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25/09/2018

O perigo da falta do “ódio”


[artigo para o público em geral]

Liberais no Brasil não são liberais, são gente que posa de bonzinho e, se descuidarmos, nega cotas a negros mesmo sabendo que o Brasil tem racismo e mesmo sabendo que em vários lugares no Brasil o negro não se faz presente, exatamente por preconceito. Tenho um medo danado de liberais brasileiros. Pois eles pregam a paz. Se descuidarmos um pouco, pedem a paz no Oriente Médio por meio da aniquilação dos dois lados.

A paz dos liberais brasileiros é a Pax Romana: fique quieto, não se manifeste mais, aceite as regras do Império e viva sua vidinha de pagador de impostos junto com os outros do Império. Para desafiar a Pax Romana só há duas saídas: uma delas é a tal poção da aldeia gaulesa, onde vive Asterix. Ou então, a não observância da ideologia de condenação do ódio. Essa ideologia que está pegando todo mundo, principalmente pessoas que de fato odeiam todos; eles agora inventaram de dizer que no Brasil precisamos de paz. Precisamos? Qual paz?

Quando vemos qual paz, ela não é para acabar com a milícia no Rio, não é para acabar com a morte diária de líderes populares do campo. Não se pede paz para os que nunca tiveram paz. A paz que pedem os bonzinhos da TV e dos jornais é a do fim do “ódio nas redes sociais”. “Você tem sua opinião, eu tenho a minha, que tal nos respeitarmos”. É essa ideologia medíocre, que é restolho do liberalismo mais mitigado do mundo, que pega entre nós. Seu efeito é o da Pax Romana. Sua intenção é a mesma daquela pregada pelo general Castelo Branco em 1964. Civilizado é um povo que mata o outro mas que não solta pum no elevador; ou se solta, que o faça em silêncio e sem corar. “Povo civilizado é povo limpo”, dizia a Ditadura Militar. Ora, como a favela não tinha esgoto, era suja, então podia ser desconsiderada ou incendiada. A Pax Romana sempre foi a do fogo nas colônias rebeldes.

Passei minha infância e juventude num Brasil que era de paz. O presidente Médici ia para a TV e dizia, com cara de carrasco orgulhoso e de velho bonzinho (para muitos, na Copa de 70): “vejo TV todos os dias e nos outros países há guerra, racismo, terremoto, fome etc., aí olho para o Brasil e vejo um país prosperando em sempre em paz”. Que ficasse subentendido: não fale de conflito político em sala de aula, meus jovens, não há conflito no Brasil. “Não há luta de classes no Brasil”. Mais tarde, quando a economia da Ditadura Militar fez água, os mesmos propugnadores da paz passaram a dizer: “não fale em crise, trabalhe”. Vira e mexe essas ideias voltam. A da paz e a do trabalho.

Aí então, por esses dias, apareceu na Internet um aluno brigando com um professor por conta do professor dizer para o aluno que Bolsonaro é um lixo (o que é verdade), e o aluno revidando e dando uma de sabichão, imitando outros alunos, do lado contrário, que agem em bandinho contra o professor que eles dizem ser “de direita”. Eu já fui vítima de bandinhos de esquerda, e de indivíduos de direita, como professor. De fato, há os que perdem a compostura. Mas longe de mim querer que conflitos desapareçam. Longe de mim que o mundo do “Conversa com o Bial” vire regra. Já morei num mundo assim, onde todos eram liberais e todos comemoravam nossa paz. Passei maus bocados nesse mundo de paz.

O “fim do ódio social na rede” que os maricas pedem é o fim da manifestação do outro, do adversário, do inimigo, do opositor, do contestador. Se faço uma manifestação de racismo na rede social, há a lei para me coibir, punir etc. Que se denuncie e que se averigue a verdade e que se puna o infrator. Mas não é necessário uma semana inteira de discursos autoritários dizendo: vamos ficar sem ódio, vamos desarmar corações, vamos fazer uma “união nacional” etc. Aquele “não vamos nos dispersar” de Tancredo Neves gerou um Aécio, que não dispersa nada que põe na mesa.

Não há nada pior para um país que ele seja liberal como a Rússia, onde Putin sempre se elege sem contestação – onde há paz. Quando falam em liberalismo, sempre prefiro os Estados Unidos, um país rachado entre Trump e Obama, um país que não teve medo de se ver em guerra civil. Os nossos liberais gostam de falar dos Estados Unidos, mas não suportam a competição que é vigente na sociedade americana. Não à toa, quando os botamos para competir, eles recorrem ao estado. Liberal no Brasil nega bolsa cota, mas adora a chamada bolsa-empresário ou a bolsa para seu filhinho, ele, o classe média liberalzinho.

Quando as pessoas começam a citar Lênin, que falava do ódio como base do comunismo, eu já sei que elas vão falar de paz, amor, bondade e, ao mesmo tempo, vão odiar de modo muito mais visceral que Lênin odiava. Vão odiar tudo, principalmente elas mesmas.

Tenho um medo danado dos adoradores da paz na Internet. Tenho um medo terrível dos que querem que as redes sociais exalem só mensagens positivas e “críticas construtivas” e que não expressem manifestação de ódio. Às vezes tenho um ódio danado dessa gente que diz que não podemos odiar.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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4 Responses “O perigo da falta do “ódio””

  1. LMC
    20/04/2018 at 16:02

    Os liberais estão pedindo
    paz aonde,no Brasil,hein?
    Eles não chamaram o
    Caetano Veloso de pedófilo?
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  2. ISMAEL SILVA DE SOUSA
    19/04/2018 at 18:17

    Este artigo é um extermínio, filósofos como Ghiraldeli, no Brasil, é Raridade.

  3. Matheus
    19/04/2018 at 13:09

    “precisamos pacificar o país”

    Sempre rio dessas frases, em especial, quando da boca do temeroso

  4. 19/04/2018 at 11:31

    Muito bom!

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