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23/09/2017

O monstro olímpico comendo brasileiras e brasileiros


A relação do Brasil com o símbolo Brasil é uma eterna relação de amor e ódio. O monstro olímpico, ou seja, nossa exposição em competições internacionais seguidas, nos devora fácil. Põe para fora nossas entranhas. Fica fácil então entender essa relação ambígua que temos com a imagem do país e com a imagem do brasileiro.

Quando ganhamos, eis que não podemos comemorar como país, temos de comemorar uma “história de superação individual”. Nada de planejamento, nada de escola, nada de nada. Tudo esforço individual de um herói dos pobres. É uma ideologia isso. Claro. Mas ideologia não é mentira, é falsa consciência e, por isso mesmo, carrega algo de verdade. Nossas histórias olímpicas, já faz tempo, são sempre a história do garoto pobre ou de um grupo isolado que se fez por conta também de familiares ou de grupos isolados. Nossa terra é mestre no self made man! Mas, sem o orgulho do self made man americano, e sim como uma espécie de lamento, ou de grito que nunca pode ser comemorado serenamente, mas tem sempre que ser um berro de quem nunca poderia ter chegado lá, e chegou.

Mas, quando perdemos, esquecemos tudo isso que louvamos na narrativa da superação. Voltamo-nos para encontrar culpados, descartamos facilmente nossos atletas, amaldiçoamos fácil o país sem, no entanto, falarmos em responsabilidades reais. Nesse hora, não lembramos de falar o que lembramos na hora da vitória, que é o fato de estarem ali os não-campões que também são frutos do não-planejamento e da não-escola. Nessa hora, não nos lembramos de nos destituirmos do cultivo imbecil do autodidatismo. Não nos esforçamos em jogar no lixo a ideologia da “criatividade individual do brasileiro”. É incrível. Uma boa parte das pessoas na maioria dos países se desfaz de ideologias justamente na derrota. Nós não. O que louvamos na vitória, que é a ideologia da superação individual do pobre coitado, e que poderia ser denunciada na derrota exatamente como ideologia, não é tocada. Nessa hora, colamos a culpa também sobre o indivíduo.

Boa parte dos países se livram das ideologias nas derrotas. Quando os americanos começaram a enfrentar os russos na corrida espacial, não saíram na dianteira, e culparam não os indivíduos do programa espacial por isso, mas sim a falta de planejamento escolar. Fez-se uma revolução na escola básica americana, junto, é claro, de uma disposição financeira para a NASA. Quando os americanos perceberam que o mundo todo jogava futebol, o soccer, eles não apontaram dedo para os indivíduos, culpando-os por não saberem se impor nesse jogo, mas planejaram o que fazer para mudar o quadro. Foi dentro dessa perspectiva que Pelé foi para os Estados Unidos e foi assim que eles se tornaram uma potência mundial no futebol feminino. A maior parte dos países que vemos como desenvolvidos atuam assim. Acreditam no self made man na vitória, mas, na derrota, sabem que é melhor contar com o fim do autodidatismo de qualquer espécie. O Brasil não, mantém a simetria. Cada atleta olímpico é o culpado pela sua derrota e é tratado como derrotado social. Ninguém ousa, nessa hora, atacar a nossa propensão para o culto da vida sem planejamento, sem escola e sem futuro. Até mesmo a esquerda, nessa hora, esquece disso. Pois até a nossa esquerda tem mania de louvar o autodidatismo.

O monstro olímpico que é, enfim, o monstro da exposição máxima, revela essa estranha e singular tendência nossa. Não é falta de patriotismo. É sim o cultivo de uma postura que nem mesmo os países donos da doutrina liberal como um elogio de um individualismo exacerbado jamais seguiram.  Não conseguimos dar o braço a torcer para nós mesmos e afirmar: não é como indivíduos que falhamos, é como sociedade, é como nação, é nossa capacidade de organização estatal, ou seja, política, que possui falhas. É como se sentíssemos que, coletivamente, não temos como consertar o que é coletivo. Precisamos de vingadores. Precisamos de raio em céu azul.

Há dúvida sobre o que estou dizendo? Então façam as pesquisas nas redes sociais e nas ruas e verão os comentários em relação aos nossos atletas que não venceram. Usando estatísticas, verão logo como isso que afirmei fica evidente.

Paulo Ghiraldelli, 58. São Paulo, 17/08/2016

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2 Responses “O monstro olímpico comendo brasileiras e brasileiros”

  1. Luciano
    17/08/2016 at 14:56

    Paulo o que você acha das vaias da nossa torcida? Nem no momento da entrega de medalhas não há respeito. Cria-se heróis e vilões num toque de mágica. Gostaria de entender a necessidade das pessoas de ter um ídolo, um super-homem, alguém que chega e resolva tudo.

    • 17/08/2016 at 15:03

      Olha minha resposta no facebook: OS ESTÁDIO SÃO LUGARES de competição para os competidores, para o público é lugar de vencedores e derrotado. É lugar de berros e os gritos, portanto. Há esportes com menos e mais etiquetas, mas o esporte olímpico não é só grego, é também romano. Enquanto grego, era religião, como romano, foi político e cruel, e orientado em termos do pão e circo – tinha claras finalidades catárticas. O que se pode fazer é apenas educar alguns para que eles não inventem de pedir ao Comitê Olímpico que se ponha alguns cristãos na arena junto de alguns leões. Agora, pedir para não vaiar francês bicha-louca, já é demais.

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