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16/07/2018

Estamos mesmo mais intolerantes? Ou estamos apenas mais verborrágicos na Internet?


[Artigo para o público em geral]

A Rede Globo mostrou no Jornal Nacional uma pesquisa mundial que mensura a percepção da intolerância no Planeta. A notícia é clara, mas talvez seja necessário reforçar um detalhe: não se trata de uma mensuração sobre o aumento da intolerância, mas sobre a opinião das pessoas a respeito do aumento da tolerância em seus países. Ora, a pesquisa por si mesmo, portanto, nada diz a respeito da intolerância efetiva, e não temos razão em apostar sem desconfiança – principalmente por conta da resposta homogênea – que a percepção da intolerância diz alguma coisa de verdade a respeito da realidade da intolerância.

A maior parte dos pesquisados diz que pensa que seus países estão mais divididos e que há mais ódio. Mas essas mesmas pessoas não deixam de dizer que tal ódio é verificado por elas “nas redes sociais”. Elas não falam que há, no cotidiano das relações pessoais, mais intolerância. No máximo, elas reiteram o que todos nós temos sentido. De fato, sentimos olhares preconceituosos aqui e ali, mas, quanto à percepção da intolerância, estamos falando do que temos vista na Internet, não necessariamente na nossa vida cotidiana fora das redes sociais.

O ódio nas rede sociais, que os que desavisados tomam como sendo ódio de fato, diz respeito à própria forma de requisito para a participação na rede. Uma observação mínima sobre o comportamento nosso em rede social deixa ver que todos nós ampliamos nosso grau de agressividade a níveis que não correspondem à nossa agressividade nos relacionamentos de trabalho, de amizade, de amor etc. fora da Internet. As redes fazem com que possamos, sem olhares e sem responsabilidade do convívio, desdenhar a opinião de outro, ou mesmo atacar a opinião de outro, sem achar que há de fato ódio ou ofensa “pessoal” a esse outro. Isso é tão verdade que a Rede Globo proibiu seus funcionários conhecidos, ou seja, o pessoal que fica à frente das telas, de participar de rede social. Isso ocorreu porque a emissora de tv notou que atores e apresentadores pacíficos e afáveis estavam se envolvendo em brigas absurdas e desnecessárias nas redes sociais, e que ninguém estava conseguindo suportar qualquer brincadeira ácida sobre si mesmo ou sobre alguma coisa querida. A ideia da Globo, certa ou errada, foi a de não criar animosidade nas redes sociais por meio de brigas de seus empregados.

A verdade é que a rede social é um lugar de briga, de confronto, e que bom que seja assim! Pois podemos ser menos hipócritas. Podemos dizer o que não dizemos no cara a cara fora da rede. Encontramos um homofóbico e o xingamos, exatamente porque não podemos xingar o nosso parente homofóbico que nos visita ao domingo.

Nada garante que nossa verborragia na Internet provoque ódio de fato no cotidiano fora dela. Dizer que há mais protestos de rua e mais conflito entre patrões e empregados em correlação ao aumento disso na Internet é alguma coisa que não tem base alguma. A solidariedade de rua, as amizades e o convívio de bairro em nada foram afetados pela verborragia que nós todos usamos na Internet. Perdemos amizades por conta da Internet? Sim! Mas eram de fato amizades importantes? Não! E de fato, somos capazes de conviver de novo com quem, nas redes sociais, brigamos? Claro que sim!

Se podemos dizer que uma pessoa na Internet é estúpida, nós dizemos. Não faríamos isso no convívio real. Mas, na maior parte dos casos, o xingamento permanece na Internet e, no plano da vida prática fora do mundo virtual, isso não influencia em nada. Trump e Kim Jong-un se xingaram nas redes sociais durante um ano, e podem a qualquer momento, na vida fora da Internet, se encontrarem e trocarem beijos. Os beijos vão valer mais, pois são beijos regrados por pressões no sistema de financiamento da Coreia do Norte, causado pela China em favor da paz benéfica à comercialização, vinda antes de tudo da ONU.

Menos histeria sobre a histeria da Internet é uma atitude mais inteligente.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60,  filósofo

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