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26/09/2017

Não se nasce mulher, torna-se – com maquiagem!


Era difícil para o grego ver beleza como alguma coisa distinta de harmonia. E essa harmonia ele não encontrava senão na organização do todo, ou seja, do cosmos. Uma tal palavra, kosmos, tinha como oposição exatamente a desorganização, kaos.

A geografia do Mediterrâneo, na parte relativa aos gregos e suas colônias, fornece um conjunto de ilhas e um céu estrelado que favorece a localização e, então, a navegação. Nesse lugar, tudo guia o homem. O cosmos acolhe o homem na sua organização; ora, não tem como não ser atraente, portanto. O que atrai, o que é desejado, é afinal o que é, por definição, o belo.

Dessa ideia de inerência do belo no harmônico, que é o cosmos, herdamos a palavra cosmético. Trata-se do apetrecho material que ajuda o artista a tornar o rosto mais harmônico. Trabalhar com cosméticos sobre o rosto da mulher é fazer com que traços exagerados se adaptem a traços mais humildes e vice-versa, de modo que a face adquira a capacidade do mundo grego antigo, a de guiar os homens. Um rosto que provoca o desejo porque é guia – um guia até ele mesmo! Olhos e bocas que atraem, que na sua harmonia predisponha todos a estar com eles para admirá-lo.

Mas, sabemos bem, a ideia de beleza grega ficou na Grécia antiga. A arte foi caminhando para o lado da desarmonia, o belo foi adquirindo até certa distância para com a arte. Da modernidade aos tempos contemporâneos, a própria noção de arte mudou, pois deixou o belo para escanteio. O belo, a arte e o harmônico se tornaram independentes um do outro. Ganharam esferas próprias. E isso atingiu duramente o cosmético. Sua função harmonizadora foi questionada.

Por isso, nos tempos modernos, não temos só o cosmético, mas também a maquiagem. Os apetrechos da pintura da face estão em tensão interna. Uns a pensam como harmonizadores, outros a pensam  como agudizadores, máscaras. A beleza moderna está longe de ser a beleza harmônica. Ela é plural, étnica, aguda, exótica, masculina. Desse modo, a própria palavra cosmético perde para a palavra maquiagem. E o artista é já, sempre, o maquiador. Maquiar tem duplo sentido: molda para o bem, mas molda para enganar. Em qualquer sentido, molda para atrair. Baudelaire foi sábio ao dizer que pouco importava se a mulher estivesse maquiada ou não, que não fosse o seu rosto algo senão para chamar a atenção, pois o propósito da mulher seria sempre, de qualquer forma, chamar a atenção.

Maquiar como sinônimo de enganar tem a ver com a crítica burguesa ao Antigo Regime, às máscaras da nobreza. O nobre vive um mundo irreal, da corte, falso – diz a crítica a burguesa. O burguês apresenta seu rosto limpo – em todos os sentidos que isso exige. Precisava fazê-lo assim para que seus traços possam ser apresentados sem qualquer dúvida, com a transparência que se exige no mercado. Vir maquiado ao mercado é vir para enganar. Vir de rosto limpo é vir mostrando quem é, de onde é e, portanto, de onde a mercadoria provém. A burguesia trouxe o capitalismo e o capitalismo tirou a máscara da burguesia. Marx disse isso em vários sentidos.

A mulher moderna e burguesa – rica ou pobre, tanto faz – é maquiada, é levemente maquiada. Não pode imitar a nobreza maquiada. Não pode ser maquiada no sentido de provocar o engano de quem confunde um nobre com o bobo da corte. Que o Joker fique som seu Batman. Ela não é isso. Tem de preservar aspectos naturais. Essa crítica da máscara burguesa, do rosto maquiado, da fuga da natureza, é toda ela pautada no Iluminismo-Romantismo que tem em Rousseau a melhor expressão. Nossa arte do cosmético ou da maquiagem deve muito a essa situação de incorporação da máscara e ao mesmo tempo de sua crítica.

O rosto da mulher está sob essa tensão: a harmonia, a agudeza, passando também pela exigência do “natural”. Claro que ninguém vai tirar da mulher o gosto pela pintura do rosto. Assim, os seguidores de Rousseau e do rosto “limpo”, que querem fazer da mulher apenas uma feirante igual ao seu marido, não vencem a ideia de uma maquiagem que, faz tempo já, não sabe mais o que é cosmético. Tudo vira “produto de beleza”. E a beleza, então, é oriental, índia, negra, puta, vamp, gótica, pesada, etc. A beleza da arte de pintura do rosto entra pela sua fase de globalização: o que importa é estar na moda, e a moda é ditada pelo que pode chocar, mesmo que todos estejam iguais … chocando!

Talvez Simone de Beauvoir esteja mesmo certa, em todos os sentidos, ao dizer que a mulher torna-se mulher. Nada é naturalmente mulher pois nada que é mulher natural é mulher. Classe média do mundo, uni-vos! Nem é preciso desse brado, a moda da maquiaquem faz isso.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 05/01/2017

Gravura: Bardot, musa dos anos 60, estreando do estilo que hoje chamamos de “maquiagem preta”.

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One Response “Não se nasce mulher, torna-se – com maquiagem!”

  1. 27/03/2017 at 13:06

    Adorei o artigo… Obrigado 🙂

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