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20/07/2018

Mulheres e homens ainda podem pecar? Onde?


[Artigo para o público em geral]

Vivemos na “sociedade da leveza”. O mundo ocidental de hoje é um “mundo de desoneração”. Estamos de acordo com o mundo se estamos a favor de forças antigravitacionais. Da ideia de ser magro à noção de que temos que pagar menos impostos passando pela paixão do frívolo, tudo corrobora uma sociedade de superabundância e de mais tempo livre que, enfim, tem como ideal não o consumo sem eira nem beira, mas o consumo de poder viver sem eira e nem beira. Trabalhar para não trabalhar. Esse é nosso horizonte.

Lipovetsky e Sloterdijk, cada um à sua maneira, nos ensinam isso tudo sobre a contemporaneidade. É difícil discordar.

Nossa cultural atual, portanto, tem uma ética que não pode mais conviver com chamada ética moderna, calcada nos preceitos da moral do dever (de Kant e do cristianismo) ou na moral utilitarista (de Mill e outros consequencialistas). Nesses dois casos modernos, o que é necessário fazer para ser um indivíduo ético-moral é sempre distante do que é  necessário fazer para ser feliz ou ao menos ficar satisfeito. Mas nossa moral atual, na sua regra pela vida leve, não consegue pensar que seria errado, seja lá pelo que for, não querer ser feliz. “Eu tenho o direito de ser feliz” é uma regra que nos parece hoje evidente. Quem a negaria? Aliás, ser feliz a qualquer preço é o único dever que ficou.

Ora, em uma sociedade assim, para onde vai a noção de pecado? E como ficam as religiões que, enfim, só sobrevivem como códigos morais que devem proibir algo, ou seja, apontar algo como pecado e proibi-lo? Como manter a máquina de arrecadação financeira religiosa em funcionamento em uma sociedade onde tudo que é pecado não é mais pecado?

Se notarmos os anos oitenta, veremos uma época de falas e imagens mais livres. Se notarmos os anos noventa e, principalmente agora, veremos uma época em que a linguagem e as imagens estão mais pudicas, conservadores, sujeitas às censuras que nem mesmo nossos avós achavam válidas. Os programas de TV mostram bem isso. A pornografia migrou para a Internet. Também tudo aquilo que poderia ser chamado de “vida alternativa”. A TV ficou com a fala e a imagem públicas e, então, desconfia das palavras e imagens. O pecado pode ser falado e visto, mas no âmbito individual, no campo do privado, assumindo-se aí a sabidamente falsa noção de que a Internet é privada por conta do celular ser particular, no sentido de ser manipulado individualmente. No campo do que seria público, que é a TV, mesmo que ela também seja divulgada pela Internet, cabe a fachada consensual onde a palavra e a imagem precisam ser unificadas em um regime de paz e harmonia, e onde o “erótico” é permitido se vier bem apartado do “pornográfico”. A TV é familiar, a Internet é particular, individual – essa situação dual garante a redistribuição espacial do pecado.

Desse modo, podemos ter o pecado preservado como pecado. Há uma série de coisas que podem ser tidas como proibidas se vistas num lugar em não noutro. Se vejo pornografia hard na Internet, ou mesmo se eu produzo cenas de violência para a Internet, isso não é pecado. Mas se vejo tais coisas na TV, um espaço “familiar”, então, aí mora o pecado. Aliás, os produtores de TV sabem disso, e querem evitar que a TV não fomente o pecado. Quem quer pecar que vá, agora, para o lugar certo.

A sociedade da leveza, desse modo, nos dá essa chance de usar da TV como meio conservador, onde desvios que eram pecado continuam pecado, mas com seus lugares para usuários que pagam à parte. Assim à Internet resta ser o reino do ódio, do sexo, das drogas, da mentira, da combinação para uma ação subversiva ou assalto etc – é o reino onde todo o pecado é condenado, mas permitido, já que escolhido pelo indivíduo liberal adulto.

Em uma sociedade assim, há ainda os pagantes do dízimo para as igrejas, claro! Mas agora isso é de fato, como forma de barganha por milagres ou por formas de convivência e indicação para empregos ou para o pertencimento de um clube de ajuda-mútua (inclusive com atividades ilegais). Pois de fato, pecado mesmo, não os tenho. Os que cometi com a Internet estão já previstos, permitidos. Fazem parte do interdito permitido.

Para terminar, um exemplo: Armação Ilimitada – lembram da série? Nesta série dois surfistas adotaram um garoto e ambos namoravam a mesma moça. Hoje, o assunto não cabe em novelas ou séries, mas em programas de debates! A TV descobriu a “anormalidade” e o “tabu”, que, enfim, já era o normal e nada tabu em qualquer novela. Mas hoje, se a “Malhação” vai apresentar o sensual e gostosinho beijo entre duas meninas, ela arrisca fazê-lo contanto que seja num clima de amor. Com amor e sem cigarro tudo pode. É como cerveja: tudo pode com cerveja, se ela vier “com moderação” e sem mulher nua. A linguagem e a imagem são a pedra de toque que é preciso colocar em espaços de mídia diferentes, ainda que sejamos todos nós, as mesmas pessoas, que acessamos tudo isso. O mundo não está mais conservador. Está mais leve. A leveza implica em segmentações de afazeres, interesses e paixões. Assim, ousadia e conservadorismo se segmentam.

A vida leve é uma vida com controle remoto na mão: posso suportar a imagem e a fala o quanto desejar, talvez até para aumentar o peso de uma vida muito leve, de modo que eu possa “sentir algo como a realidade”, já que tudo é muito ameno na minha vida. Posso então, em um lugar aparentemente privado, sofrer com imagens e palavras que não estão na TV, só no site que escolhi e pelo tempo necessário para que eu saia do tédio. Vai me dizer que a vida não está leve, se há adolescentes que se furam, para sofrer um pouco?

Paulo Ghiraldelli Jr., 60. filósofo

 

 

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