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26/09/2017

O vitimismo chegou na direita!


Clint Eastwood representou o macho do cinema após John Wayne. Ambos tinham a carcaça republicana e reivindicaram para si e para seus personagens a silhueta do que seria o americano típico. Self-made-man durão, sedutor de mulheres até por meio da violência, incapaz de reclamar ou chorar, herói de uma selva do salve-se quem puder. Esse era o homem, como soldado ou cowboy, de preferência. Matavam índios e mexicanos sem qualquer piedade. Podiam ser torturados, não cediam. Eram vingadores natos.

Quando surgiu Arnold Schwarzenegger as coisas começaram a mudar. O ator e seus personagens mesclados entre o durão-doce, de um lado, e o político republicano capaz de entender a agenda democrata, de outro, fizeram figura diferente. O republicanismo desse imigrante trouxe flexibilidade e capacidade de dizer para América: “calma lá, temos muito que aprender com o liberalismo soft e precisamos de um novo homem americano”. Então, uma transição teve início. A América, agora, está nessa transição, nessa escolha. Procura o americano ideal novamente. Concretamente, o fato é que Obama com sua ombridade elegante mexeu com os padrões.

Mas por esse balanços, o chamado vitimismo, que republicanos diziam pertencer aos protegidos dos democratas, deslizou também por cima deles. O homem da direita ignorante passou a reclamar da imprensa, começou a choramingar e dizer que está sendo tratado mal, e incorporou logo o vitimismo. Chegou então na política o rosto típico dessa fase, o próprio Trump. Falava grosso e de um dia para o outro começou a se dizer perseguido – assim tocou a campanha presidencial. Mobilizou uma legião de fracassados em torno dele. Os que sempre quiseram ser durões, mas que não conseguiram vencer num sistema de modernização da economia, passaram a reclamar mais que mexicanos, negros e pobres. Um novo loser surgiu nesse horizonte, o branco de direita, que até pensa em sair da casinha para passeatas da Supremacia Branca.

Mutatis mutandis o Brasil vive o mesmo. As pessoas que apoiam nossos homens de extrema direita, e os pseudo-intelectuais da direita, não mostram sucesso na vida pessoal, individual. A palavra “autônomo”, que eles botam no perfil do Facebook, nada é senão eufemismo da palavra correta, que é “desempregado”. Fazem bicos e posam de empresários. Falam do que não sabem, pois não tiveram escola e, quando tiveram, não foi boa escola. Adoram clamar por pessoas que eles acham que são intelectuais e que não passaram por escolas, não porque tais pessoas falam algo aproveitável, mas apenas porque são derrotados como eles, embora, aparentemente, não fracassaram. Afinal, youtuber é sempre alguém que pode dizer que está na moda! Essa gente toda é dolorida. E agora aderiram de vez ao vitimismo que antes acusavam ser uma prerrogativa da esquerda.

Tudo os ofende. A arte no Santander os ofende. O professor que os faz estudar os clássicos os ofende. A novela da Globo que mostra gays e trans os ofende. O Papa que esfrega na cara deles uma religião cristã que pede igualdade os ofende. Eles não querem ser iguais. Querem ser melhores do que podem ser. Estão doloridos e com raiva porque a ideologia que adotaram não lhes permite pedir ajuda estatal. Então, querem que toda ajuda estatal desapareça para todos. “Já que não posso ganhar, que ninguém ganhe”. Querem um mundo de empreendedores e de censura, mas sofrem por antecipação porque não suportam viver nesse mundo. Esse mundo que pedem, reconhecem, é muito duro para eles mesmos, fracotes, até mais do que para as minorias que tanto odeiam. O capitalismo que dizem amar não lhes dá chance! É moderno demais para eles. Não conseguem ser adultos nesse mundo mais competitivo e com mais variáveis em jogo. Têm uma dificuldade imensa de aceitar a complexidade da vida. São aqueles que Nietzsche apontou como os filisteus da cultura e os incapazes de viver o amor fati. Choram até diante da imagem de Freud, dado que este disse que eles tiveram desejos sexuais desde a infância.

Essa direita sabe que teve desejos sexuais desde a infância – como todos. E se apavoram pois estão indefinidos sobre o que são. É incrível como se revoltam contra tudo que é sexual, e combatem a pedofilia como cortina de fumaça para dizer que todo pedófilo é gay e vice-versa, então, perseguem gays. Afinal, a figura daquele que é livre sexualmente os faz sofrer. Resmungam na Internet e, nisso, revelam a sua extrema impotência. Choro solitário na Internet, tentativa de linchamento em campanhas de opinião pública, tudo isso é comportamento neonazista. Agem em grupo para chorar. Tudo os ofende. Claro que a quantidade de gente ofendida na nossa sociedade, gente que se dói por tudo, aumentou muito. Mas o interessante é ver que a direita aderiu a esse incômodo geral que agora virou moda sentir. Um colega outro dia me disse: “é muito viadinho na direita”. Com isso, ele não estava falando de homossexuais, mas de viadinhos. São “os jovens liberais que sofrem bullying” – outro dia um defensor dessa gente assim bradou!  Ai meu Deus!

Clint Eastwood e John Wayne cuspiriam nessa juventude de direita no Brasil. Eles viveram o tempo que gente de direita não gemia, não eram maricas.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 11/09/2017

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8 Responses “O vitimismo chegou na direita!”

  1. BRUNO
    13/09/2017 at 08:09

    É triste ver que uma grande parte dos que falam da mostra do Santander com tanto repúdio são adultos jovens. Tenho vários conhecidos assim, se divertiam desviando das Leis na juventude e hoje eles posam com o filho no colo e atacam tudo o que é ligado ao sexo. Muito deles ainda se divertem jogando jogos de extrema violência, parece que ficaram com o pensamento parado lá na adolescência.

    • 13/09/2017 at 08:19

      Bruno, posou com filho no colo no perfil do Facebook, não raro é frustrado. E é uma frustração que vem da incompetência.

  2. Eduardo
    12/09/2017 at 19:49

    PORRA!
    Que texto ótimo Paulo.
    Vou usar esses argumentos nas conversas com os perdedores de direita que tenho encontrado cotidianamente.

  3. Eduardo Rocha
    12/09/2017 at 13:17

    Esses liberais aqui do Brasil são estranhos. Vociferam tanto sobre princípio da não agressão da propriedade privada, sobre a entidade extra-terrena: o livre mercado, sobre você ser dono do seu produto de trabalho e que o Estado não deveria existir ou ser mínimo, agora querem que os homens da lei tomem providências. Oras, o Estado não era lixo? Corrupto, que prestava um serviço ridículo? Que só atrapalha o livre mercado? Muitos ultraliberais aqui do Brasil são social-democratas. Falam tanto sobre livre mercado mas correram para o campo público (Holiday e ursinhos carinhosos e cia). Kataguiri foi demitido da Folha. Falam sobre meritocracia e contra cotas. Onde essas pessoas chegaram na iniciativa privada? Em lugar nenhum. Porque lá o bicho pega. Melhor fazer alianças políticas e falar bem sobre Geddel e depois apagar. Usufruir de aposentadoria com subsídios públicos caros, planos de saúde para parentes, benesses dos estado (gasolina, auxílios, para saúde, educação de filhos). O dinheiro público não pode financiar esse evento dizem, mas para poder financiar benefícios social-democratas para políticos não vi ninguém reclamando. Mais estranho ainda é eles estarem indo para o campo da política, o lugar que tanto metem o pau? Ou seja, na prática só há social-democratas no Congresso. Imposto não era roubo? Se esse evento do Santander evento é porco, lixo, ofende, contém coisas que não são arte que o livre mercado cuide disso (apesar de ter uma pitada de incentivo estatal), se o serviço ou produto é péssimo ele se extinguirá por ele mesmo, pois, consumidores irão ao lado para onde é melhor.

  4. Bruno
    12/09/2017 at 01:49

    E Pondé, certa vez, falou que pessoas de direita sofriam bullying na Academia!

  5. Bruno
    12/09/2017 at 01:49

    E Hitler era loser!

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