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23/10/2017

Nicolás Maduro e a contra-revolução dos coelhos


Peter Sloterdijk chama de “Internacional Miserabilista” um grande movimento intelectual e moral não orquestrado que vê a Terra e o homem como limitados, como vítimas de uma eterna ameaça de escassez como uma condição natural.

Na maior parte das ficções dos adeptos da Internacional Miserabilista, dado que o mundo e o homem são elementos da miséria e voltados não para o viver e sim para o sobreviver, toda e qualquer catástrofe leva a mais catástrofe. Se a crise atinge um lugar, todos comem seus animais e, depois, seus inimigos, os parentes e a si mesmos. A Internacional Miserabilista tem poder. Domina certa antropologia e faz sucesso no cinema. Os seus adeptos adoram dizer que são realistas. Mas o realismo, no meu entender, nada é senão uma versão literária ou filosófica do banditismo. O realista pouco vê do real. Denigre a natureza humana se pondo como um pessimista, dado que o pessimismo é uma forma de alguns se mostrarem inteligentes.

A Internacional Miserabilista tem adeptos na direita e na esquerda. O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, é um seu adepto. Por isso mesmo, distribuiu coelhos para serem comidos pela população da Venezuela, já que o país está em crise geral de abastecimento. Há fome na Venezuela, até para quem tem dinheiro. Os coelhos, inclusive pelo fato de se reproduzirem rápido, deveriam então funcionar como a saída para a tal “baixa de consumo de proteína” do povo venezuelano no momento.

Maduro ficou estarrecido com a sua genialidade. Com coelhos derrotaria “o imperialismo ianque que está sufocando Cuba, a Venezuela e a Coreia do Norte” – expressão esta que é uma adaptação que o ex-motorista de ônibus tem de alguma coisa que ele ouviu de Chávez, e que este ouviu de Fidel. Tudo isso no tempo que ouvir Fidel era ainda alguma prática, quando nem coelhos habitavam a Terra, mas sim dinossauros. Todavia, o problema é que o mundo não funciona como a Internacional Miserabilista quer e muitos menos como o realismo nos descreve. E eis que a população da Venezuela resolveu não comer os coelhos, mas adotá-los. Virou febre na Venezuela a proteção aos coelhos. As pessoas estão dormindo com os coelhos.

Não estou dizendo que não haverá aqui e ali alguém que não mate um bichinho desses para comer. Pessoas que optam pela morte existem em todo lugar. Mas o interessante é que a política de abastecimento de Maduro, na base do coelho e da ideia de que a morte dos animais resolve a vida dos humanos, não vingou. A política da salvação pela proteína, vingou menos ainda. Os venezuelanos trouxeram para junto de casa os coelhos, e agora fazem seus cães e gatos se acostumarem com os bichinhos, ou simplesmente os protegem mesmo, andando com eles no colo pelas cidades.

Os coelhos se tornaram não-bolivarianos e talvez sejam recolhidos como “contra-revolucionários”. Se a população deixar, é claro. O gênio incompreendido, Maduro, fabricou mais um problema para ele mesmo.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 15/09/2017

Na foto acima a venezuelana Maria Galindo com sua coelha Lola, recebida do governo e agora bem protegida em casa.

Notícia sobre o assunto no G1: clique aqui!

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2 Responses “Nicolás Maduro e a contra-revolução dos coelhos”

  1. Hilquias Honório
    16/09/2017 at 01:44

    Para desespero de Karnal, comeremos cenouras e amaremos coelhos. Fantástico!

  2. Rafael Costa
    15/09/2017 at 23:58

    Professor, você não acredita que esta atitude com os coelhos pode servir como ponte para a população olhar com mais amor para outros animais?

    No momento que o governo iguala um coelho que o povo está começando a amar com o peso das carnes vendidas no açougue, você não acredita que é um espaço para haver uma associação entre o kilo de carne e o coelho, e o coelho com outros animais que também são tratados como kilo de carne?

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