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26/09/2018

O “menino Neymar” e o lobo – um Brasil cai-cai


[Artigo para o público em geral]

Era comum na minha infância ouvir a história de “Pedro e lobo”. Todo dia o menino enganava o pessoal da aldeia gritando alarme falso sobre a vinda do lobo. Ficou mais banal que palestra de intelectual que aderiu às falações de auto-ajuda. Perdeu credibilidade. Um belo dia, o lobo realmente veio e ninguém se mobilizou por Pedro. Professoras e mães usavam dessa fábula para ensinar o básico: ser falso ou criar alarmes falsos é uma arma voltada contra si mesmo.

Sou dos anos cinquenta. Fui criado em um mundo em que o pampeiro falso era sinal não só de falta de caráter, mas de perda de masculinidade – e isso sem qualquer conotação sexual. Aliás, o mundo todo temia avisos falsos. Falava-se muito do “telefone vermelho”, uma linha direta entre os presidentes americano e soviético, para que se evitasse uma guerra nuclar provocada por uma alarme falso.

Atualmente, fazer fake news virou divertimento. E não há mais como resolver essa situação. Punição é bobagem. Talvez reste apelar para a educação, para a capacidade de crítica. Mas o jogador de futebol Neymar não entendeu nada disso. Ele não percebeu que quando levamos uma pancada, nos recolhemos, ficamos com dor e, ao invés de pularmos como frango destroncado, queremos ficar no lugar, quietinhos. Neymar inventou de fingir a respeito de dores em pancadas. Não fez o workshop da namorada, que ensina cair – está no Youtube. Com isso, virou um tipo de Pedro cujo aviso sobre o lobo não significa mais nada. Mas serviu de pedagogia. Crianças do mundo inteiro o imitam, mas no sentido correto: estão aprendendo que o comportamento dele não serve.

O problema é que o modo Neymar de ser não está só no futebol que ele gosta de jogar – que se confunde com o teatro infantil. O terrível é que o país do qual emergiu o Neymar cai-cai-rola-rola-rola resolveu endossar esse comportamento em todos os setores. A quantidade de gente gritando e rolando e, por conta disso, perdendo a credibilidade, está crescendo. Está difícil saber entre minorias e maiorias, entre os institucionalizados oprimidos e opressores, quem está realmente levando a pior. E por conta disso, a selva de leis se amplia no sentido de dar conta do que seria mais apropriado deixar para o costume. A acusação de “vitimismo” é fruto disso.

As minorias são vítimas. Boa parte de nossas minorias são minorias negativamente – por sofrimento. Mas a ideia de berreiro se generalizou de todo lado, o dono do agro-negócio e o banqueiro reclamam que sofrem tanto quanto a operária posta na parede por um patrão calhorda. E aí  uma outra operária grita mais alto sobre assédio. E por fim, já ninguém mais sabe quem fala a verdade. O resultado é, então, a maldita Pátria dos Advogados. Todo mundo processa todo mundo – “ofendidos do mundo, uni-vos!”. O país inteiro rola no chão pulando, com o “menino Neymar” – na expressão de Galvão Bueno.

Dado que o Brasil é um país onde todo mundo fez alguma faculdade de Direito, só poderia dar nisso mesmo. É necessário serviço para tanto diploma! Um dia perderíamos o ethos, os usos e costumes, ou seja, desapareceria a ética, e todos nós seríamos regrados só formalmente, pela lei. E a lei no Brasil é paga, e cara. O resultado: só o sofrimento rico, ou o pseudo-sofrimento do rico, acaba valendo. O ridículo chegou a tal tamanho que há um texto pouco culto do Ives Gandra Martins rodando por aí, onde ele diz que sofre por conta de ser branco, homem, classe média etc. Ives rola no chão e grita, como o Neymar.

Esse é o “legado da Copa”. A Copa da Perda da Alma de um povo. O cai-cai-grita-grita nada mais é que o ponto televisivo que pouco tem a ver com o futebol, pois, efetivamente, apenas mostra a situação de um país que vive o tédio do lobo que mastiga tranquilamente os últimos ossinhos do Pedro.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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12 Responses “O “menino Neymar” e o lobo – um Brasil cai-cai”

  1. Régis AC
    19/07/2018 at 00:53

    Não tenho palavras para exprimir como seus textos me ajudam a melhor minha formação deficiente (mea culpa). Me enriquecem e ajudam a enriquecer minha aulas junto ao ensino público.

    • 19/07/2018 at 08:42

      Régis não tenho palavras para dizer o quanto fico feliz quando um professor me lê e tenta melhorar.

  2. LMC
    13/07/2018 at 13:23

    Ih,esqueci de falar daquele tonto
    do Tiago Leifert,aquele que acha
    que esportista não pode ter opinião.
    Tem que jogar,calar a boca e
    abaixar a cabeça pro sinhozinho.Besta!

  3. LMC
    10/07/2018 at 11:21

    Neymar é da terra do Valdemar-
    aquele dono do PR-de Mogi das
    Cruzes.Vade retro!!!!!

  4. Guilherme Hajduk
    09/07/2018 at 23:24

    Uma pessoa não pode ser forte e fraca ao mesmo tempo, Paulo? Dependendo da perspectiva que se olha? Alguém não pode ser financeiramente ou politicamente forte, pelo grande poder de influência que tem na sociedade, e ainda assim ser fraco espiritualmente, demonstrando essa fraqueza por meio de suas ações (ações condenáveis, como por exemplo, ser da alta sociedade e utilizar moeda falsa, se envolver em escândalos de corrupção, se envolver na falsificação de dinheiro, partilhar da má consciência da bolsa e da especulação, etc.)?

    • 09/07/2018 at 23:26

      E daí? Meu Deus, que banalidade é essa? É uma karnalização? Do que serve dizer isso no contexto do meu texto?

  5. Guilherme Hajduk
    09/07/2018 at 21:48

    Sim, verdade, como você bem disse, o vitimismo vem dos dos ricos e fortes também, mas eu os considero fracos. Só financeiramente que podem ser “fortes”, pois acabam tendo mais poder na sociedade. Mas quando um desses age igual àquelas pessoas que são muito reativas e que esperam astutamente pelo primeiro motivo, como se estivessem esperando continuamente por uma oportunidade, para fazer maliciosamente um auê à seu favor e tirar vantagem disso, são fracos, fracos em espírito.

    • 09/07/2018 at 21:56

      Se você fica invertendo as coisas a todo momento, isso não ajuda. Nessas horas, é bom manter a terminologia comum, sem as inversões do tipo da de Nietzsche. Ricos são fortes e ponto final. Claro que se pode dizer que um “pobre cristãozinho” faz causar pena e, então, dominar o outro. Esse tipo de Nietzsche de boteco não ajuda. Não mais! Ficou banal. Aliás a própria palavra “ressentimento” está sendo atualmente banalizada pelos palestrantes que agora vendem o pessimismo como auto-ajuda.

  6. Guilherme Hajduk
    09/07/2018 at 19:17

    Muito legal seu texto! (olha o termo da advocacia aí já). Esse país lamentável é completamente dominado pela fraqueza! A vitimização impera! É a regra moral. Até povos selvagens são mais dignos do que essa palhaçada aqui, na medida em que esse comportamento de menininho bobinho não tem vez; o pajé logo manda um olhar de desprezo e o indivíduo muda na hora, ou no mínimo sofre represálias.

    • 09/07/2018 at 19:33

      Guilherme o problema é que o vitimismo, aqui, vem dos ricos e fortes.

  7. Matheus
    09/07/2018 at 14:53

    A teoria da força-peso gravitacional nunca esteve tão certa, até o Neymar, o jogador mais leve e ágil da seleção precisa de seu peso ontológico “é difícil ser o Neymar, viu”

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