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25/09/2018

Maconheirinho de Humanas? Abortista feminista?


[Artigo para o público em geral]

“Ah, é esse pessoal de Humanas é tudo maconheiro”. Em quarenta anos de magistério na filosofia e áreas correlatas, tive excelentes alunos. Todos meus bons alunos condenavam a maconha. Eles sabiam que se tornavam improdutivos com aquilo. Mas tive muitos alunos que, mesmo já formados, eu os encontrei na rua, como indigentes, por conta das drogas. E não pensem que foi só pela maconha a longo prazo ou a cocaína ou coisa ainda pior. A droga legal chamada “bebida” ceifou futuros promissores.

Tive alunas que estragaram bem seus corpos, suas vidas, se consumindo em abortos. E sei daquelas que tentaram abortos e tiveram filhos com defeitos físicos e mentais. Sei das que consumiram drogas e tiveram filhos, e foram infelizes. Deveriam ter abortado, pois não podiam ser mães. Eram drogadas. Foram mães drogadas e levaram os filhos para a droga e para a prisão. Desgraça de estudante é o que não falta na caixa de lembranças de um velho professor que nunca deixou de saber que tinha alunos humanos, e não apenas “matéria para dar”. Dos anos 70 até pouco tempo atrás … muita história.

Com tudo isso nas costas, na memória, na retina, sei perfeitamente que a melhor solução para o “problema das drogas” é um escalonamento de liberalização. Vale o mesmo para o aborto. Ou descriminalizamos certas práticas ou perdemos completamente o controle disso e, então, aquilo que é um problema grande deixa de ser um problema grande setorizado para ser um problema universal. Onde as drogas foram liberadas de maneira racional, há maior controle e gasto menor nos hospitais e com a polícia. A mesma coisa vale para o aborto. Sem contar que, em ambos os casos, as mortes diminuem (bom, eu sei que em termos metafísicos religiosos que um célula fecundada tem o mesmo valor da vida de uma mulher adulta,  mas estou falando em termos sociais, econômicos e políticos, não em termos de pureza filosófica).

Nenhum sociedade registrada na história, que eu saiba, viveu sem droga e sem aborto. Aliás, cá entre nós, conhecemos muitas sociedades que praticaram o infanticídio, e praticariam o aborto se pudessem ver os fetos com defeitos. A sobrevivência coletiva é sempre uma preocupação que cabe por detrás das nucas dos indivíduos, fazendo a vontade da espécie. Vale a mesma regra para as drogas. E em ambos os casos, os motivos religiosos deram as regras morais e as justificativas ontológicas para que se pudesse seguir em transe e seguir em abortos. A modernidade interrompeu esse ciclo.

Na modernidade pudemos começar a pensar em duas coisas impensáveis até para o mais exímio dos futurólogos medievais. Os modernos deram ao mundo “condições de mimo” bem maiores (Sloterdijk), ampliaram de modo inaudito a “missão  civilizadora do capital” (Marx), e puderam falar em diminuir o aborto e, de certo modo, até torná-lo crime, para em seguida pedir a descriminalização. A modernidade eliminou a religião em seus rituais de fé autêntica e, portanto, jogou as drogas associadas ao rito para uma associação com movimentos liberatórios (anos sessenta) e para as baladas (a partir dos anos 70) e, agora, ao trabalho para uns e à perda de melhores vínculos sociais para outros, cada um na sua “curtição” ou desespero individual. Também aqui veio a proibição e, em seguida, a tentativa de descriminalização.

As razões fortes, objetivas, para aborto e droga, na modernidade, desapareceram. Mas aborto e droga continuaram a existir por outras razões, a ponto de se tornarem ilegais, uma vez que as tais novas razões para suas práticas não convenceram todos. Saiu a religião, entrou o “desencantamento” (Weber) e a busca de sentido para a vida de um modo setorizado e subjetivo. Mas agora, começamos a compreender que cada um deve ser livre nessa busca de sentido da vida, já que isso se tornou algo subjetivo, que é posto ou procurado por cada um, e não mais dado objetivamente por um conjunto de crenças que faz o Cosmos ou Deus ou a Natureza ter regras teleológicas também para os humanos. O liberalismo prega o individualismo, e se ele é hegemônico, então que sejamos indivíduos (como Calligaris gosta tanto) até na busca de sentido para a vida, e portanto devemos ser livres para o consumo (regrado de drogas variadas) e para o aborto (regrado para casos variados). Não faz sentido sermos indivíduos em tudo, assinarmos uma carta de proteção a direitos individuais, sermos privatistas em variados graus e, no entanto, não privatizarmos nossas gargantas, narizes e nossos úteros. Para negar esses direitos aos indivíduos teríamos que negar o liberalismo. Não estamos dispostos a fazer isso hoje em dia. A democracia liberal, a sociedade de mercado transformada em sociedade de consumo (consumo para si, sem inveja), e a tecnologia estão aí fortes e ninguém as quer eliminar. Ninguém sabe o que se colocaria no lugar.

Volto então aos alunos. Meus alunos de Humanas nunca foram mais drogados que alunos (às vezes meus também) dos cursos de medicina e dos cursos de engenharia. Aliás, em termos de números, os médicos sempre estiveram na frente, e os engenheiros sempre estiveram em segundo lugar, no consumo de drogas. As pessoas não notam isso, e notam os de “Humanas”, porque estes são os que não escondem o consumo. São os que se encaixam nos esteriótipos vindos dos Sixties. Mas quem conhece o que é um drogado e cai à noite em um hospital com residentes, logo desconfia que talvez seja melhor voltar para casa do que ficar em enfrentar o carinha ali, de branco, completamente chapado. Quem vai numa festa de curso de Engenharia nunca mais se sente seguro dentro de qualquer coisa arquitetônica da cidade.

Aborto? A mesma coisa. As mesmas meninas dos cursos de medicina, direito ou qualquer outro “curso de rico”, que gritam contra feministas, exatamente para se fazerem mais atrativas para pais e namorados fazendeiros, são as que fazem mais abortos. Aliás, são os ricos que sustentam as clínicas clandestinas. Os pobres se submetem a autoperfuração e morrem aos borbotões. E isso é algo ocorre bem dentro das universidades e arredores. E às vezes tais arredores dão bem mais arredores que imaginamos.

O “maconheiro de Humanas” e a “abortista feminista” são esteriótipos alimentados por colunistas de jornal e militantes políticos cujo objetivo é duplo: primeiro, manter a ideia de que aborto é droga é algo de um grupo específico, que não tem necessidade para tal, atua por perversão; segundo, manter as Humanidades na mira, exatamente porque os conservadores, até quando eles próprios possuem diplomas nessas áreas, queriam na verdade serem médicos ou outras coisas. São pessoas que se sentem fracassadas por não term se formado no que se formaram.

Faço o elogio das Humanidades. Devo fazer. Sou filósofo por única e exclusiva opção, não por frustração de não ter sido outra coisa.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

 

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2 Responses “Maconheirinho de Humanas? Abortista feminista?”

  1. Guilherme Hajduk
    17/08/2018 at 02:19

    “Sou filósofo por única e exclusiva opção, não por frustração de não ter sido outra coisa.”

    Que tara é essa pelo Pondé, Paulo? Vai me dizer que essa frase não foi relacionada à ele?! (Pelo fato de ele abandonar a medicina para se tornar filósofo) — “para bom entendedor, meia palavra basta”, certo? — É claro que ele é um reacionário, retrógrado, bizarro, picareta… mas… vale tanto assim gastar energia com ele como você faz?

    • 17/08/2018 at 09:40

      Had acho que a tara é sua, tá vendo seu bofe em todo lugar. Ele é frustrado? Você diz,então tá.

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