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24/06/2017

Eu sofro, então sou! O falso ódio de todos contra todos


Não há nada mais tolo que a ideia corrente na mídia sobre a “expansão do ódio”. Nenhum estatística registra grandes alterações, em fatos concretos, sobre a violência por questões de opinião ou práticas éticas diferentes. Crimes homofóbicos não foram ampliados. Estudos mostram que o que foi ampliado foi o registro desses crimes. Crimes políticos no Ocidente, por conta de direita e esquerda? Ora bolas, já nos esquecemos do terrorismo do tipo das Brigadas Vermelhas? Já nos esquecemos do assassinato dos atletas de Israel nas Olimpíadas? E nos anos 80, será que todas as revoluções que levaram ao fim do comunismo foram pacíficas? Ou elas mostraram assassinatos tão bárbaros quanto ao de Gadafi, nas ruas? As pessoas se esqueceram de como havia linchamento na mídia? Só notaram isso por conta do Facebook? Para recordar um fato interessante: Marcelo Coelho, jornalista da Folha, foi obrigado a pedir desculpas públicas por conta da reação violenta de alunos e professores (inclusive veteranos) da PUC-SP contra ele, quando disse a frase “isso qualquer aluno da PUC faz” ou coisa parecida. Foi execrado e humilhado!

A ideia de que nos reunimos em grupos para colocar alguém no corner, mesmo não sabendo direito de quem se trata, ou mesmo sabendo que pode ser mentira a acusação sobre uma tal pessoa, faz parte da história da democracia de massas que, desde o seu início, se associou a um tipo de nova imprensa, a imprensa de massa. Nunca o mundo foi o mesmo após Gutemberg. Nunca mais fomos humanos iguais ao humanos que não escreviam panfletos de rápido alcance,  como se começou a fazer a partir do final do século XX. A Internet não mudou muito isso, apenas retirou elementos de mediação menos rápidos, só isso. Tornou a ofensa, a bisbilhotice, a fofoca, a execração pública, a tréplica injusta e coisas assim uma guerra de bate-pronto. A velocidade dá a impressão de ódio maior, mas não é. Aliás, muitas vezes, nem é mesmo ódio. Quem xinga e deseja mal, não necessariamente odeia.

O que aumentou de fato, isso sim, foi o desejo de ser ferido. Mas cuidado, não se trata do vitimismo criado como noção pela direita para acusar a esquerda e os democratas liberais. É algo mais complexo. Não se trata do elemento ideológico que a direita inventou para dizer que cotas para negros e índios era vitimização. Nada disso. Falo em termos gerais do que invade o comportamento de todos nós.

Como a impressão de ódio cresceu, por conta da velocidade e das possibilidades de réplica e tréplica instantâneas, algo mais ou menos universal, isso gerou, sim, o crescimento da ideia de que todos têm direito de reclamar de ferimentos reais e, principalmente, imaginários. Todo mundo quer ser atingido pelo ódio para poder reclamar, processar, se proteger com algum muro dentro de sua redoma grupal dos “mais ofendidos”. Ricos se protegem dizendo que pobres os invejam e pobres se protegem dizendo que ricos os oprimem. Aliás, o psicologismo se torna a regra da conversação. Gordos, magros, pretos, cinzentos, mulheres, quase-mulheres, animais, bichos, flores e frutos – todo mundo tem sua redoma e, lá de dentro, dá gritinhos de ofendido. Cada um tem seu grupo e, dentro dele, acredita poder xingar sem ser xingado, e quer a censura do outro, lá do grupo oposto: “nossa, como você pode ser professor e dizer isso para mim?” Frases desse tipo é que estão proliferando, porque a questão toda é de viver ao contrário do que nossos pais mais velhos nos ensinavam: “não venha para casa chorando porque apanhou, pois aqui apanha mais”. Agora não! Agora o lema é assim: “venha todo dia para casa chorando, e papai vai na escola tirar satisfação”. Chegamos ao ponto de gente da direita truculenta vir chorar no Facebook porque foi agredido por uma mulher, ou de brancos ricos reclamando de racismo. Vemos gente de de esquerda que defende revolução armada (e execução com julgamento sumário de adversários) aparecer gemendo porque algum Trump da vida lhe deu uns tapas verbais no bumbum. O lema ontológico é “torne-me ofendido para que eu possa existir”.

A ideia básica da democracia, de que os mais fortes não devem humilhar os mais fracos, ao final venceu e transformou todos em gente que precisa se vilipendiada. Não existe ninguém forte. Todos são vítimas. Como disse e repito: até mesmo os que, na direita, inventaram a acusação de vitimismo, é agora os que mais reclamam. Aliás é engraçado o vitimismo de direita: até ex-torturador aparece oprimidinho. O próprio Trump veio chorar dizendo que a imprensa toda o estava “perseguindo”!

Com isso, as pautas reais contra a crueldade caem na banalização. Um animal sacrificado cruelmente não importa, pois os democratas de plantão acham que ele é igual a uma cenoura. Pode ser que no passado não tivéssemos defensores de animais como hoje, mas ninguém falaria, como agora, que cenoura e vaca são as mesma coisa. Mas agora, um tonto de gravata acha que pode dizer isso. Claro! A banalização da ideia de opressão é irmã gêmea da banalização da própria opressão. Aquele que luta para que a crueldade contra animais não vingue vê logo o seu argumento invertido: surge alguém que acha que foi oprimido por não poder bater no seu animal. Ninguém mais sabe de que lado está o tipo oprimido e, por isso mesmo, a feminista vira feminazi. Pode-se falar como Putin: batermos em nossa mulher sem deixar marcas, então é muito sofrido ter de pagar por isso indo para a cadeia. O problema todo é que nesse nosso momento atual é necessário, para parecer justo, ser oprimido, ser sofrido, ser vítima. Todo mundo de todos os lados deseja ser ameaçado de estupro, para vir gemer na TV ou no Facebook, e o efeito colateral disso é que, fora dos meios ideológicos, pessoas comuns são realmente estupradas na família.

A denúncia de que há ódio de todos contra todos esconde o fato de que o ódio real, menor do que aparece em alguns lugares, e maior do que aparece em outros, não precisa ser combatido. O que vale é esbravejar, gemer, ter chilique. Valer ser sofrido, e se consegue isso gemendo.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 13/02/2017

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3 Responses “Eu sofro, então sou! O falso ódio de todos contra todos”

  1. Leni Sena
    04/03/2017 at 21:08

    Verdade Paulo, já tá ficando chato essa onda de vitimismo. Essa droga só desvia mesmo a atenção para as coisas que realmente tão acontecendo, transformando fdp em mocinhos.

  2. Orquidéia
    14/02/2017 at 23:33

    Não há “ódio”, o que tem é uma onda de pessoas mutuamente estressadas,e irritadas com as atitudes das outras.

    • 15/02/2017 at 08:00

      Orquidéia, garanto para você que não chega a tanto.

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