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28/04/2017

Não há nada mais chato que ser palestrante


Quando era garoto, queria seguir como filósofo, mas tinha pavor de ser professor. Achava aquele trabalho de entrar em várias salas de aula e se repetir, a coisa mais enfadonha do mundo, até mesmo degradante. Quando me tornei professor e vi realmente que tinha que me repetir, e que até mesmo na universidade tinha que ser assim, então compreendi bem o que Nietzsche havia dito sobre seu próprio trabalho: como posso ir dar aula hoje se não pensei nada de novo, nada de criativo?

Como vários outros grandes filósofos, professores ou não, Nietzsche não entendia a filosofia senão como uma investigação conjunta com outros, amigos ou alunos, algo que não fosse a repetição. Ou seja, como todo grande filósofo, a pior coisa do mundo para Nietzsche era “dar palestra”. Até hoje é assim para os filósofos. Nós filósofos gostamos de criar e pensar junto com outros, e nos deprimimos quando somos empurrados para a tarefa de palestrantes. A terceira palestra sobre o mesmo tema é mais que enjoativa, é a desgraça de um filósofo. O professor de filosofia que precisa dar duas vezes a mesma aula, pois tem o mesmo curso para duas turmas, quer se matar. Mas a pior coisa do mundo para o filósofo e para pessoas inteligentes, é ter que repetir e, além disso, simplificar o discurso a ponto de não falar nada com nada, falar banalidades. O professor inteligente, quando reduzido a palestrante de auto-ajuda ou palestrante político (ou variações disso), ou seja, quando tem de dar sugestões falsas de como ser feliz ou de como votar melhor, rapidamente começa a sofrer de depressão. Só dura nesse tipo de profissão o medíocre. Nem por muito dinheiro um professor inteligente ou um filósofo aguenta essa vida. Uma década nesse vida e o cérebro perde neurônios mais que num vício com droga pesada.

Quando jovem, andei pelo Brasil todo e pelo exterior. Atividade: palestra. Conheci muitos lugares, mas ganhei uma baita de uma depressão. Isso aliado a ter de dar a mesma disciplina sempre, na graduação, e não poder pensar e, sim, repetir. Ora, tal coisa quase me levou à morte. A mediocridade desse tipo de atividade é realmente uma punhalada no peito à medida que é uma coação horrível ao cérebro. Não à toa Weber e tantos outros tiveram de abandonar o ensino por conta de colapso nervoso. Dar palestra é exatamente o trabalho da anticriação, do antipensamento. Trata-se da morte da filosofia, ou seja, da investigação conjunta. A investigação conjunta, socrática, com a característica do elenkhós (o método da refutão), tem de ser feita em grupo, claro, mas um grupo reduzido e afinado. Não é coisa para o público de palestra. O público de palestra política, motivacional, de auto-ajuda, ou de mesmo palestra para claque, é sempre ignorante e bárbaro. Só é possível falar alguma coisa para eles se estamos ligeiramente bêbados. Não à toa, em muitos anfiteatros os organizadores deixam aceso o lugar do palestrante, mantendo a plateia à meia luz. É que às vezes se imagina que o palestrante ainda não se tornou um completo imbecil, e que está sofrendo de falar o que está falando, mas que pode suportar mais um pouco se não puder olhar o rosto dos visigodos na platéia.

Quando me libertei da vida de palestras dei um salto em direção à alegria. Quando me libertei de ter dar cursos repetidos, completei esse salto. Sinceramente, sempre digo para meus alunos mais inteligentes que querem ser filósofos: tratem de estudar e conseguir um lugar onde possam trabalhar com filosofia verdadeiramente, de modo a não ter que sair por aí dando palestras, contando piadas, falando do que não leu, até porque a melhor coisa em palestra é sempre falar coisas tão banais que é impossível ter lido algo para exercer tal trabalho. Se ler algo, piora.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 28/09/2016

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6 Responses “Não há nada mais chato que ser palestrante”

  1. Eduardo Somber
    28/09/2016 at 17:50

    Prof º ,
    Mas onde se pode trabalhar com Filosofia verdadeiramente?
    Grato

    • 28/09/2016 at 19:45

      Editora, imprensa, universidade, escola e por aí vai. O problema é que o padrão do que se deseja com ensino, em alguns lugares, é a merda da palestra para não-pensantes.

  2. Gustavo Ventura Martins
    28/09/2016 at 13:20

    Você está dizendo que é ruim ser professor.

    • 28/09/2016 at 13:37

      Gustavo, quando o professor tem de trabalhar não pensando, como se fosse palestrante, é muito ruim. Classes lotadas, baixo interesse etc. força você a ficar como aqueles tontos palestrantes motivacionais ou da Casa do Saber.

  3. Joao Pedro Dorigam
    28/09/2016 at 02:52

    Se repetir gera depressão e se somos todos acrobatas repetidores, (logo) somos todos deprimidos incondicionalmente.

    Está aí a explicação para o sucesso da novel psiquiatria, o fim da psicologia e a viabilidade do capitalismo?

    • 28/09/2016 at 07:29

      Nossa prática ou práxis não significa repetição sem objetivo, o que realmente é um dos problemas (ou a troca de objetivos, o escamoteamento); não pense que o acrobata repete sem objetivo. O acrobata é um agente de um projeto maior, o ascetismo. Sem ele, não existe a perfeição do homem que busca ser Deus – ao menos desde Heráclito. Se as coisas pudessem ser resolvidas em silogismos não existiria Ciências Humanas, nem Filosofia, Dorigan.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo