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27/04/2017

Novamente o psicologismo – um cocô perigoso!


A avalanche do psicologismo em favor de posturas autoritárias, do “cala boca”, ganhou a nossa época mais recente. É a arma mais utilizada pelos palestrantes midiáticos. Eles se livram de críticas acusando outros de disfunções psíquico-sentimentais. Mas não só, é também o que têm nas mãos para fazer as palestras, para tentar expor o que chamam de argumentação.

Funciona assim, vejam.

Um rapaz faz uma chacina em Campinas, no ano novo, e o palestrante sabichão resolve tudo dizendo que era um “infeliz no amor” e “recalcado” etc. Quem escuta, e não possui nada de sofisticado para pensar, se identifica. Fica maravilhado por ver que o que acha tem aval de um importante homem que “aparece na TV”. O pior é que o tal “homem da TV” logo acredita que ele é inteligente justamente porque tem um bocado de gente se identificando com ele. Não percebe que são justamente os tolos, e que se ele agrada, é porque de fato fala a língua deles. A bola de neve da vida energúmena põe-se a rolar. Trabalham com ideologia, ou seja, a verdade dita de modo a favorecer a mentira.

De onde veio o psicologismo? Claro, veio da entrada do “eu” no mundo moderno, o crescente individualismo liberal, e as aventuras da “subjetivação do mundo”. Há uma história longa, com várias entradas, sobre isso. Hegel, Nietzsche e Heidegger a contaram de modos diversos. Outros ainda fazem isso. Não é o caso de repetir aqui. O suproduto disso, do humanismo, foi o fim da psicologia antiga, calçada na investigação da alma, diante da psicologia moderna, científica, desesperada em tornar-se concepção de mundo, uma substituidora da filosofia no plano psíquico, aliás, como a sociologia queria ser a substituidora da filosofia no campo social e moral. Daí vieram duas reações: de um lado, um objetivismo extremo, buscado na lógica, na linguagem e nas estruturas sociais. O positivismo lógico e o marxismo se incumbiram de ocupar esse espaço. De outro lado, uma tentativa de entender de psicologia sem psicologismo, e nisso veio a hermenêutica e, em certa medida, a fenomenologia. Essas frentes ocuparam a universidade. O psicologismo, então, foi expulso para o campo dos fazedores de horóscopo sem astros, os autores de auto-ajuda e, agora, os palestrantes que confundem a plateia falando a linguagem do psicologismo mas com verniz acadêmico.

Vou dar um exemplo simples, envolvendo séculos, a respeito do psicologismo. Vejamos os deuses gregos. Todos eles eram objetivos. Expunham-se como entes, desenvolvendo paixões, habilidades, idiossincrasias. Com a entrada do homem como sendo o centro do universo, todos os deuses desapareceram em função do Deus único, mas de um modo especial. Este, então, tornou-se objetivo na medida que subjetivo, encontrável dentro do homem, como disse Agostinho. Mas encontrável como uma única força. Os outros deuses também se internalizaram, mas assim ser fizeram deixando de serem deuses e se tornando sentimentos, estados da alma e, depois, estados mentais. Quando a grande mídia entrou na jogada, pegou esse mundo já andando, mas logo viu que as melhores colunas dos jornais, as mais lidas, eram dos escritores que falavam sobre sentimentos, na banalização deles. O romantismo banalizado virou rei.

Foi fácil trazer isso para a TV e, agora, para a mídia produzida por todos nós. Dos programas das manhãs e tardes até o BBB, passando às vezes até pelo jornalismo político, tudo é um festival de amorzinho, odiozinho, raivinha, frutrastaçãozinha, ressentimentozinho, invejinha e coisas do tipo. O infeliz que ver o outro infeliz – eis a regra de ouro vomitada pelos palestrantes e midiagogos. Ela é a chave para explicarmos tudo. Vendo isso, a população de pouca escola diz: nossa, eu disse que era isso, que era inveja, e ele, meu mestre, também disse! A inveja explica tudo! Se você se sai mal num feito, foi inveja do outro. Se você critica alguém, você é o invejoso. Nada mais existe senão estados mentais banalizados. Procurando “ibope”,  a mídia acabou virando seu espelho. Deu no que deu. Estamos na fase aguda de acusação mútua dizendo que o outro cultiva “o ódio social”, “ressentimento” e coisa do tipo. Não à toa, esses os midiáticos adoram ampliar o problema do bullying!

Dona Marisa teve AVC por conta de ódio dos críticos do PT. Moro funciona por causa de ódio contra o santo Lula. Papai Noel não vem entregar brinquedo para pobre por causa de ódio? É isso? Dória pinta muro por causa de ódio contra artistas e ao mesmo tempo a reação de crítica a Dória é “ódio das esquerdas” etc. Feliz éramos nós, daquela época quando o único sentimentalismo barato era o que e causava o crime passional. Agora, o psicologismo banalizou tudo. Nos perdemos no sentimentalismo barato. Todos ficamos BBBzados, ou seja, queremos que o mundo funcione segundo explosões de sentimentos banalizados no banheiro da “casa mais espiada do Brasil”. Isso é o psicologismo. É disso que os professores palestrantes se alimentam e alimentam suas plateias. É torcer para não conseguirem sujar todo o ambiente acadêmico também com esse cocô.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 01/02/2017

 

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6 Responses “Novamente o psicologismo – um cocô perigoso!”

  1. Ana Paula
    24/02/2017 at 12:54

    Paulo vc é muito gostoso, ja tive cada sonho com vc….

    • 24/02/2017 at 12:56

      Eu também acho, tive sonhos comigo que você nem imagina!

  2. Luis
    02/02/2017 at 01:22

    Psicologismos e simplificações.
    Mas aposto que vc escreveu isso só porque tem inveja dos intelectuais que estão colhendo os louros na mídia!
    E eu escrevi isso porque sou frustrado em minha própria ignorância, simplifico. Afinal não é na flor do sentimento onde está a apoteose da vida?

    • 02/02/2017 at 01:52

      Ha ha ha ensinaram bem você heim Luís, parabéns pelo autoritarismo que fomenta. Leia o meu texto anterior a este, foi feito especialmente para gente como você! Adorei sua participação. Não esperava um testemunho tão rápido sobre o que falo. Olha só! Encontre-se: http://ghiraldelli.pro.br/midia/psicologismo.html

    • Luis
      02/02/2017 at 02:19

      Minha vida é um fracasso?

    • 02/02/2017 at 08:54

      Luís eu não sou psicólogo de madame, isso é com você.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo