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27/06/2017

Natal em família, mas sem o Calligaris por perto!


Para meu amigo Contardo

Psicanalista sério tem a obrigação de dizer que o mundo é torto, e que é mais torto ainda porque é uma projeção de nós mesmos, todos tortos. Calligaris é um psicanalista sério, ou até mais que isso, é genial. Os imitadores baratos que ele tem no jornal que escreve deveriam parar de escrever. O pessimismo não é para qualquer um. Cada veículo de comunicação só tem direito a um pessimista, o outro vira chacota. O pessimismo de Calligaris em relação à família (Folha, artigo de 23/12/2016), principalmente em época de Natal, quando há reuniões desse bando, faz parte de sua parresia, e um osso duro de engolir.

Creio que Calligaris fala da família incorporando personagens que ele quer atingir: fala como um adolescente falaria. Ou como quem está num meio a um divórcio, mas tem de participar da festa familiar ainda com a ex-esposa. Ou ainda como quem acredita que é possível que “o príncipe e a princesa” da propaganda do Boticário possam mesmo ser “os melhores amigos do mundo” – ou seja, quem ainda não ouviu falar de pensão alimentícia e de cobranças das esposas de todos os lados (ou esposos). Ou então quem acabou de falir, e precisa aparecer na festa de Natal com cara de vencedor, mesmo sendo “o fracassado do ano”. Há pessoas que, em determinada época de sua vida, não estão bem, e então a família se torna um lugar desconfortável, pois é inevitável que existam perguntas dos outros para saber “em que pé estão as coisas”. É duro. Mas, não é a desgraça do mundo. Cada fase passa. Tudo isso já deve ter ocorrido na minha família, presumo, e, no entanto, bendita sejam todas as reuniões de Natal. Inesquecíveis como momentos maravilhosos. Elas compõem um grande álbum de felicidade, do preto e branco passando pela polaroide instantânea para chegar à foto digital já no Facebook.

De São Paulo para Ibitinga e para Pederneiras, de Pederneiras para Bauru, de Bauru para Campinas. Onde o núcleo familiar menos deslocável se fixou, as reuniões foram acolhidas. Em Ibitinga havia grandes festas na casa dos meu avós maternos – judeus portugueses e sírio libaneses. Em Pederneiras as reuniões na casa dos meus avós paternos, na tradição italiana. Depois, durante anos, na casa do Sinésio, meu tio mais jovem (gêmeo do Newton), finalmente em Campinas, na casa da Tia Lila e, agora, na casa da Malu, minha prima mais velha, com a tia Lila presente. Agora, já não fazemos a festa propriamente no Natal ou no Final de Ano. Fazemos uma festa particular em dezembro, nossa, dos herdeiros de todas as festas anteriores. Assim, não tolhemos a liberdade dos mais novos, que podem passar com suas família recém constituídas o Natal e o Ano Novo. Ou seja, fazemos um Natal não obrigatório! Vivi essas festas como criança alegre, depois, como jovem, olhando a beleza das primas, mais tarde levando a cada década uma esposa diferente, e com os filhos todos. Finalmente agora, já há alguns anos fazemos o encontro em Campinas/Paulínia (treze anos, já?!), com a Fran e todo o pessoal. O legal disso é que todos nós passamos o ano ansiosos por essa festa.

A Rosa Irene não vai esse ano? Não, ela mora longe, em Brasília. Ah, a tia Alice vai estar só em espírito conosco, ela faleceu. Ah, e a Paula? Fugiu para Portugal, não vem. E a Patrícia? Bom, ela liga lá dos Estados Unidos. E por aí vai. Alguns faltam, mas a gente sempre espera que, no outro ano, possam vir. Aí há alguém que informa: e o Edgarzinho, não virá dos Estados Unidos? Que nada, tá na fossa, a namorada largou dele. Por fim: tia Lila, aos 96 anos, vira seu copo de pinga com mel, e minha mãe, aos 89, toma cerveja de todo tipo. E minha tia Zenaide mantém sua pose sexy ao acender um cigarro, escondendo a idade. O Luis Carlos mostra fotos de seu bunda toda ralada, pois caiu do triciclo. A Zana sempre sorridente tá ali. A bete esbanja beleza. A Malu mostra a sabedoria que puxou da mãe. Aí um priminho que era criança aprece saradão e uma prima bebê aparece como moça, com direitos de moça, inclusive direitos do século XXI. Se eu disser que há mais alegria que isso, estarei mentindo. É gente que dá risada de ter votado no Lula lá por volta dos anos oitenta! Gente que dá risada de ter feito cagada. O Luís Antônio completa: eu até punha dinheiro do bolso para o PT, lá em Santo André! Quer melhor que isso, dar risada de ser enganado?! Meu primo Ricardo fala, então, das aventuras dele pelos Alpes Andinos e programa excursões para o Polo Norte, para se deixar fotografar abraçado por ursas.

O segredo dessa família poder se reunir e não repetir a desgraça que Calligaris diz que é a família na reunião de Natal, é que traímos o conceito de família do psicanalista. Nós, humanos, não escolhemos os parentes? Mentira, escolhemos sim! Eles nos são dados por Deus ou, para os que não gostam desse nome, o Destino. Mas tudo é assim, o que não é, afinal, dado por Deus? Cabe a nós re-escolher o que Deus dá. Esse é o segredo da vida, saber reconstruir relações naturais transformando-as em sociais, fazer do elo sanguíneo elo cultural, fazer dos primos os amigos. Nossa família, hoje centrada nos Ghiraldelli, soube fazer isso. É sexy estar junto.

Os personagens atingidos pelo Calligaris vão no bar com os amigos nas festas de final de ano. Eu não, eu tenho família.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. Paulo Ghiraldelli, 23/12/2016

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9 Responses “Natal em família, mas sem o Calligaris por perto!”

  1. 26/12/2016 at 18:01

    Concordo com o falecido psiquiatra e psicanalista Angelo Gaiarsa, segundo o qual não há uma istituição tão autoritária e reacionária quanto a Família. Para ele, nem as boas prestam. Ele dizia que nós, humanos, deveríamos imitar a boa e velha biologia: depois de uma certa idade, por volta dos 20 ou 25 anos, os pais empurrarem toda a prole do “ninho” doméstico, como fazemmuitos animais com seus filhotes, como no caso, por exemplo,águias, que logo expulsam suas crias do ninho, assim que elas aprendem a voar e caçar.

    • 26/12/2016 at 19:07

      Gaiarsa era meu amigo. O Reich dele era o meu, mas eu evoluiu e ele faleceu. Os tempos são outros. Faz tempo que a teoria da família mudou, e nós todos também. Gaiarsa hoje concordaria comigo, ainda mais ele, sempre querendo constituir família.

  2. AA sem outra A
    24/12/2016 at 14:06

    O termo “desconfiança” é apenas uma metáfora, talvez inadequada. Se for cliché podria usar “desbanalizar o banal”.

    Talvez não me expressei corretamente, mas tentei me basear no texto, principalmente no trecho:

    “Creio que Calligaris fala da família incorporando personagens que ele quer atingir: fala como um adolescente falaria.”

    Penso que não se trata dos personagens incidentais, nem o tipo de fala “adolescente”, mesmo que seja como efeito retórico.

    Ainda que se trate de personagens “idílicos”, um profissional atento aos detalhes teria algo a dizer.

    Como já disse antes, não estou me referindo a nenhum caso “clínico” (note o uso de aspas) em particular.

    • 24/12/2016 at 16:03

      Aaa, seu texto anterior parecia ter pouco a ver com o que escrevi, este agora me parece ainda mais distante.Não tenho nada a lhe dizer e meu interesse por gente que não se identifica é zero, sinto até um pouco de …sei lá, dá uma certa pena. Tenho um pouco de dó de quem se esconde. E não gosto de sentir dó.

  3. Orquidéia
    24/12/2016 at 08:09

    Ahhhh… [ia esquecendo…Kkk…

    Feliz natal ao sr.e à sua família!

    https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/62/Nativity_tree2011.jpg

  4. Orquidéia
    24/12/2016 at 08:06

    Eu vi uma parente sua _nonagenária [acredito que é sua parente,o cabelo é igual ao seu] numa revista de farmácia,como entrevistada.

    • 24/12/2016 at 11:36

      Sim, exatamente minha tia Lila, mencionada no texto, e personagem de um livro meu e capa de outro. Ela é a que está sentada, no meio, na foto do texto.

  5. AA
    23/12/2016 at 22:09

    “É sexy estar junto. […] Eu tenho família.”

    Ok. Até gostaria partilhar da mesma alegria pelo reencontro em família.

    Mas, por outro lado, um analista diria que afetos familiares excessivos poderiam mascarar desejos incestuosos e/ou ser uma sublimação de tais pulsões. Dizer ou escrever que não é o caso não quer dizer nada, pois tais desejos são processados de maneira inconsciente, e esta é uma das chaves da teoria freudiana do aparelho psíquico humano.

    Espero não ser mal-entendido. O trecho acima enuncia proposições de caráter geral, sem absolutamente nenhuma pretensão de “clinicar” qualquer caso em particular.

    O que queiro dizer é que um psicanalista, como um bom advogado ou árbitro de futebol, é um “profissional da desconfiança”. E semelhante exercício pressupõe um certo pessimismo. Particularmente, nunca faria análise com um profissional otimista.

    • 23/12/2016 at 23:10

      AA eu realmente acho a frase do analista que você desenhou aí, sobre desejos incestuosos, algo que tanto faz. Outra coisa é que um analista com “profissional da desconfiança” me faz rir. Freud é um bom filósofo, mas os que falam em “desconfiança” me fazem rir. Estão no final do século XIX gemendo. Quando tiver algum dinheiro posso comprar para gente assim um troféu do fazedor de cliché do ano. Ah, lembrando, falou um “A” no seu nome.

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