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11/11/2019

O amor está já fora da caixa. Uma observação sobre Christian Dunker.


Artigo escrito preferencialmente para o público acadêmico

Antes da psicanálise, não existia o doutor em desejo. As coisas ficavam por conta de gente da filosofia – Sade à frente e Platão atrás. A modernidade desenvolveu a psicologia e, depois, como não poderia deixar de ser, a psicanálise. Afinal, num mundo em que a egoidade se tornou rainha, era preciso ampliá-la, dar-lhe corpo. Assim, além do consciente inventaram o inconsciente! A vida mental em camadas!

Assim, hoje, temos doutores de desejo e, enfim, de amor. Gente que às vezes pensa poder ter o monopólio narrativo do amor, deixando os literatos como meros exemplos a serem manipulados para se dar palestra. O defeito do pensamento psicanalítico em relação ao amor, ao menos quando o psicanalista é “standard”, é o de desmerecer o conhecimento histórico. Tudo faz como se o homem fosse alguém eterno, e não um produto histórico, jamais um auto-produto histórico.

O psicanalista Dunker acerta em muitas coisas, mas no que concordamos, não tenho que gastar dígitos! Vale falar, sempre, ao menos em textos curtos, do que discordamos. Ele fornece bem o material para a minha crítica. Veja o que ele fala do amor: “O amor será uma substância cada vez mais rara e por isso mesmo cada vez mais preciosa, justamente porque sua ocorrência se torna mais improvável. Estamos intoxicados com formas pré-fabricadas de amar e ser amado, formas institucionalizadas e garantistas de nos prevenir contra as decepções e dores, que são horríveis mesmo.” (Entrevista Huffpost). Uma pitada de conhecimento histórico, e toda essa formulação explode e vai pelos ares.

O amor foi sempre institucionalizado. Nas sociedades antigas e medievais, institucionalizado e regrado por forças de costumes, por éticas, pelas famílias, governantes e estado. A associação entre amor e casamento, a história desse vínculo, mostra exatamente isso. Mas, um dia, isso caiu por terra. Foi a modernidade que inventou o casamento por amor, e fez o último vencer o segundo e, enfim, fez o último até extinguir totalmente a primeiro. O amor virou o amor livre. O amor virou rei. Nos anos 60 e, especialmente no fatal ano de 68, o amor sans phrase  (Peter Sloterdijk nota isso com sabedoria no livro Intoxicação voluntária) veio a calhar para um mundo que, depois disso, nunca mais foi o mesmo. Mutatis mutandis, a regra paulina, “o amor é a única lei” (sempre lembrada por Richard Rorty), ganhou status de instrumento de legitimidade de toda ação capaz de pedir uma tal legitimidade. Tudo é permitido se há amor. Ao amor tudo é dado: do sexo adolescente no quarto de casa, junto à família (dou a mão à palmatória, um psicanalista já disse isso: Calligaris), até se chegar ao perdão da infidelidade conjugal bárbara, passando por inúmeras outras atividades que seriam injustificáveis sem a desculpa do amor.

“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, diz o poeta. Todos os contemporâneos leem isso com a ideia de que alma não pequena é a que ama ou sabe amar. O pior xingamento para uma mulher: desamada, mal-amada.

O amor ganhou o status que tem hoje exatamente porque a modernidade, fazendo imperar a sociedade de mercado e o individualismo, leiloando entre nós a tarja “sou liberal”, nos fez capaz de dizer: “eu quero fulano e não quero sicrano”. A ideia da escolha por amor é a ideia básica. A ideia de que a escolha do amor é a escolha do como amar, e que amar é possível, é nossa peça última na nossa Caixa de Pandora atual. Ora, isso me parece tudo aquilo que preciso para discordar de Dunker, não?  Trata-se da total desinstitucionalização do amor – isso é o que vivemos! E as práticas  do amor, que parecem se reduzir a dois ou três modos de ser, só enganam. Elas são variadíssimas. Por isso mesmo as história de amor – o romance à frente – se tornaram o carro chefe da literatura moderna. Exatamente pela diversidade do amor, de sua capacidade de inovar por conta de sua desinstitucionalização, é que o romance fez a epopeia retroceder no gosto popular. Ninguém melhor que os homens e mulheres de Hollywood souberam entender isso.

A história do amor é a história da perda de formatos.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo. Autor, entre outros, de Como a filosofia pode explicar o amor (Editora Universo)

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23 Responses “O amor está já fora da caixa. Uma observação sobre Christian Dunker.”

  1. LMC
    07/01/2019 at 10:56

    Quem é pior que a múmia é o Pondé e o
    ministro cucaratcha da Educación,PG.

  2. Ivo Câmargo
    04/01/2019 at 15:28

    O senhor,com todo seu currículo,copiar a mesma frase de um esgoto a céu aberto (Juca Kfouri, meninas rosas, meninos azul e motorista laranja), Kfouri além de corinthiano, é petista também, bom fim de semana.

    • 04/01/2019 at 20:56

      Ivo você voltou para que eu possa chamá-lo de burro de novo? Como você gosta de ser pisado!É uma olavete autêntica.

  3. LMC
    04/01/2019 at 11:38

    O Eduardo acha que Safatle é a múmia de
    Lenin.Tá na modinha ser taxista malufista,né?
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  4. Ivo Câmargo
    03/01/2019 at 15:55

    O senhor não é a favor da democracia?, depois o Bolsonaro que é autoritário, não sou incapaz,nem burro, tenho berço e educação, principalmente com os + velhos.

    • 03/01/2019 at 16:25

      Ué, o blog é meu, eu não posso chamá-lo de burro sendo você burro? Eu poderia bloqueá-lo. Não fiz, deixei você vir aqui expor sua burrice.

  5. Juliano Maltos
    03/01/2019 at 12:27

    Caro professor, peço que o senhor retifique um erro que optou em discorrer por incompreensão e impaciência. “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, do mestre Olavo de Carvalho, é uma bíblia para todos aqueles que lutam contra a “deficiência cognitiva programada”, portanto, ele busca o mesmo objetivo que o vosso trabalho. Não se prive disso, desse prazer da sabedoria, apenas por uma rivalidade de ego. Não faça como Pondé – a quem o senhor sabiamente critica – que comenta um livro sem ler. O capítulo de Olavo sobre o aborto é de uma genialidade, uma maestria, tendo toda a humildade de apostar na incerteza em vez de outorgar para si uma verdade, criando pensamentos conflitantes no leitor. Mas leia devagar, saboreando, porque se trata de leitura difícil, de trincar o cérebro. Sem reler inúmeras vezes, é impossível, mesmo para um filósofo letrado, compreender a profundidade de visão de Olavo. Sei que irá mudar seu conceito, pois é um homem de razão. Se reconhece o valor de um pensador de direita, como Nozick, certamente irá reconhecer o pensamento do genial Olavo de Carvalho como indo além. Tenha um ótimo ano, professor Ghiraldelli, eu respeito teu trabalho.

    • 03/01/2019 at 12:43

      Juliano, Olavo é a direita emburrecida. Ele é um tonto que não conseguiu terminar o ensino fundamental. Acorda meu caro. Sua viagem vai te levar a subir pé de goiabeira.

  6. Ivo Câmargo
    03/01/2019 at 05:28

    Na minha modesta opinião, não existe nenhuma perseguição política, afinal o PT aparelhou o estado, além de diminuir seu tamanho com as demissões, professor deve apenas ensinar as matérias.

    • 03/01/2019 at 09:29

      Ivo você é sempre assim, incapaz? Ivo, faz um favor, não venha mais aqui não. Eu não tenho mais paciência para gente burra.

  7. Luís Martins Pote
    02/01/2019 at 17:42

    Estive a ouvir o Calligaris sobre o amor no seu Hora da Coruja e não acho que defenda algo incompatível com o que diz o Dunker. Parece-me é que falam de coisas diferentes.

    Assinalo só que, muito provavelmente, as formas “pré fabricadas” e instituídas de amar” de que fala o Dunker, não são as dos códigos de conduta, de regulação das relações sexuais que existem desde que o homem é homem – e que o Dunker não pode desconhecer. Repare que ele diz que estas formas são adoptadas para o sujeito prevenir-se de frustrações e dores – e não para libertar o desejo na cultura, que possibilita as relações entre os individuos da espécie, como ao longo da história. Estas relações – defensivas – são por isso “tóxicas”, diz ele. A ser assim, eu concordo.

    Insisto no assunto pois acho que ele poderá estar a falar do mesmo que o Sr. fala quando se refere à perda do thymós (cito de memória) no homem moderno, que assim fica refém da tensão entre um imperativo racional e a satisfação das suas necessidades mais primárias. Este não é um terreno fértil para a organização de desejos; para o amor, no sentido psicanalítico, ou para as grandes realizações pessoais de criação de justiça e de beleza.

    Nestas condições o homem pode aspirar somente ao total alívio das tensões. Perseguir uma vida “suave”, tão desonerada que dificilmente já possa ser chamada de vida. A fazer lembrar a pulsão de morte freudiana.

    O iogurte tem zero de gordura; a cola zero de açucar e cerveja só se for zero de alcool. A preocupação dos psicanalistas é provavelmente a mesma da dos filósofos: o homem moderno quer ser zero, quer deixar de ter sabor, de ter alteridade; de ser sujeito.

    • 02/01/2019 at 20:59

      Todo mundo pode salvar o discurso que ama.
      Sobre o thymos, você não entrou no meu texto, pegou pelo alto.

  8. Luís Martins Pote
    01/01/2019 at 23:27

    Entre psicanalistas, tem sido frequente encontrar uma ideia de progressivo empobrecimento, na evolução das relações de afecto, habitualmente atribuída a uma espécie de deterioração do amor. Talvez por isso sejam comuns os “alertas pedagógicos” dos psicanalistas para a importância de uma certa preservação do amor.

    Esta atitude, conservadora, terá provavelmente a ver com a evolução da ideia de amor na própria teoria psicanalítica. Até 1920 só havia líbido. A partir daí, com a introdução da pulsão de morte pelo Freud, o amor vai progressivamente perdendo protagonismo nas relações humanas – aos olhos dos psicanalistas. Nos anos 50, a psicanálise inglesa revela os mais primários e destrutivos impulsos do homem, assinalando até a predominância do ódio nas relações estabelecidas em algumas estruturas de personalidade.

    Será difícil encontrar psicanalistas com uma visão muito romântica das relações humanas, e haverá sempre um ponto em que se revelarão pessimistas em relação ao futuro da espécie.

    Muitos sabem, no entanto, que não sabem nada de amor. De amor sabem os poetas.

    • 02/01/2019 at 00:01

      O Calligaris defende exatamente o contrário. Aliás, como eu.

  9. Ivo Câmargo
    31/12/2018 at 14:08

    Feliz 2019 p/a o senhor e família, muita paz e saúde,p/favor comente sobre seu problema,com a garota da tese 11,tem muitos canais de esquerda, criticando o senhor.

    • 31/12/2018 at 15:28

      Já respondi ao Henry e acho que é o suficiente também para a tontinha do tese 11.

  10. Douglas
    30/12/2018 at 13:04

    Professor, boa tarde, tudo bem com o senhor?

    Este comentário nada tem a ver com este texto.

    Queria deixar um link de uma espécie de “documentário” para que o senhor veja e coloque e divulgue em seu canal.

    Se puder, fale pro Clayson, PC Siqueira e etc divulgarem, acho que o povo deve “perder” 60 minutos de seu tempo vendo este vídeo.

    https://www.youtube.com/watch?v=8hv1D6EgWfc

    • 30/12/2018 at 21:18

      Douglas, isso é bobagem. Não há fake news desse tamanho que sobreviva no mundo de hoje, acho que você se esqueceu que existe imprensa profissional

  11. Matheus Bravati Rueda
    30/12/2018 at 01:52

    Existe um livro chamado “Livro do Amor”. Estou no começo da leitura, mas percebo que é ótimo. É da Regina Navarro Lins. Recomendo. Ela traça as relações amorosas desde a a Antiguidade até os dias atuais. São dois volumes.

  12. Hilquias Honório
    29/12/2018 at 21:35

    Naquele histórico documentário do Joseph Campbell sobre os mitos, ele diz justamente isso, que o amor antigamente era um amor social, de família, em que se casar por interesse não era considerado anormal. Mas a história de Tristão e Isolda inaugura na literatura a modernidade: em certo momento da história, Tristão diz que que está disposto a ser condenado a morte nas mãos dos homens e depois descer ao fogo do inferno, tudo pelo seu amor. Assim, desafia a autoridade da religião e das relações sociais. “O amor virou rei”.

    PS: estamos juntos na resistência, todo dia no YouTube.

  13. Eduardo
    28/12/2018 at 22:33

    Valeu Paulo.
    O Cristian parece ser um cara bacana para conversações. Apesar de ser bem amigo do Safatle, a múmia de Lênin, é mais inteligente. Entre vocês pode sair coisa boa, assim como saiu com o Calligaris, seu amigo.
    Seguimos na resistência contra a burrice.

    • 29/12/2018 at 00:46

      Ah, não fiz com o intuito de interlocução, apenas como exigência do meu daimon.

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