Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

27/06/2017

Luiz Carlos Ruas, o homem


Luiz Carlos Ruas, quem é?

O mais triste é ver o jornalismo brasileiro não tendo a mínima preocupação de chamar Ruas pelo nome, usando “o ambulante”. Ou seja, “um popular”. Ou: “morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. “Atrapalhando o Natal”. A essa altura do campeonato, três dias após o Natal, quando morreu, já era para aparecer com nome na imprensa. Mas hoje de manhã, Ana Maria Braga repetia: “o ambulante que defendeu uma pessoa”. Tramontina depois, reiterou: “será que os assassinos do ambulante lá do Metrô vão ser mostrados hoje?” Sim! “O ambulante lá”. É a total banalização de tudo.

Ruas vai desaparecer, no fundo, queremos que ele desapareça. Não temos como lembrar dele, pois nos apequenamos de tal maneira que sentiríamos aquilo que a formiga sente ao perder a trilha. O desamparo de voltar a ser um nada!

Deveríamos fazer uma estátua no local do maldito episódio, para Ruas. As pessoas têm de passar pelo local e saber que ali, naquele lugar, Ruas se colocou entre a mão assassina e o corpo de um travesti, pagando com a vida a sua coragem, a sua generosidade, o seu espírito mais altivo, aquilo que rogamos a Deus que viva dentro de nós. Sim, uma estátua dele, como um alerta: “não façam o mal, pois Ruas ronda o lugar”.

Mas há ainda um agravante, que nos força, mais uma vez, a tentar escapar do feito de Ruas: ele defendeu um travesti, o demônio da sociedade. Não duvido que existe gente agora dizendo: “porra, foi defender um traveco, olha só no que deu, tinha de dar nisso!” Ruas vai desaparecer também por causa disso, porque temos gente fazendo stand up por aí, gente na política e até dentro de sala de aula falando que o crime de homofobia não existe no Brasil.

Deveríamos ter um prefeito com determinação de ir lá e fixar o episódio para sempre, com um monumento, sim, para Ruas. Significativamente seu apelido era “o Índio”.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 27/12/2016

Tags: , , ,

8 Responses “Luiz Carlos Ruas, o homem”

  1. Antônio Rodrigues
    28/12/2016 at 01:45

    Sim, o lugar do ocorrido deveria ganhar um memorial de Ruas, como combate ao preconceito e também a lembrança de quanto ele foi corajoso para combater este maldito cancer do país chamado homofobia.

  2. Eraldo Da Silva Duarte
    27/12/2016 at 22:17

    BRAVO!!

  3. Luiz Roberto Ghiraldeli
    27/12/2016 at 22:10

    Parabéns Ghiraldelli, vamos ver se vai haver justiça.

  4. gabriel
    27/12/2016 at 14:22

    sensacional Ghiraldelli!

  5. Thiago
    27/12/2016 at 14:02

    Bom ter este lembrete e orientação. Porque sem dúvida fora um herói. Um simples herói. Popular…

    Deviam mesmo fazer alguma construção em nome dele. Em homenagem. Pois Deus é sempre a favor dos mais fracos.

    E, além disso, foi covardia. Dois rapazes fortes contra um senhor. O que mostra também a ausência de respeito aos mais velhos.

    Triste e comovente.

    Incoerente tal coisa.

  6. manuel
    27/12/2016 at 11:40

    Voce disse tudo! Muito bom artigo. Vamos esperar por essa estatua que nunca chegara!

  7. Guilherme Picolo
    27/12/2016 at 11:28

    E as outras pessoas que estavam na estação, mostradas na filmagem? Fizeram-se de rogados (“cada um com seus problemas”, devem ter pensado). Podiam, ao menos, ter levantado a voz. Cambada de covardes!

  8. João
    27/12/2016 at 11:18

    O texto mais ofensivamente sincero e sensato a respeito dá postura dá mídia e dá sociedade, parabéns.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *