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27/06/2017

Tiros na boate gay – ah, como é fácil explicar isso!


Não pensar é um modo de vida da militante feminista da esquerda ou do falastrão da direita. São as pessoas que colaboram com a banalização de tudo. 

Hannah Arendt notou no comportamento de Eichmann que ele não era um gênio do mal, mas sim um burocrata medíocre e, só assim, do mal. Mas ela evitou falar em mal e optou por tentar explicar a banalidade do mal, praticada por Eichmann. Foi fazendo isso que perdeu a maioria de seus amigos. Pois seus amigos eram militantes, e só ela era professora. Mesmo os professores (judeus) da universidade eram militantes, e não suportaram conviver com uma mulher (judia) que era fundamentalmente filósofa. Arendt recusou-se a fazer com Eichmann o que era a prática de Eichmann.

Qual era a prática de Eichmann? Aquela prática que usamos para descansar o cérebro, a de usar certas palavras que nos tiram do pensar, do refletir, do trabalho de consciência. Trata-se de uma prática linguística, pela qual com meia dúzia de palavras podemos nos livrar de todas as outras palavras do vocabulário que temos na vivência de uma língua. Todos nós fazemos isso: damos um nome para uma coisa e o nome, por ser comum, corriqueiro, sempre usado, torna o que vemos banal. Assim sobrevivemos. Assim evitamos do desgaste que seria pensar sobre tudo. O problema de Eichmann e de gente como ele é que sua prática de uso de tais palavras se fez para tudo, preencheu sua vida, fez dele o medíocre que ele sempre foi, construiu o burocrata que pensou em câmaras de gás para a morte como quem pensa em pedir um bujão de gás pelo telefone, para a cozinha. Eichmann era um homem de bater carimbo. Só isso. Não tinha nem como apreciar as mortes que causava. Isso jamais lhe tirou a culpa, mas deveria fazer dele um culpado nada genial.

Hannah Arendt tentou evitar imitar Eichamann. E foi pensando e investigando que ela arrancou esse perfil do carrasco. Mas seus amigos judeus já estavam mais ou menos como Eichmann, eles tinham um nome para o criminoso: monstro ou gênio do mal. Sem isso, não podiam conviver com o fato de terem sido dizimados. Sem isso, não podiam suportar a própria pressão de jovens de Israel, que culpavam seus pais e avós, justa ou injustamente, por não terem lutado. Quando Arendt evitou fugir da consciência, quando não quis deixar de pensar, quando não quis ser burocrata para analisar o burocrata, seus amigos se sentiram mal, pois eles queriam se livrar de refletir sobre o assunto. Eles queriam não ter que pensar. Alguns, para não sofrer duas vezes, outros para não pensar mesmo. Pensar cansa, pensar sobre um momento de sofrimento, cansa mais. Pensar dói. Por isso, nem todos pensam. Não são poucos os que mesmo sendo pagos para pensar, não pensam.

Hoje em dia encontramos inúmeros Eichmanns e ex-amigos de Arendt por aí. Se há um estupro, tudo se resolve sem pensar, sem refletir, basta usar a palavra “machismo” e, pronto, já se pode passar adiante, para a outra notícia. Tudo está explicado! Então, já é possível deixar o caso para trás e ler a próxima manchete. Ah, mas se estamos diante de uma universitária, ela quer mostrar que pensa, então ela não diz só “machista”, ela diz que tudo foi provocado pela “sociedade patriarcal” e, mais ainda, ela é tão um gênio que ela tem uma solução: uma campanha com a frase “contra a cultura do estupro”. “Cultura do estupro” – eis aí a maior bobagem que já escutei na vida. Tudo isso é fuga do estudo, da investigação, da capacidade de tentar montar grandes teorias que notem as coisas na complexidade histórica e geográfica que elas têm. Nada disso! A geração Twitter não pode fazer isso. Tem de resolver com apenas uma palavra ou uma frase curta, como Eichmann fazia e como os críticos de Arendt exigiram dela.

Cinquenta pessoas mortas por um atirador numa boate americana. Como o lugar era uma “boate gay”, então, com cinco ou seis rótulos sobre os Estados Unidos ou dizendo que  “o ódio homofóbico cresce” ou sobre a “sociedade patriarcal” e está tudo explicado e, portanto, podemos já passar para o assunto seguinte. Que o senso comum teime em agir assim, eu não me conformo, embora saiba que ele pode fazer isso e realmente faz. Agora, o que realmente irrita é ver professores universitários fazendo isso. Agem com militantes, como Eichmann ou os judeus que abandonaram Arendt agiam. Agem como medíocres.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

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10 Responses “Tiros na boate gay – ah, como é fácil explicar isso!”

  1. thiago leite
    20/06/2016 at 15:42

    Eu vejo esse atirador semelhante aos religiosos evangélicos petencostais que ficam titubeando entre ser gay e ser hetero. No caso do Brasil eu vi um monte dizer que a igreja estava certa e que eles estavam doentes. Esses religiosos aceitaram as explicações da igreja e optaram pelo mundo não gay dizendo que foram tentados pelo diabo ou algo parecido. Acredito que aconteceu o mesmo com ele. O sujeito deve ter se arrependido de ter tido algum tipo de relacionamento com os gays e para limpar a sua barra com Alá resolveu tentar apagar o seu passado atirando na boate gay. Dessa forma ele estaria perdoado e puro novamente assim como o seu passado.

    • 21/06/2016 at 08:55

      Thiago, há centenas de formas de ser um fanático assassino. Esse é uma delas, e tá na moda.

  2. Roberto
    16/06/2016 at 22:11

    Quando você disse “Não são poucos os que mesmo sendo pagos para pensar, pensam”, não quis dizer : “… mesmo sendo pagos para pensar, NÃO pensam”?

  3. Valeria
    13/06/2016 at 22:46

    Paulo, quando você inicia o seu artigo com o rotulo “militante feminista da esquerda “, nao esta, ao colocar todas os contrários (e contrarias) na mesma vala comum, cometendo o mesmo erro que aponta ? PS : desconsidere os erros, pois meu teclado nao faz os acentos.

    • 14/06/2016 at 07:23

      Tá bom valéria, eu mudo: pessoa filiada a uma corrente política que diz visar a defesa das mulheres segundo uma ótica da visão política oriunda do Terceiro Estado, chamada de esquerda por causa de sua posição física na Assembléia durante a Revolução Francesa. Pronto, tá bom agora?

    • 14/06/2016 at 17:59

      BARDO seu texto está uma confusão. Melhore isso.

  4. Aylton
    13/06/2016 at 13:24

    A filosofia virou puta de militância política Paulo. Hoje prefiro mais fazer mais a filosofia “técnica” do que expor minhas opiniões sobre determinadas questões . O “fim da filosofia”

    • 13/06/2016 at 18:30

      Aylton isso não tem nada a ver. Toda filosofia é técnica, não me referi a opiniões de filósofos. Um bom filósofo faz boas intervenções no quotidiano, pondo uma cunha, fazendo a desbanalização do banal. O engraçado é que você não entendeu meu texto, você não conseguiu absorver o mote do blog. E o mais estranho ainda, você não entendeu a Hannah Arendt!!!

    • Aylton
      14/06/2016 at 15:36

      Professor, quando falei de filosofia técnica quis me referir ( talvez não adequadamente ) à um abordagem particular de filosofia. No mais, falar de filosofia enquanto “puta de militância” não quis falar os diversos tipos de abordagens não são válidos

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