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27/04/2017

A execração pública de José Mayer


NOS ANOS 60 o periódico Seleções do Reader’s Digest tinha o hábito de publicar histórias de crianças soviéticas que deduravam os pais para as autoridades do estado. Antes o socialismo que o amor paterno – era o lema. O símbolo do heroísmo soviético, segundo o periódico, era a degradação dos valores mais profundos do Ocidente, como a filiação aos pais, o amor familiar etc. Líamos tal coisa e, então, comentávamos: “Deus me livre de vivermos no comunismo”. Nosso valor mais profundo era, na verdade, as ataduras gostosas dos laços de amor.

Hoje o Ocidente, não mais na possível imaginação de uma revista, mas em verdade, adotou o figurado procedimento soviético. Os jornais brasileiros mostram um rio de águas com acontecimentos que deveriam nos deixar reflexivos a respeito do amor.  Um garoto denuncia o pai por pedofilia e recebe aplausos. Um aluno denuncia o professor por “doutrinação” e recebe cartas de incentivo de colunistas da Folha de S. Paulo. Um ator é acusado de assédio, pede desculpas de uma forma corajosa e digna, mas aí outros colegas colocam uma camiseta para sua execração pública, para agradar a direção da empresa em que trabalham. Desapareceu algo central no núcleo do que se chamava amizade em seu entrelaçamento necessário com a relação familiar e o amor: a cumplicidade.

A palavra cúmplice tinha duplo uso, pejorativo e filial. Mas mesmo o pejorativo, assim funcionava apenas para casos restritos, no âmbito da conversa de advogados e policiais. Na verdade, sempre valeu o sentido positivo. A letra da música de titulo Cúmplice , cantada por Juca Chaves ou por Fábio Jr., embalou gerações que acreditaram na existência da mulher capaz de ser colocada num pedestal, exatamente por seus dotes de “amante e companheira”, “de dia uma menina à noite uma mulher”. Todos nessa sociedade atual ainda se casam querendo cúmplices. Homens e mulheres assim agem. As pessoas ainda querem que na família e nas amizades exista amor, e só na sociedade, em abstrato, exista justiça. Mas já não estão mais agindo assim, estão favorecendo o contrário. Vão colocar tudo a perder. Elas não leram o Eutífro, de Platão, onde Sócrates mostra ao filho de um amigo que ele, ao dedar o pai por impiedade, está exibindo a sua própria impiedade.

A execração pública de outro em favor de interesses escusos, mas pretensamente nobres e corretos, se tornou a regra da sociedade democrática, o fantasma que acusávamos só existir na sociedade totalitária. Zé Mayer pediu desculpas por aquilo que lhe acusaram. Dezenas de pessoas – e aí destacam-se as mulheres – que estão com os pés no mundo e são amigas dele poderiam, simplesmente, acolher as desculpas. Sim, são pessoas que se declaravam amigas! Mas eis que a verve onde só cabe a revanche e a vingança fala mais alto. Os laços de amor e amizade caem por terra, a ideia de que deveríamos ser cúmplices não do ato pelo qual pediu desculpas, mas pelas próprias desculpas, é anulada em favor da obediência ao comportamento de bando. Fica fácil agora imaginar essas mesmas pessoas, um dia no futuro contracenando com Mayer, usando dele para poder se sair bem numa cena, vir dizer para ele: “olha, eu coloquei aquela camiseta para execrar você publicamente, mas não foi nada pessoal, tá?” Sim, é moda agora dizer essa frase: “sou Deus, o rei da justiça, e não faço nada pessoal”. A ideia da amizade é uma ideia do passado. Estamos nos tornando puros, justos, honestíssimos e deuses. Não vai dar certo. 

Paulo Ghiraldelli 59, filósofo. São Paulo, 05/04/2017

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21 Responses “A execração pública de José Mayer”

  1. Orquidéia
    06/04/2017 at 00:52

    Bah!
    O coitado do ator ficou velho e está caducando…

  2. Isa Sorrentino
    06/04/2017 at 00:31

    (um pedido de desculpas de quem não tem “nada pessoal” com a Susllem e nem com as mulheres amigas dele)

  3. André Luis Simões
    05/04/2017 at 21:43

    Ainda tento entender onde estamos chegando, pra depois tentar entender pra onde vai. Hoje tenho medo até de abrir a boca. Não sou estudioso, nem estudado, não conheço grandes obras literárias e minha memória não permite que eu me recorde de importantes escritores e é desse lugar que eu falo. Lí o seu texto e passei pelos comentários. É triste. Os discursos de ódio estão cada vez mais comuns e o amor ao próximo, que é a solução de todo esse embate, cada vez mais suprimido. As pessoas vão se dividindo em classes, tribos, rótulos que elas mesmas se dão e defendem os iguais com unhas e dentes, passando por cima dos antagonistas como uma manada incontrolável. O ser humano esqueceu o sentido mais pleno da palavra irmão. Não aquele consanguíneo, mas o irmão de semelhança, de espécie. O irmão que Deus, seja ele qual for no entendimento de cada um, nos ensinou a perdoar e amar. Lamentável.

    • Marco Regis
      08/04/2017 at 16:18

      “Os fascistas do futuro se chamarão antifascistas.” (Winston S. Churchill)

    • 08/04/2017 at 19:24

      Pois é, leia a Márcia Tiburi combatendo o fascismo com verve e estilo fascista.

  4. Isa Sorrentino
    05/04/2017 at 15:55

    Reproduzo aqui o comentário que coloquei no Facebook, em continuidade ao que, espero, seja um diálogo:

    O seu texto vai além, mesmo. E concordo com ele nas questões que você enxerga como pano de fundo de todo esse momento bizarro que vivemos. Mas e as questões que estão como pano de fundo de um pedido de desculpas um tanto quanto atrasado (a primeira tentativa dele foi de negação, e só assumiu a culpa após a pressão), e um tanto quanto contraditório (pra pegar um exemplo, ele começa o texto afirmando mais uma vez que foi uma brincadeira, mas lá na frente ele mesmo reconhece que a sociedade tenta travestir o assédio de brincadeira)? E o resultado contrário, de agora começar outra turba defendendo o “deixa disso, ele já pediu desculpas”, “a vida do cara acabou”, etc. e a Susllem passando a ser a histérica? Se eu fosse amiga pessoal dele, realmente procuraria ouvir o homem por trás do assédio. Você tem toda a razão. Mas o homem que escreveu o pedido de desculpas também não é o José, é o homem público José Mayer, preocupado com sua imagem (e preocupar-se com a imagem pública não é demérito nenhum, mas é importante para situarmos o texto). Por fim, deixo claro que não concordo, como estratégia para a própria luta contra assédio e pelos riscos sérios que isso envolve , com pessoas que fazem essas denúncias públicas direcionadas especificamente a uma pessoa. Não concordo com o que a Susllem fez. Poderia ter feito sem citar nome, seria totalmente diferente. Mas, uma vez feito, não é contra ela que vou me voltar.

    • 05/04/2017 at 19:35

      Não escrevi nada nesse sentido. Não entendi a razão pela qual procura diálogo comigo em termos estranhos ao que escrevi. Não estou preocupado com questiúnculas. As questões que levantei são filosóficas, dizem respeito à contemporaneidade, como a venho abordando em livros e cursos. O curso que dou aos domingos, via net, diz disso.

    • Isa Sorrentino
      06/04/2017 at 00:14

      “E concordo com ele nas questões que você enxerga como pano de fundo de todo esse momento bizarro que vivemos.”

      Aqui estou concordando que a ruptura dos laços de amor e amizade realmente é um problema que leva a “esse momento bizarro que vivemos”, em que pessoas são execradas publicamente por seres “puros, justos, honestíssimos e deuses.”

      “Mas e as questões que estão como pano de fundo de um pedido de desculpas um tanto quanto atrasado (a primeira tentativa dele foi de negação, e só assumiu a culpa após a pressão), e um tanto quanto contraditório (pra pegar um exemplo, ele começa o texto afirmando mais uma vez que foi uma brincadeira, mas lá na frente ele mesmo reconhece que a sociedade tenta travestir o assédio de brincadeira)?”

      E aqui estou fazendo o convite ao diálogo: você abordou filosoficamente um lado da questão, que é a execração pública do José Mayer. E gostaria que abordasse também filosoficamente a questão de que esse pedido de desculpas, que a seu ver os amigos deveriam acolher por cumplicidade, pode não ser um pedido de desculpas vindo do José, amigo, e sim do José Mayer, pessoa pública, ator global (um pedido de desculpas de quem não tem “nada pessoal” com a Susllem).

    • 06/04/2017 at 17:17

      Isa, não posso fazer o que pede. Eu não seria filósofo e sim um ser como poderes de adivinho. Não sou. O máximo que pude fazer eu fiz, que é atinar filosoficamente para o nosso talvez não entendimento da sugestão de Jesus, “não julgar para não ser julgado”;

  5. Tony Bocão
    05/04/2017 at 14:58

    A atitude dele é péssima, mas o pedido de desculpas é louvável e raro, esse pedido inclusive não deveria passar batido, é rico até para o combate deste comportamento, aliais, o personagem dele da novela é tão tipinho nacional machista, que a própria globo deveria, se preocupada em ficar alimentando o esteriótipo. De qualquer forma me divirto em ver que o barulho maior é para se pertencer em um grupo, repare nas fotos das #não vai ficar assim, # mexeu com uma blá blá… a estética, fotos de estúdio, camisetas cuidadosamente desenhadas, super espontâneo, a sociedade hoje está sempre engatilhada.

  6. Sueli Andrade
    05/04/2017 at 14:38

    Então teremos de deixar de acreditar que o Pai sacrificou o filho por amor. Creio que mártires, mesmo não perfeitos,devem existir sim para recompor certas coisas Não me diga que não entendi seu texto. Entendi sim, uma bela reflexão sobre esfriamento do amor e amizade, mas discordo que alguns devam ser poupados, por mais que o amemos.

    • 05/04/2017 at 19:37

      Sueli você quase entendeu. Mas mostrou não entender ao dizer “discordo …” Eu não escrevi nada nesse sentido, de que você vai punir seu filho ou não, seu marido, seu pai. Eu escrevi sobre como a nossa sociedade perdeu laços que antes chamávamos de amor, de cumplicidade.

  7. maria de lourdes bortolatto
    05/04/2017 at 14:29

    Para tudo há de ter bom senso. Houve algo errado, se procure as pessoas competentes. Certamente será ouvida. Mas fazer disso um espetáculo, é um pouco exagerado. Vivemos numa época de valores invertidos, onde pessoas nuas se expõem para quem quiser ver e a chamam de arte. Ficaria aqui muito tempo relatando casos que nos constrangem, a mim como mulher, meus filhos e netos. Acredito que o princípio de tudo está na falta de parâmetros sobre princípios e valores. A educação foi desconstruía. Quem viveu como eu, sabe como é verdade. Tempos tenebrosos vivemos…

  8. Nereida Pereira
    05/04/2017 at 11:19

    Nenhuma amizade perdura se valores societais não são cumpridos para o bem de todos e não apenas por um…Por justamente se calarem a respeito é que a violência contra a mulher, a criança, o idoso, o ser humano chega a tal ponto de ameaçar a propria estrutura do mundo em que vivemos…Retaliação vingança é algo que passa longe da conscientização que as sociedades mais primtiivas já tiveram…amizade não é cumplicidade…Isto é banditismo!

    • 05/04/2017 at 12:48

      Que pena que seu ódio contra você mesma a faça incapaz de entender um texto direto e simples.

  9. LUIZA GOMES
    05/04/2017 at 11:04

    SINCERAMENTE, EU NÃO ENTENDO OS PROGRESSISTAS AMANTES DA SENSIBILIDADE DO HOMEM-PELE, Q DEFENDEM OS MOVIMENTOS COLETIVOS EM PROL DAS MINORIAS INJUSTIÇADAS, CRITICANDO A FORMA EXPRESSA DAS AÇÕES POLITICAMENTE CORRETAS. OS INIMIGOS DECLARADOS CONTRÁRIOS E OFENSIVOS AOS DIREITOS EXIGIDOS EM PASSEATAS E BANDEIRAS DESSES MANIFESTOS, DEVEM SER EXEMPLARMENTE PUNIDOS. POR FAVOR!!! VALORIZAR AMIZADES EM DETRIMENTO DAS CAUSAS É POR D+ ABSURDO, CHEGA A SER INCOERENTE. A CAUSA É O OBJETIVO MAIOR ACIMA DE OUTRA QUALQUER CAUSA. AS MULHERES, NEGROS, GORDOS, GAYS E SABE LÁ O Q MAIS, DEVEM TER SEUS DIREITOS E NÃO AS OBRIGAÇÕES OU COMPROMETIMENTOS DE LAÇOS AFETIVOS, COMO AMIZADES E CONSIDERAÇÃO COM ALGUÉM COM QUEM SE TRABALHOU DÉCADAS, SOBREVALORIZADOS PELO O BEM-MAIOR DA COLETIVIDADE. DEFENDER O INDIVIDUALISMO PQ EXISTE UMA CO-RELAÇÃO DE CONVIVÊNCIA E CUMPLICIDADE, NEM PENSAR!!! ISSO É UMA AMEAÇA AO CONJUNTO, A FELICIDADE DE TODOS, AO BEM-ESTAR POLITICO-SOCIAL, AOS INTERESSES DOS DISCRIMINADOS E DESGUARNECIDOS. É FOMENTAR A INTOLERÂNCIA E IMPEDIR OS EMPODERAMENTOS. NÃO ENTENDO QDO SE CRIA UMA OBRA E DEPOIS NÃO ENTENDE A OBRA CRIADA E FICA FRUSTRADO PQ VALORES CONSERVADORES, COMO A AMIZADE POR EXEMPLO, ESTÃO SENDO TOTALMENTE SUBLIMADOS DO CONVÍVIO SOCIAL. AFINAL, ISSO FAZ PARTE DO SHOW!!!

    • 05/04/2017 at 11:12

      Luiza desliga a tecla do maiúsculo e volta para o ensino médio. Meu Deus!

    • Orquidéia
      06/04/2017 at 00:38

      Não consegui entender esse texto escrito em letras garrafais.
      Parece uma gritaria…

  10. Daniel
    05/04/2017 at 10:37

    Não “regra da sociedade democrática”, mas sim do Estado policial que estamos criando. Feminismo é movimento de esquerda. Reacionarismo é a esquerda com giro de 360º.

    • 05/04/2017 at 11:13

      Daniel faz um favor, tenta estudar. Faz um bom ensino médio. Ai você se livra desses jargões de sabichão e poderá entender o que estamos conversando aqui.

    • 05/04/2017 at 11:15

      TODA VEZ QUE vejo uma pessoa querer conversar tudo a partir de enquadramentos políticos, como direita e esquerda, sei que estou tratando de um fanático, um cabeça dura. Sei também que é uma pessoa chata que vai me dar dor de cabeça por não entender meus textos

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo