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17/12/2018

O império do fofo


[Artigo indicado para o público em geral]

Um filósofo notou certa vez que quando uma mulher diz “aquele homem é interessante”, ela vai acabar fazendo sexo com o citado. Em acréscimo a isso, observo também que quando uma mulher diz “ele é um fofo”, esse indivíduo citado pode esquecer a mulher, sexo com tal senhora, jamais! Verdade?

Até pouco tempo atrás, sim. Mas não mais. O império do fofo é de tal ordem e força em nossa sociedade que até aquelas mulheres que só davam para prisioneiros estupradores e serial killers (e nunca foram poucas) já começam a pensar em coisas “fofas”. São capazes, inclusive, de esperar o serial killer fazer uma carinha meiga para dizerem “oin!”.

O “império do fofo” tem a ver com dois fenômenos modernos: o advento da sociedade da leveza e do lúdico; o fim da vigência da ética (kantiana) do dever e até mesmo o arrefecimento da ética utilitarista do benefícios da maioria. Tudo que é sólido não se desmancha no ar uma vez que nem consegue vir ao ar, é esfarelado antes. Tudo que impede o rompimento com a lei da gravidade não tem mais razão de ser. A leveza de nossa época, que proíbe a dor, a culpa, o luto e a responsabilidade, e que faz da medicina e da TV instrumentos para exterminar de vez com qualquer lágrima saída da alma e não exclusivamente dos olhos, não é o advento da sociedade dos insensíveis. Ao contrário, e a sociedade da hiper-sensibilidade. A sensibilidade máxima de indivíduos, a sensibilidade da emocionalidade, a prática da eleição da fofura. Seja fofo e será escolhido. Não à toa as mulheres querem ter sempre um amigo gay. Ele é fofo. Algumas, inclusive, acabam até fazendo sexo com esse amigo gay. Até o membro ereto, que deveria ser viril e fazer a mulher sofrer de gozo, agora tem de ser antes de tudo depilado, bonitinho, fofo. Não digo que o pau tem que ser pequeno, disse fofo.

Uma sociedade assim é uma sociedade essencialmente anti-fascista. O fascismo fazia o elogio da ocupação, do trabalho, do sacrifício e do peso. “O trabalho liberta” foi a marca cínica do fascismo. O ócio sempre foi alguma coisa desejada por Marx, mas jamais por Lênin e menos ainda pelos seus imitadores na direita, que odiavam o comunismo exatamente à medida que este punha no horizonte a ideia de fim do trabalho e fim do estado. Nossa sociedade atual, regrada por uma classe média que se homogeniza rapidamente, globalmente, é uma sociedade de uma juventude que já se acostumou com o tempo livre. Fim do sacrifício de dispender horas com necessidades. As necessidades antigas se vão, e o que era tido como frívolo se transforma nas novas necessidades. Sloterdijk e Lipovetsky teorizaram sobre isso. De certo modo, também Agamben. Se os lemos, entendemos o sucesso do Golden Retriever e o nascimento de Lucas, a aranha fofa que nos ajudará eliminar nossa (minha) aracnofobia, e também o nascimento da paciência que temos com o The Voice Kids! (haja saco!)

Suportamos crianças, se são fofas. Queremos cachorros, pois eles de fato são fofos. Seremos capazes de amar baratas, se um dia um cartunista inventar de não as desenharem mais segundo a ótica dos produtores de inseticidas. A estética do fofo se casa com a ética do emocionalismo vigente, e ambos se regram pelo mundo do espetáculo, aquele mundo feito para ver tudo por meio de vitrine, passivamente, como teorizou Debord ao falar da nossa fase de mercadorização da vida. Seja fofo e se salvará. O reino do Céus fica no Céus, ou seja, só permitido a quem não tem peso, quem rompe de vez com a gravidade. Nisso, a religião acertou.

Pessoas pessimistas, rançosas, rancorosas e debochadas não terão espaço mais no mundo. Gordas? Nem pensar. Ganharão a condição de feias. E feio é para ser morto. Por isso matamos insetos vários, mas perdoamos joaninhas. Colunistas de jornais divulgadores de frases moralistóides e de puxa saquismo político sempre existirão, mas terão espaço diminuído no futuro. Eles são metidos a realistas. E o realismo é uma doutrina dos pobres, principalmente os pobres de espírito. Até mesmo a literatura de auto-ajuda irá se esmorecer. Ela será substituída por livros de fotos de cães, bichinhos, doces e aviões. Pássaros serão louvados. Tudo que é da ordem do dever, que exija qualquer coisa chamada sacrifício, não terá vez. O mundo tem tudo para ser um paraíso social-democrata, contanto que a classe operária não tenha que operariar muito, e que possamos diminuir o imposto sindical ou outros encargos. Há de se descobrir a fórmula da manutenção da vida leve, para ricos e para pobres. Eu não disse vida rica, vida com tudo para todos, mas sim, leve. O fofo é indício e fomento do leve.

Nesse mundo, a própria lésbica perdeu traços machos, pesados, e se tornou linda e feminina. Ser lésbica, hoje, é ser feminina. Além disso, os dedos são mais delicados que os dedos sem unha do homem viril. O pênis ainda guarda o indício da lança, da guerra, do mundo pesado. Os dedos ganham esmaltes, pertencem ao campo estético do fofo. São da ordem do espetáculo gerenciado pela mercadorização. Dedos com desenhos de ursinhos pandas. Isso é a satisfação do novo sexo. Os anjos farão sexo. E com dedos. Tudo que é fofo não se desmanchará no ar.

Dizem que o coito anal não é fofo, e não sobreviverá. Mentira, estamos na era do KY, mais um instrumento da leveza. E o ânus agora ganha tatuagens. Há quem olhe e diga para ele, que “fofo”.

Paulo Ghiraldelli Jr. 60, filósofo. Autor entre outros de Dez lições sobre Sloterdijk (Vozes, 2018)

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10 Responses “O império do fofo”

  1. 03/04/2018 at 22:42

    – ok, acho que não sentir-me-ei mais ofendido ao ser chamado de fofo
    – saiu em Portugal há um tempo o romance do Oblomov. Eu estava lendo sobre como Lênin detestava a figura dele e o “oblomovismo” – posso falar mais disso no futuro – inclusive dizem que em 50 páginas o Oblomov não sai da cama
    – estou ouvindo um disco que tem uma mariposa na capa, espero que as mariposas sobrevivam nessa sociedade
    tenho umas histórias engraçadas pra comentar sobre essa coisa de fofura, mas são pro privado kkkkkkkkkkk
    Santo André, 13/4

    • 04/04/2018 at 01:19

      Lênin queria uma sociedade eletrificada, literal e metaforicamente. Stalin queria uma sociedade eletrocutada. Mas não podemos culpá-los. Sloterdijk escreveu que o comunismo é uma fase do consumismo.

  2. Francisco
    02/04/2018 at 16:04

    Acho que o comentarista Peterson tocou num ponto interessante… esse império do fofo tem algo de Admirável Mundo Novo. Não é uma figuração perfeita, mas guarda uma certa semelhança com o seriado Black Mirror, que expõe algumas tendências fascistóides que se assemelham à fofura.

    • 02/04/2018 at 16:06

      A fofura é o anti-fascismo. É o capitalismo liberal em seu máximo.

  3. Hela Amorim
    02/04/2018 at 15:59

    Achei o texto fofo demais pro meu gosto!!! Kkkk Mas divertido! Ri muito no final. O hilário também pode ser fofo. ?

  4. Tony Bocão
    02/04/2018 at 14:08

    E lá vau eu, depois desse texto, para mais uma crise epistemológica…

  5. 02/04/2018 at 12:42

    “E feio é para ser morto.”

    Desde quando isso é não-fascista? Pra mim, ignoraste o apelo fascista inerente ao higienismo de qualquer padrão exigente demais frente à ambivalência e multiplicidade do humano, incluindo o padrão do que é “fofo”. O fascismo é moderno porque a violência é terceirizada, especializada, burocratizada, técnica; se você não puder representar a fofura das vítimas, ou pelo contrário, representá-las como execráveis, legitima sua destruição: como caralhos isso não é fascista?

    • 02/04/2018 at 13:06

      Peterson, volte para o ensino fundamental. Aprenda a ler. Daqui dez anos, pode retomar a leitura aqui.

  6. Cleide
    02/04/2018 at 12:06

    Agora vou analisar o que é fofo pra mim,não tinha pensado em nada disso.

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