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25/09/2018

Por que ela ama seu marido cafajeste? Teoria da placenta e o auto-engano.


[Artigo para o público em geral]

Para minha amiga Leiliana Franco, que se interessa pelo assunto

“Minha filha tem vocação para ser mulher de bandido”. “Nossa, minha mãe tem dedo podre para escolher namorado”. Não há quem não tenha presenciado avaliações desse tipo.

Não é nada novo dizer que mulher adora um bandido, um cafajeste ou coisa do tipo. A Teoria da Libido Acesa de Márcia Tiburi por Lula, que foi coroada com o seu refrão “Lula é o crush de todas as mulheres”, não é aqui o objeto. Aqui, ao lembrar do bandido e do cafajeste, estou me referindo ao que infringe desrespeito e até dor – de todo tipo – a uma específica mulher que, enfim, não  abandona. Por que ela não o abandona?

É fácil usar palavras que antes rotulam que explicam. Procedimento médico não é? O paciente aparece com dor no tendão e paga 500 reais de consulta para o que o médico diga: é tendinite. Oh! Ou seja, dizer que mulheres são masoquistas não explica nada. Mas recorrer a “inúmeros fatores” e, então, ficar fatorando, é coisa para matemático, não para pensadores da vida social. Também explica pouco. Um filósofo não pode tentar falar do assunto como a revista Super Interessante fez: “Por que tantas mulheres continuam em relacionamentos abusivos?” E a bela Ana Prado, em seu blog na revista, cita um professor americano (sempre há um animal dessa espécie!) para falar algo impensável (para professores americanos?): há muitos fatores que explicam isso – eis a resposta do homem, que ela copia.

A teoria dos muitos fatores diz menos que a teoria do “eu ponho um “ite” no fim da coisa e tenho então uma semântica da patologia. É melhoro recorrermos à filosofia.

O mecanismo pelo qual as mulheres ficam com bandidos – seu bandido preferido, pessoal, intransferível e que se relaciona com ela em termos sexuais ou coisa parecida – não difere em muitos graus daquele que encontramos nas pesquisas sobre auto-engano.

O auto-engano e a acrasia são parentes próximos. No auto-engano eu conto uma mentira para meus próprios ouvidos e, mesmo sabendo que é mentira, acredito nela. Faço dela uma verdade, ou quase. Na acrasia eu sei de algo que me prejudica, mas realizo assim mesmo, uma vez que tenho “incontinência” ou “vontade fraca” ou não tenho “força de vontade”. Nos dois casos, há um divisor de águas histórico, para a explicação. Foi a transição sempre borrada entre Sócrates e Platão.

Sócrates jamais achou que era possível o auto-engano ou o agente acrático. Se cometo algo que é ruim, que me prejudica, faço isso por não ter conhecimento de tudo que está implicado no caso. Deste modo, não existe mentira para si mesmo ou falta de força moral, mas apenas falha intelectual, dispersão cognitiva, tropeço no processo do iluminismo pessoal, de integração mais completa na Paideia. Platão desconfiou dessa explicação e, na teoria da divisão da alma em três partes, ilustrada de modo belíssimo pela alegoria da biga com dois cavalos, no Fedro, falou do conflito entre esses elementos para admitir a acrasia e o auto-engano. Daí para diante, com Aristóteles, fomos caminhando cada vez mais para sair da visão ortodoxa clássica de Sócrates. Um dia, claro, chegamos a Freud e Donald Davidson, e fizemos tudo se mostrar como situações mentais no contexto social, em que há compartimentos inconscientes no âmbito do Eu, para o primeiro, e há redes de crenças e desejos em planos diferentes, para o segundo – a subjetividade. Para usar a imagem de Freud: o ego não é senhor em sua própria casa.

Todavia, seja com Davidson ou Freud, o que é o mecanismo do auto-engano? Uma irracionalidade, claro. E como pode o homem, que é racional, conviver com sua irracionalidade. Como é possível o irracional? Há algumas variantes sobre o auto-engano explicado, mas a visão mais simples e mais eficaz para torná-lo palatável a quem o estuda é que se trata de um mecanismo de auto-defesa. Sofre-se uma dor para evitar o que seria ainda pior. O insuportável é o insuportável da outra dor, a que evito sofrendo a dor que sofro.

Ficar com seu próprio algoz é uma dor. Mas o algoz dedica um tempo para você. Ele humilha a mulher, bate, pode até estuprar. Tudo isso é gasto de tempo e dedicação. Já imaginou sentir a dor de ir para o “mercado sexual” e não ter mais ninguém que possa olhá-la e se dedicar tanto? Não é o desprezo e a solidão o pior dos cárceres? Quem realmente acredita no ditado “antes só que mal acompanhado” nunca entendeu o mecanismo do auto-engano que funciona no relacionamento entre um marido ou namorado abusador e uma mulher que teme o desprezo. Todos nós tememos o desprezo. Não há mamífero que o aguente.

O desprezo é uma experiência infantil. Se nos abalamos com ele, forma-se aí uma cicatriz. Essa cicatriz será lembrada sempre e todas as vezes que o desprezo vier a se fazer iminente, para escapar dele, faz-se qualquer negócio. O eminente iminente apavora. Pode-se então criar o auto-engano: “ele não vai me bater mais”; “ele fez isso por estar bêbado, sem  a bebida é um santo”; “ele fez isso para me punir, pois tem ciúmes de mim, me ama”; “ele fez isso porque, coitado, é doente”; “ele fez isso, sofro, mas como deixar minhas crianças sem pai?” Não há nenhum animal que capricha mais no auto-engano que a mulher. Ela teme que o homem vá à caça e não volte para a caverna. Esse elemento antropológico milenar marca todas as mulheres. Não voltar significa não trazer a comida, deixando a parceira com os filhos à morte horrível que é a fome na escuridão. Mutatis mutandis é isso que a mulher passa  a viver no relacionamento: se ele voltar, cumpre-se o destino do casamento, da parceria, do namoro. Se ele não voltar, o mundo perde o seu destino e, portanto, o sentido. Uma mulher sozinha é uma mulher efetivamente sozinha, ou seja, desprezada. Para que o desprezo não ocorra, que os deuses tragam meu homem de volta, que ele chegue à porta e passe a soleira. Todo o resto é resto daí para diante. O mundo faz sentido. Há de se preencher a caverna.

Somos frutos de uma relação placentária que é um duo: feto e placenta – Peter Sloterdijk nos ensinou isso. Temos uma subjetividade que é ontologicamente um duplo, um funcionamento em torno de simbiose e ressonância. Passamos uma vida tentando fazer substituições da placenta descartada. E nos casamos exatamente por conta disso. Se essa união se revela insuportável, mais insuportável mesmo é a não união, a dilaceração da subjetividade, onde um dos polos se vai e nenhum arcanjo o substitui. O auto-engano se faz aí necessário: minha placenta vai voltar! Estarei num útero. Um útero que não é o que eu esperava, mas é um útero. Milhares de mulheres estão fora de seus úteros, ou seja, no aberto, no vazio. O vazio é o inferno.

O auto-engano produz as fontes de energia mais produtivas da terra. Com ele, a mulher consegue se deitar com o demônio e, a cada tapa que recebe, encontrar a justificativa para abrir mais ainda as pernas – por amor. O auto-engano cria a tranquilidade da vida em que a semântica rege nosso trono de espinhos.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Sugestão de leitura 1: Dez lições sobre Sloterdijlk (Vozes, 2018); Para ler Sloterdijk (Via Vérita, 2017); Introdução à filosofia de Donald Davidson (Multifoco, 2010). Sugestão de leitura 2:  Artigo sobre acrasia e auto engano

Gravura: Vancouver, janeiro de 2017. People attend the women. Créditos na própria foto.

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5 Responses “Por que ela ama seu marido cafajeste? Teoria da placenta e o auto-engano.”

  1. 07/06/2018 at 12:23

    Se até o final da minha vida eu tiver metade da inteligência do professor, eu estou satisfeita.
    Texto incrível!
    Descreve perfeitamente este enorme conflito vivenciado pelas mulheres, eu mesma me peguei pensando porque cargas d’água eu fiz isso?

    • 07/06/2018 at 12:50

      Aline, fico feliz quando alguém reage aos meus textos de modo reflexivo.

  2. Garoto honesto.
    07/05/2018 at 19:52

    Somos animais sociais extremamente adaptativos. As mulheres se tornaram financeiramente independentes. Homens carentes de papel social são os novos moradores da ‘caverna vazia.’ Perdidos, assustados e sem lugar – já temos visto neonazistas marchando aos gritos; ‘não seremos substituídos’, assustados, heteros e brancos. Já não são os heróis. Na falta do lugar de ‘herói’ sobra o lugar do neofascista. Os Trumpistas estão em alta. Adoro um macho, não sou misândrico, mas os tempos mudaram.As mulheres subiram para o teto da caverna. O masoquismo é só mais uma forma de prazer. Quem não gosta de um tapa na cara e uma pica no cu? Eu adoro!

    • 08/05/2018 at 09:33

      Para falar que gosta de pica no cu não precisa de nenhuma outra frase acima de “Eu adoro”. Agora, “o quem não gosta” é tentativa sua de universalizar seu gosto, ou seja, mera ideologia.

  3. Hilquias Honório
    04/05/2018 at 14:42

    Que texto fantástico! Tomara que nenhum inculto venha reclamar de machismo!

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