Go to ...

on YouTubeRSS Feed

16/12/2017

Os anti-politicamente corretos são como cocô de cavalo


Este artigo é indicado para o público em geral

O politicamente correto é um movimento de suavização da linguagem, de ampliação dos vocabulários, e tem suas raízes nos primeiros tempos da sociedade de mercado, ou seja, na entrada da modernidade. Ter o cuidado de usar uma linguagem não ofensiva com grupos no âmbito da vida política, no burgo, centro do mercado do início do capitalismo, tornou-se um imperativo da inteligência. Saber o que falar para um estrangeiro no âmbito do mercado se tornou uma habilidade necessária para o comércio, para as relações que trouxeram povos estranhos para o convívio no burgo e, portanto, para “os negócios”. Desse tempo para cá, sucessivas levas de politicamente correto ocorreram.

Mas o título “politicamente correto”, referindo-se explicitamente a vocabulários necessários para se lidar com minorias, é mais recente. Faz parte, ainda, da “missão civilizadora do capital” (Marx), e não tem a ver com a esquerda européia, e sim com a esquerda americana que, enfim, em geral se autodenomina de liberal, a corrente maior do eleitorado do Partido Democrata, totalmente desvinculada de qualquer ligação com a esquerda marxista, minguada nos Estados Unidos.

O politicamente correto foi o braço mais ativo, em termos de mudança de comportamento, de algo que, no plano teórico, explodiu nos anos oitenta e noventa nos Estados Unidos. Nessa época o movimento acadêmico ligado às investigações sobre a linguagem ganharam a cena. Liberais, feministas, sindicalistas, intelectuais, negros, gays, lésbicas e outros leram as pesquisas acadêmicas a respeito da linguagem, e se deixaram contaminar pelas ideias de que construímos mundos por conta da adoção de novos vocabulários. A dicotomia “cultura versus natureza” perdeu força, e a linguagem apareceu como um elemento redescoberto, o criador das situações, condições, instituições, práticas, objetos, etc. A ideia de “redescrição” ganhou força com o filósofo Richard Rorty, e isso se somou aos trabalhos de Derrida e outros na Europa, mas que foram efetivamente muito mais aceitos na América que no velho Continente. Derrida chegou a marcar época com a frase “Não há nenhuma natureza, somente os efeitos de natureza: desnaturalização e naturalização”. Também é dos anos noventa os livros de Judith Butler, dando ênfase a “gênero” e “sexo” como construções da linguagem.

Criar novos vocabulários, redescrever, se tornou como que um imperativo no âmbito que já não era mais a luta de classes, mas sim a guerra semântica. Muita coisa boa veio de “gay is good” e “black is beautiful”. Muita coisa boa veio do desaparecimento de determinadas palavras e o aparecimento de outras. Muita criatividade boa foi empregada no sentido de alertar as pessoas para o quanto havia de ruim nos vocabulários usados para marcar, segregar, acotovelar, diminuir e humilhar. Em alguns lugares, bastou o politicamente correto para resolver a questão, em outros, foi necessário a lei.

Quando alguém diz “isso é coisa de preto”, num determinado contexto, pode estar ofendendo uma pessoa ou toda uma etnia. Se quem disse isso mostra que não foi alertado pela revolução semântica, pelo politicamente correto, e que não sabe que nem tudo pode ser tomado como “mera palavra”, então, ao menos no Brasil, há a lei para lembrá-lo. As empresas podem querer se ajustar à lei, afinal, elas são frutos do capitalismo, são elementos do mercado, e querem continuar a suavização necessária aos negócios. Elas querem fazer continuar a “missão civilizadora do capital” (Marx). Então, demitem os que não aprenderam a mudar seus modos e seus vocabulários. Elas estão nesse direito.

Isso pode parecer chato. Às vezes os militantes de minorias se perdem completamente nessas punições e começam a ter atitudes fascistas, buscando incriminações falsas e patrulhamentos acríticos. Às vezes fazem como aquele grupo de energúmenos que vieram com o papo de censura ao Monteiro Lobato, desconhecendo o que é um clássico. Mas, no geral, o movimento é outro, e seus bons frutos já se fizeram sentir nas estatísticas. Percebe-se isso na mulher, no gay, no negro etc. – todos estão podendo empunhar melhor suas identidades sociais após trinta anos de deliberada ação do politicamente correto. Muitos de nós reclamamos quando não podíamos mais falar de “desquitadas” ou “divorciadas” como quem falava de “mulher à toa”. Dizíamos: “nossa, o mundo vai perder a graça”. Mas hoje, não parece que há qualquer interesse em voltar a ter essas palavras ligadas à depreciação e fonte de piadas. O humor muda se a sensibilidade muda. É uma grande bobagem achar que o homem do futuro não terá humor. Terá, como tem, mas será mais suave. O mundo segue um plano teleológico de leveza – uma lição que Peter Sloterdijk e Gilles Lipovetsky, cada uma ao seu modo, tem descrito muito bem.

Os rebeldinhos conservadores que lutaram na frente anti-politicamente corretos, estão passando. Eles quiseram criar o descrédito do movimento apelando para os pontos de exceção, principalmente na questão do humor. E às vezes, justo eles, moralistóides ao extremo, vieram com o papo mentiroso de que estavam a serviço da “liberdade de expressão”. Mas, agora, começam a mostrar que não sabiam nada, que eram meio toscos, e que no fundo mantiveram-se apenas como gente de direita querendo segurar a história pela crina. Ficaram para trás, junto com aquilo que o cavalo vai soltando no galope, acumulando em carreira no centro da estrada.

Paulo Ghiraldeli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 29/11/2017

Foto acima: Trump tentando fazer piada com doença congênita do jornalista do New York Time. Não vi graça nenhuma no escárnio. Mas talvez os anti-politicamente corretos, aqui no Brasil, queiram educar seus filhos tendo como modelo de homem o Trump.

Paulo Ghiraldelli Jr. é doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

Tags: , ,

5 Responses “Os anti-politicamente corretos são como cocô de cavalo”

  1. Eduardo
    12/12/2017 at 19:03

    Paulo, o link abaixo caberia em vários artigos em que você descreve o capitalismo a partir da ideia de “suavização” das relações e de como as empresas de ponta estão antenadas nas mudanças de vocabulário e comportamentos, incluindo o “politicamente correto”. Segue a reportagem sobre o novo modelo de CEO http://www.consumidormoderno.com.br/2017/12/12/qual-e-o-perfil-do-ceo-do-seculo-xxi/

  2. Francisco Neto
    01/12/2017 at 11:22

    Publiquei um questionamento no post: Cães mostram que atacar o politicamente correto é coisa de ignorante. E acabei encontrando a resposta ao meu questionamento nesse texto

    “O politicamente correto é um movimento de suavização da linguagem, de ampliação dos vocabulários, e tem suas raízes nos primeiros tempos da sociedade de mercado, ou seja, na entrada da modernidade. Ter o cuidado de usar uma linguagem não ofensiva com grupos no âmbito da vida política, no burgo, centro do mercado do início do capitalismo, tornou-se um imperativo da inteligência.”

    . Obrigado

    Francisco Neto.

  3. Tony Bocão
    29/11/2017 at 15:53

    Os comediantes mais badalados hoje são um caso interessantíssimo, já que ele faz uso de comentários que a audiência não faria por coragem, aí acontece o riso, alimentando um público em meio a um ambiente tóxico. Mas acho que até este tipo de comédia tem data para acabar.

  4. LMC
    29/11/2017 at 13:52

    Você esqueceu de citar o da
    foto a direita do Trump,PG.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *