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18/11/2017

“Gorda e burra” – é preconceito?


“Aquela mulher é gorda e burra”. Não há nenhum preconceito nessa frase. Ela é puramente descritiva. Uma mulher gorda é descrita como gorda, uma mulher burra é descrita como burra. Descrever não é conceituar ou preconceituar. É difícil entender isso?

Preconceito haveria se a frase contivesse implicação: “Gorda, então burra”. A implicação tradicional: se p, então q. Preconceito é usar W que caracteriza X para explicar X caracterizado por Z, sendo W e Z nada relacionáveis ou de relação extra-causal. Gordura não causa burrice. “Uma mulher gorda” descreve uma mulher cuja silhueta é avantajada, normalmente é isso. “Uma mulher burra” diz de uma mulher que comete erros banais de raciocínio ou avaliação ou comportamento. Portanto, o que se chama preconceito, tomando esse caso como exemplo, é o fruto de se olhar para a gordura, não ficar satisfeito esteticamente, e ao invés de pronunciar um juízo estético (se esse juízo é grosseiro ou não, pouco importa), emitir um juízo a respeito de inteligência (se esse juízo é uma grosseria, isso pouco importa).

O preconceito é gerado pela facilidade com que fazemos o pré-conceito. Mas há hoje em dia mais pré-conceito contra o conceito de preconceito que qualquer outra coisa. Tudo é preconceito. A palavra preconceito, dentro desse universo de má escolarização chamado Brasil, se transformou em sinônimo de “não gostar”. É necessário gostar de tudo, ser “cool”, ser “light”, ser nazista só nas horas vagas, e então qualquer descrição que não cai nessas caixinhas, é chamada de preconceito. Erro fatal.

Mas, e se “Gorda burra” vier complementado por “a gordura subiu ao cérebro e a deixou desse modo, burra”. Isso é preconceito? Pode ser, mas, a expressão antes de tudo parece estar conscientemente posta na forma de preconceito para provocar o humor. Nesse caso, acusar de preconceito é, não raro, não entender a piada, ou então, em alguns casos, entender a piada de modo a achar que ela solidifica algum preconceito. Aí são outros quinhentos, e em geral sempre há alguma discussão sobre comportamentos e usos linguísticos quando isso ocorre. Nem sempre uma discussão produtiva.

Mas falemos um pouco também de conteúdo, não de forma. Muitos preconceitos utilizados como humor assim aparecem como reação a um grupo que o utiliza de modo pedante, pouco claro, exagerado. Por exemplo, se gordos insistirem que ser gordo é pertencer a uma minoria sociológica com o mesmo status de minoria cultural, como minorias étnicas, por exemplo (negro, índio), ou minorias criadas negativamente pela opressão (homossexuais), o humor pode utilizar do preconceito aí, para além de produzir o riso realmente fustigar o deslize dos gordos ao quererem ser mais do que são. Pois atualmente a ciência nossa tem mantido “gordo” no quadro de potencialidade para doenças. Na nossa sociedade ser gordo é doença. Isso não é preconceito. Isso é conceito. Não gostou, tente conceituar de outra forma, mas que isso atualmente é conceito, é conceito. Como?

Há um consenso social atual que une estética e medicina. Aliás, deixamos de pesar as pessoas para falar delas como gordas e doentes, apenas medimos a circunferência da cintura. O barrigudo é o problema. O visivelmente gordo é o problema. Sua estética ofensiva ao olhos de hoje, mesmo em uma sociedade onde todos são gordos, não é algo puramente estético, mas indício uma campo estético que em sua fenomenologia dá ao olho médico o sinal de alerta de que algo interiormente não vai bem, e está prestes a se manifestar. Você pode não gostar desse conceito, mas ele é um conceito, não é um preconceito. Ele faz o papel de conceito à medida que dá para a sociedade um indicador válido de medicina preventiva. Ele fecha um quadro descritivo e explicativo que consensualmente explica o que é ser gordo e suas implicações.

Mas um conceito não gera direitos ou perda de direitos imediatamente. Não deixar uma gorda assumir uma cadeira de professora, isso pode ser considerado uma perda de direitos, uma discriminação, pois ser gorda não é ser má professora. Todavia, o empregador pode tentar justificar que ser gordo é ser alguém candidato a não vir trabalhar e onerar a empresa. Essa justificativa, num mundo como o de hoje, é péssima, mas em princípio ela pode sim ser colocada na jogada na disputa advocatícia. Se vai vencer no âmbito jurídico, vai depender dos ventos de época.

Gordos e gordas, a pior coisa que podem fazer agora é agir como as feministas, que imitaram outros. Não gritem “gordos e gordas do mundo, uní-vos”. Não façam isso, pode faltar espaço.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 04/11/2016

Foto: inicial, americana que lutar para ser a mais gorda do mundo. Ela tem 300 kilos é quer chegar a meia tonelada. Abaixo, foto das moças do movimento “Vai ter gorda na praia sim”, de Salvador.

vai-ter-gorda-na-praia-sim

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4 Responses ““Gorda e burra” – é preconceito?”

  1. alan a
    04/11/2016 at 13:52

    “15.9. Serão considerados inaptos os candidatos […]
    Obesidade mórbida com comprometimento aeróbico;”

    https://www.pciconcursos.com.br/concurso/ect-correios-308-vagas

  2. Olavo de Caralho
    04/11/2016 at 11:28

    Você deve ser muito corajoso para escrever isso. Excelente texto. Realmente não se intimida com a reação das pessoas?

    • 04/11/2016 at 12:06

      Caralho, já imaginou um falso filósofos, um midiagogo que quer só falar para agradar, de modo a ganhar dinheiro com a próxima palestra de bunda? Já imaginou viver uma vida dessas, completamente covarde e medíocre? Deve ser uma desgraça, não?

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