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21/08/2017

O semi-psicanalizado aprendiz de psicanalista. Karnal aos cuidados de Calligaris


Um bom analista não ensina Freud para o seu paciente, mas sim técnicas psicanalíticas, e espera que este possa, com tal aparato, lidar melhor consigo mesmo, ou seja, com suas emoções. Mas, se esse paciente é alguém com o status de culto, o analista tende a conversar com ele mais que o necessário, e no meio do fornecimento da técnica, pode fazer alguma menção maior à teoria. Isso é um perigo.

Nem sempre a pessoa que o analista tem diante de si é mesmo o intelectual que parece ser. Então, esse paciente sai por aí não mais tentando usar das técnicas para si, mas psicanalisando tudo e todos. Descobre a psicanálise! Transforma-a em visão de mundo. E às vezes, dependendo do grau de megalomania, pode achar que com duas ou três frases de seu analista, ele próprio pode construir uma teoria que substitua qualquer concepção sociológica, principalmente se tiver uma que é meio que de senso comum. Vejo muito isso ocorrer com pessoas com pendores intelectuais, mas com uma carapaça enorme, que as obriga a não usar as técnicas aprendidas para elas mesmas.

Uma das coisas que vejo ocorrer é o tal aprendizado do “mecanismo de projeção”. O analista diz para seu paciente que um comportamento de defesa implica na projeção. Do que se trata? Resumindo ao máximo. Ao nos vermos diante de algo que pode nos atingir, revelando nossos segredos,  colocando-nos em situação desconfortável, fazemos logo uma projeção e jogamos nas costas do outro aquilo que iria cair em nós. Antes mesmo daquilo se voltar para nós, projetamos tal imagem ou qualidade em outro. Podemos até perseguir esse outro, por conta dessa falta que lhe imputamos. Podemos até nos tornar algozes desse outro. Isso é projeção. É uma ideia válida, mas não pode sair do sala do psicanalista maior do que entrou, não pode virar saber filosófico ou teoria sociológica e política. Pertence ao quadro, digamos, de técnicas de identificação de comportamentos, e como tal, tem sua limitação. Todavia, há psicanalistas que se esquecem que seus pacientes podem ser pseudo-intelectuais, e falam mais que deveriam na frente deles. E um pseudo intelectual, para fazer coisa errada, não custa muito.

A ideia da projeção, em termos filosóficos, não é levada muito a sério, se se desloca do campo da técnica. Afinal, ninguém pode realmente achar que cada um de nós projeta o que somos nos outros, a todo e qualquer momento, para escapar de culpas, dissabores, responsabilidades, qualidades não aceitas ou vícios etc. Essa ideia de que cada um de nós é um imenso narciso e que tudo que está ao nosso redor só é amado se nada é senão nossa imagem projetada, ou odiado pela mesma razão, se tomada como uma teoria geral dos afazeres humanos, colocaria os homens e mulheres todos não como indivíduos em conflito ou desacertados, mas simplesmente como mônadas autistas. Nossa capacidade de comunicação – harmônica e conflituosa – desmente isso a todo minuto. Nada entre nós se desenvolveu tanto quanto o que chamamos de mídia, em sentido lato, e de modo fecundo realmente conversamos, deixamo-nos influenciar, mudamos de ideia, absorvemos noções que não são nada nossas. Temos todos os defeitos do mundo, menos o narcisismo que alguns dizem que temos, muito menos um narcisismo que tenderia ao autismo. A teoria da projeção, uma vez fora do campo da técnica em favor de auto-observação, nada indicaria senão indivíduos que não seriam mais indivíduos, mas um mundo povoado por buracos negros.

Assim, quando algum psicanalista ensina seu paciente sobre projeção, e este começa a sair falando disso por aí, nós da filosofia rimos, nos divertimos. Mas chega uma hora que paramos de rir, pois a coisa pode ficar séria. O megalomaníaco que sai por aí psicanalisando o mundo pode achar que realmente entende da vida social a partir das frases sobre projeção, e ai, dependendo do cargo que ocupa na vida social, começa a deixar um bocado de jovens ao seu redor meio igual a ele, isto é, meios que desaparafusados mentalmente. Ganha uma estupenda tendência a achar que sabe tudo e realmente começa a falar de tudo. Entra em contradição e não percebe. Vira um tipo de caos ambulante.

Karnal anda usando a tal projeção para tudo. Ele descobriu isso agora, e como ele é meio vazio, nada melhor para poder usar nas suas palestras que esse saber psicanalítico mitigado. Karnal, segundo ele próprio, está sendo psicanalisado pelo Calligaris. Ora, nós sabemos o quanto o Calligaris usa e abusa da conversa sobre projeção – mas, claro, sabendo mais que todos nós que se trata de um dos “mecanismos de defesa”, apontados pelo freudismo. Seus artigos falam muito disso, suas entrevistas também. Eu mesmo já tive a oportunidade de, em programa de TV, dizer-lhe isso. Creio que ele jamais imaginou que o Karnal, seu paciente, iria se esquecer de usar do que aprende lá na clínica, somente em si mesmo, e saísse por aí, agora, dando uma de psicanalista, e isso por saber da teoria da projeção. Pois é, mas está acontecendo. E é ridículo isso. Junto de ideias esdrúxulas contra Moro, dizendo que esse seria um segundo Collor, e também falando sobre como o Impeachment pode ser visto como golpe, Karnal agora é psicanalisa. Meu Deus, Calligaris deveria fazer parar essa máquina tagarela descontrolada. Acho que ele é o único que pode salvar esse moço. Sim, eu sei que há máquinas que nem um Calligaris conseguiria desligar!

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 27/12/2016

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12 Responses “O semi-psicanalizado aprendiz de psicanalista. Karnal aos cuidados de Calligaris”

  1. Cássio Vilela Prado
    06/01/2017 at 15:23

    Prezado Paulo,
    Desde a primeira linha, o seu texto é problemático e “selvagem”.
    Por quê?
    Logo de cara, você assevera erroneamente (pelo menos dentro da “boa psicanálise”): “Um bom analista não ensina Freud para o seu paciente, mas sim técnicas psicanalíticas (…)”.
    Na verdade, melhor seria “analisando” ou “analisante” do que “paciente”.
    Sobre a primeira linha de seu texto, mencionada assim, respondo-lhe: O analista não ensina nada, muito menos “técnicas psicanalíticas ao seu ‘paciente'”. Isso é cometer um erro grave ao confundir o “discurso do mestre ou do saber”, utilizado pelos filósofos, com o “discurso do analista” ou do “sujeito suposto saber” (Importante: “suposto saber”), pois o discurso do saber dos mestres filósofos são “furados” – a sua verdade -, conforme bem nos ensinou Lacan.
    Você imaginariza o simbólico do início ao fim. Como não bastasse, ao replicar o meu comentário, você vai mais além ainda, ao “profetizar” (interpretar fora de contexto, de forma selvagem): “Você é igual ao Karnal”.
    Parafraseando Serge Leclaire, analista de Calligaris: Ao seu excesso de imaginário, cairia-lhe bem a “desimaginarização do simbólico” do seu texto (portanto do imaginário de seu pensamento”) e uma pitada de “real”.
    Abraços.

    • 06/01/2017 at 15:53

      Cássio você me fez rir bastante. Um amigo psiquiatra me dizia: não tenho pacientes, tenho impacientes. É por aí. Obrigado por ler minhas coisas.

  2. Cássio Vilela Prado
    01/01/2017 at 22:39

    Não sei se o Karnal está aprendendo esses conceitos com Calligaris (mecanismos de defesa), mas não vejo problemas em utilizá-los para ler a sociedade. Talvez se utilizados de forma excessiva se tornem estereotipados. Karnal deveria se ater mais à História e à Sociologia, e Calligaris à clínica do sujeito.

    • 02/01/2017 at 10:04

      Cássio você não vê problemas por razões óbvias. Ou seja: você é igual ao Karnal, como o texto diz.

  3. 29/12/2016 at 15:39

    Corrigindo: não é da flor narciso, mas de outra planta, a papoula.

  4. 29/12/2016 at 15:20

    Sou um estudioso da Etimologia e, com sua licença, esclareço que “narcisismo” e seus correlatos vem da mesma raiz de “narcótico”, “narcótráfico”: do grego “narkhyzos”, que significa “sono”, “torpor”. Daí a palavra “narcolepsia”, também. E por aí mesmo, podemos compreender um pouquinho melhor o mito grego de Narciso, que aliás, é o nome de uma flor da qual se extrai o ópio, se não estiver enganado. Depois pesquiso, mais detidamente. Mas, o próprio Narciso, por seu comportamento,como castigo dos deuses, foi transformado nessa flor que leva seu nome.

    • 29/12/2016 at 19:12

      Mauro, e o bom da história é que Narciso ficou “paralisado”.

  5. CBC
    28/12/2016 at 14:37

    Paulo,
    Projeção é um termo de um tipo de psicanálise e é criticado por várias linhas da própria psicanálise. Está ligado à psicanálise do ego, que Lacan tanto criticou porque para ele o ego não se sustenta sem a alteridade da fala, sem estar além de si mesmo, sem conversação. O ego seria uma imagem unificada e possibilitada a alguns (o esquizofrênico vera não a tem) como resultado de ser falado e de poder falar. Karnal então não entendeu nem mesmo a psicanálise que faz, porque Calligaris está do lado de Lacan, trabalha com lugares de fala e suas inversões, e jamais sustentaria sua clínica a partir da suposição de um ego narcisista inerente que projeta a partir de si.

    • 28/12/2016 at 14:51

      Esse é o caso, ou parte dele, ou seja, o problema de não podermos falar de coisa séria na frente de palestrante; a outra parte é que a “teoria da projeção” é aquele tipo de ideia que serve para tudo e, portanto, não serve. Aliás, nem mesmo quando está “correta” é algo interessante. Agora, sobre Lacan e as mil correntes da psicanálise, realmente não tenho interesse. Meu misticismo tem limite.

  6. Orquidéia
    27/12/2016 at 23:29

    Eu acho um grande mau gôsto a repetição de expressões psicanalíticas para toda e qualquer cena da rotina diária.
    Daqui a pouco,vão psicanalisar as manias dos gatos…”ah,ele é assim porque não teve mãe”…
    dá licença… [Kkkk…
    A maioria dos felinos cresce sem a mãe.

  7. Thiago
    27/12/2016 at 11:36

    Tua crítica a Karnal é fraca. Mas seu conhecimento técnico entre filosofia e psicanálise, no jogo de projeções, é bom. Embora, tenha construindo bem textualmente a argumentação.

    No entanto, ao reler, não posso dizer tão confiante, que sua crítica é fraca, na última parte, porque conheço nada do psicanalista e pouco sei como o Karnal usa a técnica de projeção, mas aí está um ponto relativamente falho: faltou explicar o modo de uso psicanalítico de Karnal em si.

    O texto, no entanto, fez uma construção generalizada e jogou sobre Karnal a vertente aí explícita.

    • 27/12/2016 at 17:57

      Thiago, tem dó! O Karnal é personagem secundário, é o tonto da vez. Poderia ser qualquer um. Você quase entendeu.

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