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28/04/2017

Os animais precisam de amigos, não de partidos, seitas e malucos


Defensores de animais não precisam criar seitas. Podem filosofar sobre o assunto. Mas não devem ideologizar o assunto. Não ganham nada ao criarem divisões meramente ideológicas. Quem gosta só de cachorro e dá ração de carne para o seu cão não tem que ser condenado. Os que amam animais em geral podem fazer sugestões de outras comidas para uma pessoa. Tudo é assim, paulatino, vagaroso.

Esperar que alguém ame os animais em geral é o mesmo que esperar que alguém ame a humanidade em geral. Ninguém faz isso. Isso é algo das religiões ou de doutrinas universalizantes que podem entrar por um terrível fundamentalismo combatente. O modo histórico pelo qual ampliamos nossos círculos de gosto não caminha assim, pelo amor ao abstrato. Antropologicamente aprendemos que o “é um de nós” (Rorty) avança vagarosamente por meio de contatos empíricos como casamento, necessidades profissionais, vizinhança, casos de mútua-ajuda em catástrofes etc. Olhamos para o outro e, sabe-se lá por qual motivo, descobrimos que ele não é tão estranho quanto parecia, e lá pelas tantas temos um filha namorando o filho do inicialmente estranho. Com o tempo todo o grupo do estranho já é “gente nossa”. Assim funciona também o amor pelos animais, ele se dá na ampliação de círculos.

Quem gosta de cachorro pode gostar de outros bichos. Quem defende urso panda terá mais dificuldades de gostar de aranhas, e nenhum de nós, mesmo entendendo o papel ecológico até das baratas, irá convidar algumas para um beijo noturno. Continuaremos tentando não deixar o mosquito da Zika se reproduzir ao mesmo tempo que iremos ver se as abelhas não venham a desaparece. Cuidamos de nossos animais intestinais sem amá-los. O especismo não está errado em princípio. Fica errado quando vira ideologia e piora bem quando ganha ideologias contrárias dentro de grupos de defesa animal. Aí os animais são esquecidos, e grupos nazistóides, tipo feminazi, aparecem gritando. Já não se trata mais, então, de defesa dos animais, mas de idiossincrasias demasiado humanas em luta por auto-afirmação ou por suprir carência emocional de todo tipo.

O filósofo alemão Peter Sloterdijk fala da “sociedade da leveza”. Trata-se do mundo atual em que diminuímos encargos pesados, hora de trabalho, esforço manual, etc. Liberamos o homem e a mulher da gravidade. Pode-se subir com mais facilidade. Então, para não perder o sentido de realidade, enfiamos nesse mundo mais leve algum tipo de peso ontológico, um tipo de âncora. Uns vão para o esporte, outros para a mania de doença, outros para o tédio e a depressão profunda e outros, ainda, inventam militâncias. Algumas mulheres começam a recolher gatos na rua. Estão loucas. Já não ajudam gato nenhum, apenas estão loucas. Enlouqueceram na busca de atividade que lhes desse sentido ontológico, peso de realidade num mundo leve demais. Os que protegem animais devem olhar para si mesmos e dizer: não sou isso, ainda não sou esse tipo. Ou seja, a proteção devida é sim para os animais, não para nós mesmos.

Grupos separados de defesa dos animais não tem que se digladiar. Não devem repetir guerras religiosas, nem mesmo devem fazer “viadagem” e começar de mimimi uns com outros. Os animais observam isso e acabam rindo. Um dia irão dizer: de gente maluca não queremos ajuda.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 25/11/2016

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3 Responses “Os animais precisam de amigos, não de partidos, seitas e malucos”

  1. Orquidéia
    25/11/2016 at 23:30

    Então como os gatos devem ser ajudados?

    • Orquidéia
      25/11/2016 at 23:31

      Não, não sou uma dessas mulheres que recolhem gatos…

    • 26/11/2016 at 00:11

      Recolhendo.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo