista, o consumismo, a vida cool, o ludismo exagerado podem estar no horizonte, no imaginário social (dos conservadores), mas na prática cotidiana nossa as coisas são mais complexas e não revelam uma total vida inconsequente, nem para os que são completamente solteiros em centros urbanos. Um alerta aqui: “Mais de duas em cada três mulheres e um homem em cada dois consideram que não se pode ter relações sexuais com uma pessoa sem a amar”. (5)

As mulheres temem serem chamadas por nomes pejorativos se aceitam sexo no primeiro encontro. Temem também que certas práticas sexuais as marquem pejorativamente como “vacas” ou “putas”. Mas isso, certamente, num grau bem menor que no passado, antes dos Sixties e antes das investidas do feminismo. Em 2013, diz Lipovetsky, uma a cada dez francesas com menos de 35 anos declarou já ter experimentados tapas, especialmente nas nádegas, durante o sexo; sete em cada uma confessaram que gostariam de fazer sexo amarradas; e 45% delas afirmaram ter usado brinquedos sexuais sozinhas ou junto do parceiro. Liberdade, sim, mas o carro chefe do amor, ao menos como horizonte e requisito ideal, não desaparece, e em certos momentos isso tudo até lembra um pouco uma transformação aludida por Horkheimer, e que ele toma como necessário para se inocular alguma utopia nos jovens: a luta por ficar com o amor que se deseja, a despeito de pais e outras barreiras sociais. Horkheimer diz que a facilidade dos casamentos por amor tirou um pouco a condição de treinamento para se gostar de utopias que, enfim, estava embutida nessa luta, em tempos pré liberais ou dos primeiros momentos do liberalismo. Essa análise de Horkheimer talvez seja menos endossada hoje por pensadores sociais, mas há de se notá-la quando vemos que, seja como for que há leveza nas relações de amor e sexo entre as pessoas de hoje, elas, estas pessoas, se acomodam menos a uma união sem prazer.

Talvez tenhamos que pensar, também, e um outro componente nisso tudo, mais propriamente filosófico, ou, digamos assim, mais metafísico.

A época moderna se abre como a época do sujeito centrado no Cogito, no pensamento, na identidade dada por adesão a um script vindo de ideários racionais – sou porque penso, sou o que penso. Mas a época contemporânea, em contrapartida, trouxe a alma para a fusão com o corpo e a submissão de ambos a uma visão mais materialista ou mais fisicalista. Somos mais Nietzsche que Descartes. Os tempos contemporâneos não têm um sujeito ou uma subjetividade que não traga para o seu interior o que é corpóreo, sensível e da ordem dos sentimentos – em resumo, somático. Apesar de falar de um eu e de um corpo que é nosso, não nos vemos hoje como um eu que não é propriamente o corpo. O corpo não é uma mera peça do eu. Ele ganhou o status de eu, a despeito da linguagem ainda velha para falar dele, que às vezes o trata como uma peça ou instrumento de um centro ordenador cerebral. Então, se assim é, nas entregas amorosas não como não há levar a mente sem levar o corpo, pois não estaríamos levando nós mesmos nisso tudo. Ir para a cama e dividir fluídos e intimidades é, nesse quadro, uma obrigação – obrigação de se poder dizer: “estou por inteiro nisso, realmente estou sendo autêntico etc”. Do bar à cama tornou-se uma tarefa de se ter um ego que está envolvido no encontro bar, e que de antemão já se sabia que deveria terminar na cama.

Agindo de outra forma, ambos os parceiros não se pensariam, tomando-se como indivíduos, como tendo levado adiante um encontro amoroso. Não se veriam em namoro ou coisa parecida. Não teria ocorrido um encontro de namoro, mas apenas mais um encontro de trabalho. Se todos se vangloriam hoje de serem indivíduos diferentes, a ponto do chavão dos participantes do Reality Show “Big Brother” é dizer “fui autêntico”, fazendo então todos iguais nesse desejo de diferença, o corpo aparece como o elemento que precisa ser mostrado para que se possa falar em ego, em autenticidade. Também esse elemento da formação da própria noção de eu e de subjetividade na contemporaneidade empurra para que não se possa ter relações amorosas que não sejam corporais. Não ter relações de trocas de fluidos corporais seria aquilo que restou do conceito de falso, por assim fazer. Equivaleria a uma frustração, um engodo – talvez proposital.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

 

  1. Lipovetsky, G. Da leveza. Para uma civilização do ligeiro. Lisboa: Edições 70, 2016, p. 269
  2.  Han, Byung Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
  3. Ghiraldelli Jr., P. Para ler Sloterdijk. Rio de Janeiro: Via Vérita, 2017 e Ghiraldelli Jr., P. Dez lições sobre Sloterdijk. Petrópolis: Vozes. 2018.
  4. Lipovetskty, op. cit., p. 274.
  5. Idem, ibidem, p. 285.

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